Oi oi! Antes de começar a ler, tenha certeza de ter lido a parte 1 e parte 2 do conto! Você também pode encontrar todos os contos aqui! Agora vamos ao conto!
Ao fim da história, a inusitada carruagem do Rei Sapo já estava se aproximando da cidade. De longe, Nicolas não conseguia reparar nada de diferente: parecia uma típica cidade do interior do país, com muita vegetação, poucas construções altas e sem iluminação elétrica. A vitória-régia começou a abaixar voo e cruzou a parede que protegia a cidade. Nicolas não sabia disso, mas foi a magia da Deusa que o permitiu fazer a travessia, como permitia também os aventureiros. Ela podia sentir a presença dele ali mesmo sem vê-lo, e saber que não faria mal algum ainda que nunca tivesse falado com ele.
Agora, perto o bastante para distinguir movimentos entre as copas das árvores, ele se deslumbrava com o que via. Fadas voavam aqui e ali, ajudando os animais noturnos e guiando flores que nasciam à noite. Observou uma das fadas que parecia ensinar filhotes rouxinóis órfãos voarem de seus ninhos.
A pouca iluminação que tinha, vinha das estrelas e da lua, além de pequenas chamas flutuantes mágicas que iluminavam os caminhos principais. Ainda assim, era possível ver os ladrilhos coloridos e lindos jardins crescendo de maneira bagunçada e esplêndida. Cogumelos enormes saltavam aqui e ali, e alguns sapos coaxavam e brincavam em cima deles. Apesar das circunstâncias, Nicolas não conseguia esconder o sorriso: tudo ao seu redor tinha cheiro de magia, sonho e aventura.
-Lá está. Lar doce lar. – Disse a Majestade, apontando para o palácio.
Nico olhou para onde seu dedo apontava. Era um grande palácio que parecia ser feito de rochas e plantas. Se estivessem em qualquer outro lugar, talvez aquela construção fosse chamada de “abandonada”, mas em Estranha, era magnífica. Parecia mesmo uma estrutura viva. Vagalumes rodeavam as paredes do castelo, embora se escondessem sempre que os sapos passavam por eles.
Ah, sim! Os sapos! Estavam por toda parte, obviamente. Madames e cavaleiros anfíbios, pulando no lago ou descansando nos troncos, e até dançando canções carnavalescas! Como são noturnos, estavam em plena atividade durante a madrugada. Nicolas se animou pensando no que seu padrasto (que compartilha com ele seu amor por animais) falaria se estivesse ali com ele. Ao passar pelos sapos, claro, os mesmos reverenciavam o Rei, que acenou para eles.
A vitória-régia deixou o Rei e o garoto na porta do palácio, onde duas seguranças estavam prontas para escoltá-los para dentro. Assim fizeram.
O interior do palácio era tão estupendo quanto o lado de fora. Nicolas não podia deixar de pensar o quão lindo aquele espaço seria durante o dia. Com paredes altas, janelas grandes e plantas invadindo, cada centímetro do lugar parecia respirar.
No salão de entrada, um grande lustre com chamas amarelas proviam uma baixa iluminação no local. Como o ambiente era habitado por criaturas com visão noturna, eles não se preocupavam tanto com as luzes. No chão, quadrados vermelhos (de flores) e verdes (de musgos) formavam um gigante tabuleiro de xadrez. No final da sala, ao centro, um grande trono para o Rei. Nas laterais, escadas de pedra levariam para o segundo piso. Cavaleiros anfíbios apareceram através das portas laterais e se colocaram à disposição da Majestade.
-Este é o garoto que resolverá nosso problema. – Disse o Rei para os guardas. – Levem-no para o quarto de hóspedes. –
“ ‘Nosso’ problema?” refletiu Nico. O rei, virando-se para ele, disse:
-Durma, garoto. Amanhã de manhã as soldadas mais astutas do meu exército te guiarão na sua jornada. Tenha uma boa sorte. –
Nicolas nem teve tempo para respondê-lo. Os guardas o levaram até o quarto, e ele soube que não veria o Rei novamente.
***
O quarto de hóspede seguia a estética do restante do palácio, exceto por um detalhe: no teto, algum tipo de magia fazia com que o céu fosse reproduzido ali. Nicolas se deitou e observou as estrelas enquanto refletia sobre suas descobertas recentes. Uma cidade escondida, sapos humanóides, um pai aventureiro em perigo, fadas, magia… era tudo muito empolgante. Mesmo com tamanha excitação, sabia que precisava dormir caso quisesse ajudar o seu pai na manhã seguinte. Por isso, abraçou sua pelúcia e colocou-se para contar as estrelas. Pegou no sono na vigésima sexta.
***
O sol invadia o quarto de hóspede fazendo Nicolas levantar-se antes mesmo que as soldadas viessem acordá-lo. Com a luz, ele podia agora ver melhor o seu quarto. Nas paredes de madeira cresciam heras e cogumelos, e joaninhas se escondiam entre as folhas. A janela aberta era convidativa para os pássaros que entravam e saiam de lá cantando. Grandes árvores podiam ser vistas, e nelas escondiam-se todo tipo de animais silvestres que a mata atlântica pode abrigar. Nessa cidade, os seres mágicos viviam em tão intensa harmonia com a natureza, que ela mesma parecia mais encantadora do que nunca, como se nela estivesse a real magia.
Nicolas sentiu cheiro de pão fresco e chocolate quente. Olhou em direção a porta e percebeu ali uma bandeja flutuante que acabava de surgir naquele lugar. Ele andou até ela, pegou, e voltou para cama para tomar seu café-da-manhã.
O garoto sentia-se ao mesmo tempo como um membro da realeza e um grande aventureiro. Mal podia acreditar que aquilo estava acontecendo com ele! O que diriam quando ele contasse sobre isso? Bem, eles não iam conseguir acreditar… “De alguma forma,” pensou Nico “nem sei se eu mesmo acredito no fim das contas.” Temia que fosse apenas um sonho em que ele acordaria a qualquer momento e estaria novamente em sua casa. E seu pai, nunca viria… não porque ficou preso em uma bolha de pesadelos, mas sim porque ele não quis.
Espantou da mente esse pensamento triste. É claro que era tudo real. Se não fosse, como esse chocolate quente poderia ser tão delicioso? Não podemos sentir gosto em sonhos, ou podemos? “Mas se é verdade…” pensou Nicolas, com uma pontada de medo “mamãe deve estar furiosa!”.
Tomou o chocolate-quente cujo sabor era divino. Mais uma das coisas que Nicolas não sabe e é privilégio do leitor saber: o chocolate quente com notas de cogumelo e pétalas de orquídeas preparado pelas fadas é a bebida favorita dos seres mágicos exploradores – principalmente quando acreditam que trata-se de sua última refeição. Nessa manhã, na cozinha do palácio, alguma fada julgou que Nicolas talvez não voltasse de sua jornada… mas é melhor nosso mini-herói não saber disso.
O garoto ouviu batidas em sua porta.
-Pode entrar! –
Seis soldadas-pererecas entraram no quarto.
-Bom dia, senhor Nico. Eu sou a soldada Joan Beauchamp. Sob ordens da Majestade, vamos lhe acompanhar até a área da bolha de tormenta.
Nicolas concordou com a cabeça.
-Mas primeiro, precisamos te equipar. – Disse uma segunda soldada.
Se dirigiram então para a parte externa do palácio, onde algumas fadas trabalhavam durante o dia.
-Ei, Carlin. – Joan chamou. – Venha cá. Nosso amigo aqui precisa ser equipado. –
Carlin, uma jovem fada ruiva, com vestes em marrom e um arco de folhas secas, se aproximou voando.
-Oi! – exclamou alegremente – Quem é esse? –
-Esse aí é o Nicolas. O Rei foi pessoalmente buscá-lo ontem. Ele vai nos ajudar a resolver o problema da bolha de tormenta. Ele é filho do cara.- Explicou Joan.
-Ah… – Carlin ofereceu a Nico um olhar de compaixão. – Ouvi dizer que ele está péssimo. Sinto muito… –
Nicolas sentiu seu coração pesar. Não sabia que a situação era tão grave. O que estava acontecendo, afinal?
-Kiara sabe que ele está aqui? – Perguntou Carlin.
-Bem, saber ela sabe, né? Mas pelo que dizem, o Rei não procurou ela antes. Joan respondeu em tom conspiratório. – Bem, vamos ao ponto: Faça uma armadura para ele, por favor. E um arco leve. Ele vai precisar. –
Carlin fechou os seus olhos e se concentrou por uns segundos. Nicolas não entendia o que estava acontecendo. Porque ela não podia só buscar essas coisas para ele?
Em menos de um segundo, as raízes das árvores próximas brotaram do chão e subiram pelas pernas do menino, formando uma armadura de madeira encantada e envolvendo-o. Em suas mãos, surgiu um arco com madeira e cipó, com flechas envenenadas por micotoxinas.
-Já atirou flechas alguma vez? – Perguntou Joan.
-Só com Nerf, tia. –
-Não sei o que é isso, mas espero que sirva. – Voltando-se para as outras soldadas e Carlin: – Bem, sem mais perder tempo. Vamos logo. –
Elas se colocaram em posição, com Nicolas no meio delas, sendo protegido. Haviam andado alguns passos quando Carlin grita:
-Esperem! –
Pousando bem a frente deles, com seus pés descalços na terra úmida, encarou Joan com um olhar suplicante:
-Posso ir também?
-Não. – Ela disse, seca.
-Mas eu posso ser útil!
-Já disse que não.
-Por favor!
-Não! – gritou Juan.
-Bem, eu vou de qualquer jeito. Se você me aceitar com o grupo, ficarei mais protegida, se for escondida, então não terão como me proteger.
Juan deu-se por vencida. Carlin tinha essa fama de ser insolente o bastante para conseguir tudo o que queria, e além disso não pegaria bem uma fada machucada por culpa dela.
E então, seguiram pelo caminho seis pererecas, uma fada e um menino.
Nicolas se perguntava por que raios toda essa preparação. Pelo que havia entendido do Rei, o garoto ia chegar perto da bolha onde seu pai estava preso e começar a conversar com ele, na tentativa de que isso pudesse o acalmar e interromper a retroalimentação da tormenta com os pesadelos dele. Mas pela forma receosa como iam, algo perigoso estava por vir.
