Como Nicolas salvou a si mesmo. Parte dois: se um rei sapo falar com você, lembre-se de dizer “Vossa Majestade”.


oi oi! antes de começar a sua leitura, esteja certo de ter lido a parte 1, já publicada aqui no blog.

Além disso, quero deixar claro que me inspirei para as próximas partes na aventura Carnaval Carmesim do FlameReaper e no sistema de RPG Tormenta 20.

Agora, sem demoras… vamos a aventura!


Agora Nicolas estava do lado de fora com o Rei Sapo. Ouviu a porta de sua casa bater atrás de si. Nesse momento, o menino sentiu um arrepio na espinha… não havia mais escapatória. Estava saindo de casa de madrugada com um estranho. Sua mãe ficaria furiosa! A noite estava fria e escura, e uma névoa densa tornava o ar da serra pesado. Ele olhou para o Rei. 

-E então… o que posso fazer? 

-Primeiramente, você deve terminar suas frases com “Vossa Majestade”, criança. Respeite o Rei dos Sapos! 

-Perdão, Vossa Majestade… mas pode me dizer… o que… está acontecendo, Vossa Majestade…? 

Sem perceber, o garoto estava seguindo a majestade anfíbia em direção a uma grande carruagem flutuante em forma de vitória régia. Quando viu, assustou-se. Na carruagem mágica havia mais um sapo humanoide, bem menor e menos elegante. Parecia uma espécie de “capacho” do rei. Curvou-se quando chegaram até ele. O Rei pareceu ignorar sua presença. Sentou-se na vitória-régia e chamou Nico para se sentar também. O menino obedeceu. 

-Nicolas. Você sabe qual é o trabalho do seu pai? 

-Sei. Ele é, hm… Algo a ver com “gente”. O que era mesmo? – Ele pensou. Sua mãe já havia lhe dito… trabalhava em uma loja e era… “dente”? “crente?” Gerente! – Ele é gerente de loja. Isso, gerente.- E, quase se esquecendo: –  Vossa Majestade- acrescentou rapidamente. 

-Criança burra! – o rei disse, grosseiro. – Eu quis dizer o trabalho de verdade. Você acha que um trabalho comum como esse atrapalha tanto a rotina de um adulto, a ponto de não poder ver o próprio filho nem no feriado? Tolo. 

Os olhos de Nicolas brilharam de animação com aquela revelação, sem ao menos se perguntar como o rei sabia tanto a respeito do seu Pai. 

-Então, Majestade, qual é o trabalho de verdade dele?! 

-Ele é um grande aventureiro, rapaz… 

Nicolas franziu as sobrancelhas. “Então aventureiros existem?” Pensou. 

-Há uma cidade escondida, criança… Escondida atrás de todas essas montanhas da serra. Nessa cidade, tudo é muito diferente do que você imagina. 

A carruagem levantou voo. Agora flutuava por cima das árvores, onde o frio era ainda mais cortante. Nico se encolheu abraçando as pernas na tentativa de se esquentar. Não tirava os olhos do Rei, que começava a contar uma longa história, repleta de magia. E como toda boa história de magia, esta também começa com “era uma vez”. 

  Era uma vez, uma belíssima cidade escondida entre as montanhas. Com ruas de azulejo colorido, florestas fartas e rios puros, o nome do lugar diz muito sobre seus habitantes: Estranha. A cidade era grande o suficiente para comportar todo o tipo de criatura que você consegue imaginar, se sua imaginação for das boas (hoje em dia raramente é). Animais falantes, gnomos, fadas, elfos, minotauros, árvores encantadas humanóides e muito, muito mais. Quase nenhum humano conhecia aquela cidade, e aqueles que tinham o azar de passar por lá eram mortos pela grande redoma que protege o lugar e mantém a magia acesa. Porém, alguns humanos eram escolhidos pela Deusa para adentrar a cidade, mantendo-a abastecida não só de informações, mas também de suplementos que eles próprios não conseguiam produzir. Estes eram chamados de “aventureiros”, palavra que outrora possuía outro significado, mas essa, é outra história. O avô de Nicolas foi um dos mais leais aventureiros da Deusa. E, por carregar o sangue do preferido da divindade, o pai de Nicolas tornou-se também aventureiro. 

Durante o mês de fevereiro, a cidade comemora o Carnaval Carmesim, festival bastante semelhante ao realizado pelos humanos: brincadeiras, danças e muita cantoria. Mas infelizmente, naquela tarde, algo terrível aconteceu. 

Em uma plantação não muito longe da cidade, surgiu uma Tormenta. “Tormenta” é a maldição que flagela a cidade Estranha e outros lugares mágicos (sim, existem outros). Há quem diga que a maldição foi posta pelos últimos humanos que ainda se lembravam de como fazer magia, antes da Deusa tirar-lhes a memória. Essa parte, entretanto, o Rei Sapo ocultou do garoto. A Tormenta é uma tempestade de sangue ácido, que corrói corpos das criaturas, destrói plantações e deixa os sobreviventes (se houverem)insanos. Para que os habitantes de Estranha não sofram tanto com as tormentas, a Deusa segura em suas próprias mãos as nuvens vermelhas que aparecem nos céus. Mas nem sempre ela consegue extinguir todo mal da chuva sangrenta. E dessa vez, não havia conseguido. 

A  Tormenta se conteve sim, e quase sumiu. Porém, apesar da força da Deusa, criou-se uma bolha oriunda da tempestade. Nessa bolha, que ainda não se dissipara, o pai de Nicolas havia ficado preso. Por benção da Deusa, seu corpo não estava se dissolvendo ainda… Mas estava desacordado e não conseguia sair. 

-Os pesadelos, medos e angústias dele… é isso que o mantém lá. É o que alimenta a Tormenta. Foi por isso que a bolha o pegou: por que seu pai é cheio de suas próprias angústias. – Terminou o Rei Sapo. 

Durante todo esse tempo, Nicolas se mantivera quieto e concentrado na história. Estava maravilhado com a existência de um lugar tão mágico, mas também assombrado com o destino do pai. 

-Mas não entendo, Majestade… como eu posso ser útil em uma situação como essa? – 

-Você, pequeno Nico – começou o grande sapo, com um carinho que não havia antes. – Você é o único capaz de tirá-lo de seus próprios pesadelos. – 

O leitor deve estar se perguntando o que fez um Rei sair de suas terras e subir até o inseguro território humano apenas para buscar uma criança que poderia salvar um dos aventureiros. É claro que havia outros interesses por parte do Rei. Nicolas, ao contrário, não pensou nisso. Apenas aguardou ansioso a chegada até seu destino: A mágica e encantadora cidade Estranha. E orou em silêncio para a tal Deusa, pedindo que o pai ficasse bem.

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