Como Nicolas salvou a si mesmo. Parte 4: Em uma batalha contra formigas gigantes, é melhor guardar sua língua.

Oi oi! Antes de começar a leitura, tenha certeza de ter lido as partes anteriores. Você pode encontrá-las aqui! Agora, vamos para a leitura.


O grupo se distanciava do centro da cidade a passos lentos. Com as pernas cansadas, Nicolas sentia-se cada vez menos motivado, e em nada ajudava o fato de que as pererecas não paravam de bocejar. 

A estrada de terra ia ganhando um contorno onde a mata nativa conversava com pequenas plantações e pastagens. Na copa da árvore havia pequenas casas de fadas, onde as crianças ajudavam bichos-preguiças a encontrar comida. 

Durante a caminhada, Joan, Carlin e Nico conversavam para se conhecer melhor e diminuir o peso da situação que assustava a todos. Nico descobriu que Joan, apesar de ser jovem, estava crescendo cada vez mais em sua patente dentro do exército de sapos. Era o sonho dela, desde criança, proteger a cidade dessa maneira, servindo ao povo e ao rei. Nico havia achado ela muito fria na primeira vista, mas agora que conversavam, percebeu que na realidade era um ser bastante gentil. Ela se casaria em breve. Seu casamento teria os mais deliciosos bolos já vistos, uma vez que sua noiva era a melhor confeiteira da cidade. Todos estavam convidados, e um chique concerto de sapos foi chamado para coaxar as canções favoritas das noivas, incluindo “O sapo que lava o pé” e “Ciranda dos vagalumes”. 

Carlin era ainda mais jovem que Joan. Começou a trabalhar no castelo há alguns meses e ainda não entende direito seu lugar lá. Está confusa. Atualmente é contratada para serviços manuais em madeira viva. Cria artefatos para o exército real… A fada reclama por ficar o dia inteiro enfurnada no castelo fazendo armas. Queria mesmo sair, explorar a cidade, viver coisas diferentes. Por conta disso, nem hesitou em seguir Joan na aventura. Quando envelhecer, Carlin diz que vai construir casas com sua magia. Coisas muito mais bonitas do que armas, na sua opinião. 

Caminharam por cerca de duas horas e meia quando avistaram, acima de um grande vinhedo, a bolha da tormenta. Ela era vermelha e parecia ser envolta por nuvens. Era possível ver raios de vez em quando, e, no seu interior, o pai de Nicolas parecia estar tomado por um sono repleto de pesadelos. Nico gritou. 

-Pai! – 

Joan agarrou o ombro do menino e o puxou para debaixo dos arbustos. 

-O que foi? Nós chegamos! – Exclamou a criança. 

-Fique quieto! Olha ali! – Joan apontou com a cabeça para algo na frente deles.

A poucos metros da bolha de tormenta, três monstruosidades protegiam a zona. Pareciam uma mistura de humano e formiga, com garras vermelhas assustadoras. Eles eram grandes e cascudos, com expressões nada amigáveis no rosto. Seria impossível passar sem serem vistos, então precisariam lutar. Nesse momento, Nicolas compreendeu o motivo daquela armadura e de toda a precaução das soldadas. 

-O que vamos fazer? – Questionou Carlin, assustada e entusiasmada ao mesmo tempo. Seus olhos pareciam ter sede de aventura.  

Joan pensou por um instante. 

-Estamos em maior número. Vamos conseguir sair dessa briga tranquilamente… – 

Dizendo isso, sentiu falta da sua equipe, de quem até então não tinha notado a ausência. Ela olhou para trás e viu que sua tropa estava longe, andando lentamente e caindo de sono. 

-Parece que elas foram curtir o Carnaval Carmesim… – Carlin disse – Ao invés de dormir durante a noite. – 

-Estes turnos são sempre complicados… – Joan disse, em uma tentativa de defender as parceiras, mesmo estando claramente com raiva da situação. De longe, fez um sinal para que recuassem. Teriam uma séria conversa sobre isso depois, mas agora ela queria evitar o estresse (e mortes desnecessárias), deixando elas longe.  

-Bem, então será só a gente. Três para três- Observou Carlin. 

Os três continuavam escondidos no arbusto. Os monstros estavam depois dos parreirais, há muitos metros de distância. Se aproveitaram disso para planejar os primeiros passos. Joan, que já tinha prática com batalhas, começou a passar as ordens. 

-Carlin, você consegue fazer alguma magia para distraí-los enquanto a gente se aproxima sorrateiramente? Se conseguirmos pegar eles de surpresa será muito melhor. 

Carlin fez que sim com a cabeça. 

-Ótimo. Quando eles estiverem distraídos, vamos nos aproximar. Nicolas, você vai escalar aquelas pedras enquanto eu e a Carlin vamos nos esgueirando pelas parreiras. Assim, lá de cima, você vai ficar mais protegido e conseguirá ter uma boa visão para atirar suas flechas. Nós devemos tomar muito cuidado para não chamar a atenção deles logo de primeira. Depois de nos posicionarmos, partimos para o ataque. 

Nicolas olhou para as rochas a sua esquerda planejando como escalaria. Não parecia tão complicado, mas ele teria que colocar os pés nos lugares certos para evitar qualquer barulho que pudesse revelar a presença deles ali. 

Carlin, obedientemente, foi a primeira a agir. Fez com que os galhos das parreiras ao longe se movessem, como se houvesse alguém passando por ali. Os monstros se viraram para olhar, e ficaram um tempo examinando a situação. 

Sem perder nem um segundo, Joan e Carlin caminharam furtivamente até as parreiras mais próximas dos monstros, e se esconderam ali. Nico também conseguiu escalar a rocha, se escondeu entre as pedras e agora estava se preparando para atirar suas flechas nos monstros. 

Assim que viu que suas companheiras haviam avançado, Nicolas mirou a flecha com seu arco encantado e envenenado e, com as mãos tremendo, atirou sua primeira flecha. Fosse sorte ou magia, ele atingiu bem no olho de um dos monstros, que precisou puxar a flecha para tirá-la, arrancando o próprio olho. As micotoxinas se espalharam pelo rosto da criatura e ele começou a se sentir zonzo. O poderoso veneno criado por Carlin logo chegaria ao sistema nervoso da criatura, deixando-a fraca, alucinada e com os membros paralisados. Ao mesmo tempo, Carlin faz com que as raízes das parreiras emaranham-se no monstro, mas espantada pelo horror da situação, acaba falhando e ele rompe as raízes com suas garras.

Enquanto isso, Joan lança sua língua para derrubar outra criatura, mas ele foi mais esperto: agarrou a língua da perereca e rasgou ela no meio, com um movimento certeiro e sangrento. Raivoso, salta para frente de Joan, e a agarra com suas mãos de formiga. Nicolas tenta avisar o anfíbio do perigo, mas ela está longe demais. E com o seu corpo úmido ardendo pelo ácido das garras monstruosas, ela nem tem tempo de gritar antes que o terceiro monstro se aproxime e atravesse suas garras no peito da guerreira. Seu corpo estremece antes de cair no chão com seu último suspiro. 

Por segundos que pareceram horas, Carlin e Nicolas encaram a cena em negação. Como, em poucos segundos de batalha, a mais experiente entre eles pode desfalecer dessa maneira? Uma lágrima silenciosa desce pelo rosto de Nicolas. Joan não voltaria para casa e nunca mais beijaria seu amor. Não conseguiria crescer no exército e nunca ouviria o coaxar do concerto que contratou para o casório. Na noite anterior, Joan havia dançado no carnaval com seu amor, mas hoje, em uma batalha tão rápida, perdia a vida. Seu corpo verde jazia no chão, e Carlin ainda olhou com uma esperança de que a guerreira pudesse levantar a qualquer momento. 

Carlin grita a morte de Joan, e invoca o espírito da natureza, equipando-se com arma e armadura divina. Seus olhos vibram com sede de vingança pela vida da colega. Nico, chorando pela situação e também repleto de  medo e raiva, atira a segunda flecha naquele mesmo monstro, e vê o veneno espalhar ainda mais pelos ombros dele. Como as monstruosidades não conseguem ver Nico, eles se concentram em Carlin, que consegue desviar das garras com o seu voo. 

Nico atira sua terceira flecha, e dessa vez, falha na pontaria acertando a bolha de tormenta atrás dos monstros. Isso causa arrepios em todos, e faz soar trovões assustadores vindos da bolha, e as criaturas se viram para encarar. Carlin aproveita do momento de distração dos monstros e acerta um deles com o seu bordão, atingindo-o bem no peito. Em resposta, o mesmo ataca a fada, jogando sua arma para longe deixando ela desarmada.  

Nessa confusão, os outros dois monstros (que já começavam a sentir os efeitos das micotoxinas) tentam acertar Carlin, mas acabam acertando um ao outro. Um deles cai no chão, já sem vida. Aproveitando da desordem das criaturas, Nico atira mais uma de suas flechas envenenadas, acertando o peito de um dos monstros, que também desfalece no chão. Carlin recua um pouco, se escondendo atrás da parreira para se concentrar nas magias e atacar a última criatura que ainda vivia. 

Nicolas, motivado pela sua vitória anterior, atira uma flecha na garra do monstro, que se desequilibra urrando de dor. Carlin aproveita a oportunidade para fazer com que as raízes por perto se arrastassem pelo corpo do monstro, chegando ao pescoço e sufocando a criatura. Com a sua última flecha, Nico acerta o peito do monstro, e o veneno se espalha pelo pescoço dele. Em agonia, o monstro que havia tirado a vida de Joan finalmente morre.  

-Conseguimos. – Suspirou Carlin, aliviada. 

Nicolas desceu das pedras ainda chorando e assustado. Caminhou até o corpo sem vida de Joan e se ajoelhou diante dela. Nunca havia presenciado uma morte tão de perto. 

-Ela morreu. Ela estava com a gente… e agora não está mais. Nunca mais. –  Murmurou. 

Carlin se aproximou do garoto com os olhos cheios de lágrimas e o abraçou. Os dois choraram juntos. 

Carlin silenciosamente fez crescer flores ao redor de Joan, para seu corpo repousar ali de maneira graciosa enquanto eles continuavam a jornada. Apesar da tristeza, não havia como parar agora. Era preciso que o menino conseguisse fazer contato com o seu pai, ainda que ele estivesse desacordado. Só assim, salvando o pai de seus próprios pesadelos, eles poderiam ficar juntos. 

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