O último presente do Noel

“Eu sei que ele não existe!” Disse o irmão mais novo de Clarice naquela manhã, em meados de dezembro.

Seu questionamento sobre o Papai Noel já estava latente desde o início das preparações natalinas, mas naquele dia ele havia acordado com aquela verdade no seu peito. Ele não existe.

O que isso significava para ele? Quais as implicações aquilo teria nesse natal? Seria o primeiro ano em que a família não teria uma criancinha em casa para procurar pelo nariz do Rudolf na escuridão da madrugada do dia 25. Clarice, a irmã mais velha, com seus quase 20 anos, se lembrou de quando parou de acreditar no Papai Noel.

Para a maioria das crianças, esse momento vinha naturalmente, como um dente de leite sendo substituído pelo permanente. Fazia parte do processo doloroso e natural de crescer. Mas para Clarice, foi diferente. Aconteceu no seu primeiro Natal sendo irmã mais velha. Ela tinha 10 anos, a mesma idade que seu irmão tinha atualmente. Mas ao contrário dele, ela acreditava, e queria convencer os amigos incrédulos da existência do bom velhinho.

Argumentava fervorosamente, sentindo-se íntima dos elfos natalinos, renas e do próprio Noel. Eles debochavam dela, como se ela fosse velha demais para aquele sonho. Como uma criança pode ser velha demais? A pequena Clarice fingiu não se abater com aquelas vozes.

Mas fato é que internamente, se abateu. Velha demais. Crescida demais. Isso não saía da sua cabeça, e por mais que quisesse discordar, algo nela dizia que eles estavam certos. E quando se sentou para escrever a cartinha do Papai Noel, sentiu que era uma carta de despedida. O meu último presente do Noel. Essa certeza ecoou dentro do seu frágil coração, tão certo como o nascer do sol. O Papai Noel não deixou de existir naquele Natal, ele era mais vivo do que nunca. Acontece que Papai Noel não presenteava crianças grandes, todos sabiam disso. Você crescia, e parava de ganhar presentes dele… e era impossível frear o seu amadurecimento.

Clarice olhou para si mesma: quase uma adolescente, já menstruava. Ia para escola sozinha, usava bolsas de adolescentes ao invés de mochilas infantis, tinha uma quedinha pelos meninos do Ensino Médio e agora também era irmã mais velha. Já não tocava com tanta frequência nos brinquedos, e escolhia livros sem gravuras na capa para ler. Definitivamente crescera.

Ela ia sentir falta, já sabia. Sentiria falta de subir e descer escadas em um ritual fictício que abria portas para o seu mundo imaginário. Sentiria saudade de ser a rainha das fadas, e governá-las com benevolência. Sentiria falta de namorar o Harry Potter escondido, e conversar com ele sobre suas responsabilidades como rainha. Ela vivia aquilo deixando ser bom, mesmo sabendo que teria um fim.

E a hora havia chegado. Era a sua última carta. Papai Noel teria novas gerações de crianças para cuidar, meninos e meninas que entrariam nas listas de bons e maus. Em casa, ela pegou uma folha de papel ofício, duas canetas coloridas e sentou na escrivaninha de seu quarto para escrever a última carta. Como se despedir daquele que por tanto tempo foi o motor de grande parte da magia natalina? Como dizer adeus para aquele precioso momento anual de se deitar sabendo que na manhã seguinte haveria presentes esperando embaixo da árvore, e o cupcake feito com tanto carinho no dia anterior teria sido devorado por uma senhor de vermelho e suas renas voadoras? Ela engoliu sua angústia e se sentou para escrever, tentando ignorar que era a sua última vez.

Pensou no que pediria. Queria algo que pudesse guardar para sempre, algo que seu eu adulto pudesse mostrar para os filhos e dizer orgulhosamente que foi o seu último presente do Noel. Ah, e tinha que ser fabricado pelo próprio Noel! Algo que ele e seus elfos ajudantes fizesse manualmente, lá na grande fábrica no Papai Noel, onde a magia era viva e os brinquedos eram confeccionados em meio a canções natalinas cantadas a capela. Nada de Barbies ou Hotweells, mas sim algo do Polo Norte. E então, imaginando a própria fábrica mágica do Noel, soube o que pedir. Um Globo de neve

Imaginou como seria: um globo grande, que pudesse decorar sua estante de livros. Dentro dele, teria a representação da própria fábrica. Seria possível ver os presentes sendo embalados cuidadosamente, e os elfos cantando em conjunto. A neve caindo lá fora e a árvore de natal cintilando. Uma imagem linda, nascida de um belo sonho. E o mais importante: ela jamais mudaria. Clarice cresceria, suas roupas parariam de servir, suas amigas se esqueceriam dela e as fadas, suas súditas, escolheriam outra pessoa para governá-las. Mas o globo de neve permaneceria inalterado, mostrando um mundo que será sempre repleto da magia natalina, e imune ao efeito do amadurecimento. Sim, um pedido perfeito para o seu último presente do Noel. Ela separou suas canetas favoritas.

“Querido Papai Noel,” Começou. “Estou crescida esse ano. Sou irmã velha. Não tenho mais tanto tempo para brincadeiras. Além disso, as crianças da minha idade não acreditam mais em você… eu acredito, acredito mesmo! Mas sei que o senhor tem outras crianças para se preocupar agora, crianças que acabaram de nascer, como meu irmão. É por isso que crianças grandes não recebem mais presentes. Tadinho de você e seus elfos, teriam que passar dia e noite produzindo e ainda assim não acabariam o trabalho! Então, eu entendo. Esse vai ser meu último presente, por isso precisa ser algo especial. Se for possível, queria algo feito pela sua fábrica! Algo que possa me mostrar como é o Polo Norte, para que eu possa guardar e jamais me esquecer do senhor, das suas renas e de seus ajudantes. Muito obrigada por todos esses natais juntos. Ps.: Não esqueça o presente do meu irmão. Com muito carinho, Clarice.”

Ela deixou a caneta sobre a mesa e massageou suas mãos, cansada de escrever. Olhou sua carta. Será que ela poderia continuar se correspondendo com o Noel mesmo sem ganhar presentes? Ela suspirou. Colocou a carta no envelope e deixou com seus pais, que colocariam no correio para ser entregue no Polo Norte.

De volta aos seus vinte anos, a criança dentro da mulher se lembrava disso com muita emoção e um novo significado. Clarice já havia ouvido algumas vezes de seus pais, tios e outros adultos, frases que a assustavam quando criança: “Ah, não cresce não! Ser adulto é tão complicado!” “Quando somos criança, tudo que queremos é crescer… quando a gente cresce, a gente se arrepende“. Isso deixava a pequena Clarice agoniada, como uma ovelha indo em direção ao abatedouro. Não havia como parar seu crescimento! Estava fadada ao sofrimento do amadurecer.

Hoje, adulta, Clarice sentia a dor de uma criança sendo cobrada para muito além do que é capaz de oferecer. É, ser adulto é muito complicado. Em muitos momentos, ela queria ser novamente aquela pequena garotinha cujo a única inquietude era decidir quem herdaria seu trono no reino das fadas. Ela queria que sua própria vida pudesse se congelar em um globo de neve, onde seria para sempre natal e para sempre infância. Mas não havia mais nenhum dente de leite, nenhuma roupa de criança, nenhum ritual para se chegar até as fadas… a infância escorreu de seus dedos, foi tomada dela de maneira irreparável. Os anos de sua vida, vistos de longe eram efêmeros, passaram mais rápido do que ela poderia imaginar.

Ela estava vendo aquilo acontecendo com seu irmão agora. Ele estava aos poucos, se despedindo da sua infância, a cada ano mais perto da vida adulta. Clarice encarou seu globo de neve na estante de livros. Não era exatamente o que ela havia pedido, mas foi seu presente favorito do Noel. “É curioso”. Ela pensou. “Quando você para de acreditar, ele deixa de existir”. Seus pais disseram isso a ela quando era criança. “Ele só existe enquanto você acreditar nele”. Isso nunca foi uma mentira: ela acreditava e ele era real. Assim como os sonhos que temos ao dormir: se lembramos deles ao acordar, eles existem. Se não lembrarmos de nada, dizemos que não tivemos sonho. “Estranho, não é? Parece que as coisas mais divertidas da vida“, ela constatou, “só são reais enquanto acreditamos nelas”.

E ao pensar nisso, algo em Clarice se acendeu. Seria a magia do Natal? Magia ou não, Clarice sentiu como se, internamente, ela se transformasse em todas as “clarices” que fora antes, tudo ao mesmo tempo. Não tinha apenas 20 anos, mas também 17, 15, 10 e 6. Adulta e criança. Guiando e sendo guiada. Ensinando e aprendendo. Dentro de Clarice, que estava aprendendo a se ver como mulher, ainda havia a pequena menina que acredita em elfos, fadas e Papai Noel. Nesse instante, todas as clarices deixaram uma lágrima quente deslizar sobre a bochecha. Clarice adulta se sentiu abraçando a Clarice criança, em um momento de consolar e ser consolada. Te prometo nunca abandonar você. Nunca deixar a minha infância para trás, adulta quis dizer. A Clarice criança, dentro do abraço, diria: tenho muito orgulho de para onde você nos trouxe. Ela entendeu, com seu coração, que a Clarice criança ainda era ela. Talvez ela não mais governasse as fadas, mas ainda via suas fadas nas flores. Talvez não brincasse de voar, mas sentia a brisa do vento como se fosse um pássaro. Não era mais do jeito que era antes, mas ainda assim, era Clarice.


Na manhã de Natal, o irmão de Clarice encontrou um presente embaixo da árvore, junto a uma carta. “Eu disse que não acredito mais” revoltou-se. “Não precisavam ter se preocupado com isso.” Clarice pediu para ele abrir.

Ele obedeceu.

Era um globo de neve.

1 Comentário

  1. Avatar de FlameReaper FlameReaper disse:

    Fiquei cheio de lagrimas quando você terminou de escrever esse conto e eu li, e agora relendo a mesma coisa aconteceu. Achei sensacional e muito lindo 😭.

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