O último presente do Noel

“Eu sei que ele não existe!” Disse o irmão mais novo de Clarice naquela manhã, em meados de dezembro.

Seu questionamento sobre o Papai Noel já estava latente desde o início das preparações natalinas, mas naquele dia ele havia acordado com aquela verdade no seu peito. Ele não existe.

O que isso significava para ele? Quais as implicações aquilo teria nesse natal? Seria o primeiro ano em que a família não teria uma criancinha em casa para procurar pelo nariz do Rudolf na escuridão da madrugada do dia 25. Clarice, a irmã mais velha, com seus quase 20 anos, se lembrou de quando parou de acreditar no Papai Noel.

Para a maioria das crianças, esse momento vinha naturalmente, como um dente de leite sendo substituído pelo permanente. Fazia parte do processo doloroso e natural de crescer. Mas para Clarice, foi diferente. Aconteceu no seu primeiro Natal sendo irmã mais velha. Ela tinha 10 anos, a mesma idade que seu irmão tinha atualmente. Mas ao contrário dele, ela acreditava, e queria convencer os amigos incrédulos da existência do bom velhinho.

Argumentava fervorosamente, sentindo-se íntima dos elfos natalinos, renas e do próprio Noel. Eles debochavam dela, como se ela fosse velha demais para aquele sonho. Como uma criança pode ser velha demais? A pequena Clarice fingiu não se abater com aquelas vozes.

Mas fato é que internamente, se abateu. Velha demais. Crescida demais. Isso não saía da sua cabeça, e por mais que quisesse discordar, algo nela dizia que eles estavam certos. E quando se sentou para escrever a cartinha do Papai Noel, sentiu que era uma carta de despedida. O meu último presente do Noel. Essa certeza ecoou dentro do seu frágil coração, tão certo como o nascer do sol. O Papai Noel não deixou de existir naquele Natal, ele era mais vivo do que nunca. Acontece que Papai Noel não presenteava crianças grandes, todos sabiam disso. Você crescia, e parava de ganhar presentes dele… e era impossível frear o seu amadurecimento.

Clarice olhou para si mesma: quase uma adolescente, já menstruava. Ia para escola sozinha, usava bolsas de adolescentes ao invés de mochilas infantis, tinha uma quedinha pelos meninos do Ensino Médio e agora também era irmã mais velha. Já não tocava com tanta frequência nos brinquedos, e escolhia livros sem gravuras na capa para ler. Definitivamente crescera.

Ela ia sentir falta, já sabia. Sentiria falta de subir e descer escadas em um ritual fictício que abria portas para o seu mundo imaginário. Sentiria saudade de ser a rainha das fadas, e governá-las com benevolência. Sentiria falta de namorar o Harry Potter escondido, e conversar com ele sobre suas responsabilidades como rainha. Ela vivia aquilo deixando ser bom, mesmo sabendo que teria um fim.

E a hora havia chegado. Era a sua última carta. Papai Noel teria novas gerações de crianças para cuidar, meninos e meninas que entrariam nas listas de bons e maus. Em casa, ela pegou uma folha de papel ofício, duas canetas coloridas e sentou na escrivaninha de seu quarto para escrever a última carta. Como se despedir daquele que por tanto tempo foi o motor de grande parte da magia natalina? Como dizer adeus para aquele precioso momento anual de se deitar sabendo que na manhã seguinte haveria presentes esperando embaixo da árvore, e o cupcake feito com tanto carinho no dia anterior teria sido devorado por uma senhor de vermelho e suas renas voadoras? Ela engoliu sua angústia e se sentou para escrever, tentando ignorar que era a sua última vez.

Pensou no que pediria. Queria algo que pudesse guardar para sempre, algo que seu eu adulto pudesse mostrar para os filhos e dizer orgulhosamente que foi o seu último presente do Noel. Ah, e tinha que ser fabricado pelo próprio Noel! Algo que ele e seus elfos ajudantes fizesse manualmente, lá na grande fábrica no Papai Noel, onde a magia era viva e os brinquedos eram confeccionados em meio a canções natalinas cantadas a capela. Nada de Barbies ou Hotweells, mas sim algo do Polo Norte. E então, imaginando a própria fábrica mágica do Noel, soube o que pedir. Um Globo de neve

Imaginou como seria: um globo grande, que pudesse decorar sua estante de livros. Dentro dele, teria a representação da própria fábrica. Seria possível ver os presentes sendo embalados cuidadosamente, e os elfos cantando em conjunto. A neve caindo lá fora e a árvore de natal cintilando. Uma imagem linda, nascida de um belo sonho. E o mais importante: ela jamais mudaria. Clarice cresceria, suas roupas parariam de servir, suas amigas se esqueceriam dela e as fadas, suas súditas, escolheriam outra pessoa para governá-las. Mas o globo de neve permaneceria inalterado, mostrando um mundo que será sempre repleto da magia natalina, e imune ao efeito do amadurecimento. Sim, um pedido perfeito para o seu último presente do Noel. Ela separou suas canetas favoritas.

“Querido Papai Noel,” Começou. “Estou crescida esse ano. Sou irmã velha. Não tenho mais tanto tempo para brincadeiras. Além disso, as crianças da minha idade não acreditam mais em você… eu acredito, acredito mesmo! Mas sei que o senhor tem outras crianças para se preocupar agora, crianças que acabaram de nascer, como meu irmão. É por isso que crianças grandes não recebem mais presentes. Tadinho de você e seus elfos, teriam que passar dia e noite produzindo e ainda assim não acabariam o trabalho! Então, eu entendo. Esse vai ser meu último presente, por isso precisa ser algo especial. Se for possível, queria algo feito pela sua fábrica! Algo que possa me mostrar como é o Polo Norte, para que eu possa guardar e jamais me esquecer do senhor, das suas renas e de seus ajudantes. Muito obrigada por todos esses natais juntos. Ps.: Não esqueça o presente do meu irmão. Com muito carinho, Clarice.”

Ela deixou a caneta sobre a mesa e massageou suas mãos, cansada de escrever. Olhou sua carta. Será que ela poderia continuar se correspondendo com o Noel mesmo sem ganhar presentes? Ela suspirou. Colocou a carta no envelope e deixou com seus pais, que colocariam no correio para ser entregue no Polo Norte.

De volta aos seus vinte anos, a criança dentro da mulher se lembrava disso com muita emoção e um novo significado. Clarice já havia ouvido algumas vezes de seus pais, tios e outros adultos, frases que a assustavam quando criança: “Ah, não cresce não! Ser adulto é tão complicado!” “Quando somos criança, tudo que queremos é crescer… quando a gente cresce, a gente se arrepende“. Isso deixava a pequena Clarice agoniada, como uma ovelha indo em direção ao abatedouro. Não havia como parar seu crescimento! Estava fadada ao sofrimento do amadurecer.

Hoje, adulta, Clarice sentia a dor de uma criança sendo cobrada para muito além do que é capaz de oferecer. É, ser adulto é muito complicado. Em muitos momentos, ela queria ser novamente aquela pequena garotinha cujo a única inquietude era decidir quem herdaria seu trono no reino das fadas. Ela queria que sua própria vida pudesse se congelar em um globo de neve, onde seria para sempre natal e para sempre infância. Mas não havia mais nenhum dente de leite, nenhuma roupa de criança, nenhum ritual para se chegar até as fadas… a infância escorreu de seus dedos, foi tomada dela de maneira irreparável. Os anos de sua vida, vistos de longe eram efêmeros, passaram mais rápido do que ela poderia imaginar.

Ela estava vendo aquilo acontecendo com seu irmão agora. Ele estava aos poucos, se despedindo da sua infância, a cada ano mais perto da vida adulta. Clarice encarou seu globo de neve na estante de livros. Não era exatamente o que ela havia pedido, mas foi seu presente favorito do Noel. “É curioso”. Ela pensou. “Quando você para de acreditar, ele deixa de existir”. Seus pais disseram isso a ela quando era criança. “Ele só existe enquanto você acreditar nele”. Isso nunca foi uma mentira: ela acreditava e ele era real. Assim como os sonhos que temos ao dormir: se lembramos deles ao acordar, eles existem. Se não lembrarmos de nada, dizemos que não tivemos sonho. “Estranho, não é? Parece que as coisas mais divertidas da vida“, ela constatou, “só são reais enquanto acreditamos nelas”.

E ao pensar nisso, algo em Clarice se acendeu. Seria a magia do Natal? Magia ou não, Clarice sentiu como se, internamente, ela se transformasse em todas as “clarices” que fora antes, tudo ao mesmo tempo. Não tinha apenas 20 anos, mas também 17, 15, 10 e 6. Adulta e criança. Guiando e sendo guiada. Ensinando e aprendendo. Dentro de Clarice, que estava aprendendo a se ver como mulher, ainda havia a pequena menina que acredita em elfos, fadas e Papai Noel. Nesse instante, todas as clarices deixaram uma lágrima quente deslizar sobre a bochecha. Clarice adulta se sentiu abraçando a Clarice criança, em um momento de consolar e ser consolada. Te prometo nunca abandonar você. Nunca deixar a minha infância para trás, adulta quis dizer. A Clarice criança, dentro do abraço, diria: tenho muito orgulho de para onde você nos trouxe. Ela entendeu, com seu coração, que a Clarice criança ainda era ela. Talvez ela não mais governasse as fadas, mas ainda via suas fadas nas flores. Talvez não brincasse de voar, mas sentia a brisa do vento como se fosse um pássaro. Não era mais do jeito que era antes, mas ainda assim, era Clarice.


Na manhã de Natal, o irmão de Clarice encontrou um presente embaixo da árvore, junto a uma carta. “Eu disse que não acredito mais” revoltou-se. “Não precisavam ter se preocupado com isso.” Clarice pediu para ele abrir.

Ele obedeceu.

Era um globo de neve.

Como Nicolas salvou a si mesmo. Parte final: O Abraço de uma Deusa é o melhor lugar para chorar.

Oi, oi! Chegamos ao fim da jornada do pequeno Nico. Espero que vocês tenham gostado tanto quanto eu… Fiquei muito feliz de compartilhar tudo isso com vocês, e fico ainda mais contente em afirmar que a publicação desse texto me fez enxergar o quanto ele ainda pode melhorar. Obrigada a todos vocês que acompanharam! E se você ainda não leu as partes anteriores, pode encontrar o restante aqui.


Nicolas encarou a bolha diante deles. Era tempestuosa, brilhante e vermelha. Parecia feita de sangue fresco. As parreiras ao redor estavam secas, pareciam mortas. Quanto mais tempo a bolha ficasse ali, maior seria a área de destruição sobre elas. E o pai de Nicolas estava ali dormindo, flutuando no seu interior, desacordado. 

Lá dentro, o pai revivia seus piores pesadelos em looping. Coisas que nenhuma criança da idade de Nico pode imaginar, coisas que o moldaram como ele é. Ele não conseguia sair desse estado, e foi para isso que Nicolas foi chamado, para que, de alguma forma, se conectar com o pai lá dentro. 

-Como vou fazer isso? 

-Não sei… acho que talvez você possa falar com ele. – Sugeriu Carlin, com simplicidade. 

-Falar sobre o que? – 

-Ah… – ela parecia confusa com as perguntas. Pensava que o menino, de alguma forma, fosse saber exatamente o que fazer. – Sobre o que vocês costumam conversar?

-A gente não costuma conversar. – Nicolas respondeu, cabisbaixo. 

-Ué! Mas ele não é o seu pai? – Carlin estranhou a resposta. 

-Sim, mas… a gente não conversa muito. 

Houve um silêncio constrangedor enquanto Nicolas fechou os olhos para afastar a lágrima. 

-Veja… que tal só falar sobre você então? – Sugeriu a fada, hesitante. 

-Tudo bem. Acho que isso vai ser mais fácil. 

Nicolas se aproximou da bolha o tanto que conseguiu. Não tocou nela, teve medo de se ferir com a tempestade. 

-Oi, pai! – Nicolas começou, meio gritando. – Não sei se você pode me ouvir, mas… – Olhou para Carlin alguns metros atrás dele em busca de aprovação. Ela fez um sinal para ele continuar. – Sou eu, o Nicolas. Seu filho. A gente tinha combinado de passar o carnaval juntos… fiquei triste quando você não veio. Claro, isso foi antes de saber que você era um grande aventureiro. 

Nicolas encarou a bolha e nada havia mudado. Parecia que conversar não estava adiantando muito… mas ele continuou tentando. 

-Sabe, me disseram que você está tendo pesadelos aí dentro. Deve ser muito ruim, eu odeio pesadelos. Geralmente, quando tenho pesadelos, mamãe ou tio Tomás ficam comigo até eu pegar no sono de novo, e isso me ajuda. Eu posso ficar com você se você quiser. Assim você não tem mais pesadelos. – Dizendo isso, se sentou no chão e continuou falando. – Eu trouxe um livro para lermos juntos! Podemos ler quando você sair daí. – 

Quanto mais Nicolas falava, mais a percepção de que nada mudava o assolava. Foi se sentindo impotente, sozinho e com medo. Parecia que as coisas sempre caminhavam dessa forma: o garoto tinha a expectativa de melhorar tudo com o pai, deixar florescer um relacionamento juntos, fazer com que a distância entre os dois fosse reduzida. Mas sempre acabava frustrado: O pai nunca o ouvia e parecia sempre dentro de si, como estava agora. Nicolas sente o coração apertar. 

-Pai, por que você não veio me ver? Nada disso teria acontecido se você tivesse chegado na hora marcada! Sei que você é um aventureiro e aqui eles tem essa festa do Carnaval Carmesim, então é normal que você quisesse ir… mas e eu? Você não veio. – A voz do pequeno garotinho começou a falhar. – Você não vem. Você não liga… E quando liga, a gente nem tem sobre o que conversar! Eu sempre te espero… – As lágrimas brotam dos olhos de Nicolas, e ele esconde o rosto com as mãos. – Eu sempre espero tanto! Planejo, me arrumo todo, conto para todos os meus amigos que você vem… e aí, você não aparece. Mamãe chora. Eu me esforço para não chorar.. Você nunca vem. Nem mesmo me liga. E eu me sinto culpado. Parece que o problema está em mim. E eu não sei… não sei o que fazer. Não sei como te tirar daí de dentro. Não sei como me aproximar de você… é como se.. é como se a gente não se conhecesse… 

E entre seus choros e soluços, Nicolas ouviu atrás dele uma voz poderosa: 

-O que está acontecendo aqui? – 

Limpou suas lágrimas e virou para ver quem era a dona da voz. Uma mulher baixinha e rechonchuda, mas com uma presença forte olhava espantada para cena. Usava um grande vestido que parecia ser encantado. O vestido flutuava nela, e ela flutuava no vestido. O tecido era leve, marfim e repleto de flores. Parecia brilhar como as estrelas. Seus cabelos longos também estavam flutuando, como se tudo nela estivesse em um dinamismo perfeito e contínuo. Seus olhos verdes e a boca vermelha tinham agora uma expressão que unia raiva, espanto e sobretudo, preocupação. Seu olhar de águia analisava tudo: Carlin ajoelhada diante do corpo morto de Joan, os monstros em poças de sangue, Nicolas caindo em lágrimas do lado da bolha de tormenta. 

Carlin levantou-se rapidamente e reverenciou a mulher. 

-Kiara!

-Carlin, minha amada. Que cena de horrível destruição é essa? Eu não havia dito para todos ficarem longe disso?-  Ela falava amavelmente, como uma mãe. Mas sua voz era muito mais poderosa do que a de qualquer mortal. 

-Vossa Majestade Sapal ordenou… Ele foi buscar esse garoto ontem a noite… é filho do aventureiro. Está tentando acordá-lo. 

O olhar de Kiara encontrou o de Nicolas, e ele sentiu um arrepio subir pela espinha. Se ajeitou rapidamente e limpou as lágrimas, temeroso. Nunca havia se sentido tão envolvido na vida: aquele olhar parecia um abraço na alma, mas também inspirava nele muitíssimo respeito. 

-Pobre criança! Não acredito que ele envolveu o garoto nisso. E olha que destruição o menino presenciou! E a Joan… 

-Ela não resistiu… Os monstros foram cruéis demais com ela. – 

Kiara se ajoelhou ao lado de Carlin e pegou a mão de Joan. Fechou os seus olhos e respirou fundo, como em uma meditação. Chorou por Joan ao lado de Carlin, que a abraçou. 

Nicolas assistiu a cena, confuso. Kiara parecia um ser muito poderoso: por que simplesmente não podia ressuscitar Joan? Depois de um tempo em silêncio, Kiara se levantou e caminhou até o garoto. 

-Como é o seu nome? – perguntou ela, gentilmente. 

-Nicolas. – Ele respondeu, mesmo sentindo que ela já soubesse: ela parecia saber todas as coisas. Ela se sentou ao seu lado. 

-Esse é o seu pai? 

-Sim. Estou tentando salvá-lo. O Rei me trouxe para isso. – Nicolas deixou que sua agonia e tristeza transparecer em sua fala. – Mas não consigo… nada que eu falo é capaz de tirar ele desse estado… 

-Ah, pobre Nicolas… – Kiara o abraçou, acolhendo ele em seu colo. – Não é o dever dos filhos salvar os pais dos seus próprios pesadelos. Isso é algo que ele deverá enfrentar sozinho, e a culpa não é sua. Nunca foi. 

Ouvindo isso,  Nicolas encontra aconchego nos ombros da mulher, e volta a chorar. Derrama todas as lágrimas que quis esconder da mãe até aquele momento, lágrimas de quem se via como responsável em uma situação que não passava de vítima. Lágrimas de uma criança que tudo o que queria, era ler um livro com o seu pai. 

O abraço de Kiara proporcionava o ambiente mais seguro para chorar. Ali, ele se sentia protegido e entendido por ela. Visto como filho e também como indivíduo. Ela possuía uma espécie de energia contagiante, parecia olhar para o coração de Nicolas e curar o joelho ralado. 

Depois que Nicolas se acalmou, Kiara explicou: 

-Nicolas, o Rei só te trouxe até aqui porque ele esperava que você realmente destruísse a tormenta e libertasse, não o seu pai, mas o vinhedo real. Me envergonho em dizer que ele fez isso por ambição, e não por carinho. Acredito que ele mesmo não sabia que era uma missão tão desafiadora, mas para ele, foi tudo sobre dinheiro. Eu sinto muito mesmo você ter sido vítima de uma estratégia como essa. 

-Mas… o que vai acontecer com meu pai? 

-Eu não vou desistir dele, Nicolas. Prometo a você que continuarei tentando guiá-lo em um caminho onde seus pesadelos já não tenham mais efeito, um caminho onde ele poderá receber e oferecer afeto. Não é sua essa batalha, Nicolas, é dele e de mais ninguém. Nicolas assentiu com a cabeça, as lágrimas ainda escorrendo em seu rosto. 

-Me prometa uma coisa, Nicolas: Não deixe que seus pesadelos te aprisione dessa forma. Deixe espaço para o amor florescer em você e nos relacionamentos que vai construir. Se permita conhecer seus sentimentos e desfrutar dos instantes. O seu pai, há muito tempo se perdeu em si mesmo, em seu próprio egoísmo e mesquinharia. Foi por isso que a tormenta o pegou: porque ele já estava corrompido por dentro. Prometa que não deixará nenhuma tempestade tomar conta de você.

Nicolas levou a promessa a sério e ofereceu seu mindinho para Kiara. Não há nada mais forte do que “jurar de mindinho”. Ele a abraçou mais apertado e ela deu um beijo carinhoso na testa dele. 

-Agora, meu pequeno… – ela disse, segurando suas mãos e o olhando bem nos olhos. – Está na hora de voltar para casa.- 

***

Nicolas acordou quando mais um episódio do seu desenho começava na tv. Um cheiro delicioso de molho de tomate tomava conta da casa: sua mãe estava fazendo espaguete com almôndegas, seu prato favorito. Ao seu lado, a mala que levaria para a casa do pai continuava ali, intocada. O menino ajeitou os óculos e olhou ao redor: estava tudo exatamente como antes. 

-Ah, você acordou! – disse o tio Tomás – Vem jantar… fizemos sua comida favorita!- 

 Nicolas foi sentar-se à mesa com a família, e tudo estava de volta à normalidade. Na mente do garoto, as coisas mantinham-se vivas do início ao fim. Mas tudo não passava de um sonho bem vivido, não é?

Depois da refeição, Nicolas foi mandado para cama. Mas, antes de ir, olhou para sua mãe e Tomás:

-A gente pode ler um livro antes de dormir?- pediu. 

E foi assim que a noite terminou: com Nicolas, sua mãe e Tomás lendo seu livro. E naquele momento, ele não sentia mais a culpa, frustração ou a agonia. Sentia apenas o conforto, amor e ternura de estar em família. 

Uma família que, Nicolas tinha certeza, nunca deixaria que seu coração entrasse em tormenta. 

Como Nicolas salvou a si mesmo. Parte 4: Em uma batalha contra formigas gigantes, é melhor guardar sua língua.

Oi oi! Antes de começar a leitura, tenha certeza de ter lido as partes anteriores. Você pode encontrá-las aqui! Agora, vamos para a leitura.


O grupo se distanciava do centro da cidade a passos lentos. Com as pernas cansadas, Nicolas sentia-se cada vez menos motivado, e em nada ajudava o fato de que as pererecas não paravam de bocejar. 

A estrada de terra ia ganhando um contorno onde a mata nativa conversava com pequenas plantações e pastagens. Na copa da árvore havia pequenas casas de fadas, onde as crianças ajudavam bichos-preguiças a encontrar comida. 

Durante a caminhada, Joan, Carlin e Nico conversavam para se conhecer melhor e diminuir o peso da situação que assustava a todos. Nico descobriu que Joan, apesar de ser jovem, estava crescendo cada vez mais em sua patente dentro do exército de sapos. Era o sonho dela, desde criança, proteger a cidade dessa maneira, servindo ao povo e ao rei. Nico havia achado ela muito fria na primeira vista, mas agora que conversavam, percebeu que na realidade era um ser bastante gentil. Ela se casaria em breve. Seu casamento teria os mais deliciosos bolos já vistos, uma vez que sua noiva era a melhor confeiteira da cidade. Todos estavam convidados, e um chique concerto de sapos foi chamado para coaxar as canções favoritas das noivas, incluindo “O sapo que lava o pé” e “Ciranda dos vagalumes”. 

Carlin era ainda mais jovem que Joan. Começou a trabalhar no castelo há alguns meses e ainda não entende direito seu lugar lá. Está confusa. Atualmente é contratada para serviços manuais em madeira viva. Cria artefatos para o exército real… A fada reclama por ficar o dia inteiro enfurnada no castelo fazendo armas. Queria mesmo sair, explorar a cidade, viver coisas diferentes. Por conta disso, nem hesitou em seguir Joan na aventura. Quando envelhecer, Carlin diz que vai construir casas com sua magia. Coisas muito mais bonitas do que armas, na sua opinião. 

Caminharam por cerca de duas horas e meia quando avistaram, acima de um grande vinhedo, a bolha da tormenta. Ela era vermelha e parecia ser envolta por nuvens. Era possível ver raios de vez em quando, e, no seu interior, o pai de Nicolas parecia estar tomado por um sono repleto de pesadelos. Nico gritou. 

-Pai! – 

Joan agarrou o ombro do menino e o puxou para debaixo dos arbustos. 

-O que foi? Nós chegamos! – Exclamou a criança. 

-Fique quieto! Olha ali! – Joan apontou com a cabeça para algo na frente deles.

A poucos metros da bolha de tormenta, três monstruosidades protegiam a zona. Pareciam uma mistura de humano e formiga, com garras vermelhas assustadoras. Eles eram grandes e cascudos, com expressões nada amigáveis no rosto. Seria impossível passar sem serem vistos, então precisariam lutar. Nesse momento, Nicolas compreendeu o motivo daquela armadura e de toda a precaução das soldadas. 

-O que vamos fazer? – Questionou Carlin, assustada e entusiasmada ao mesmo tempo. Seus olhos pareciam ter sede de aventura.  

Joan pensou por um instante. 

-Estamos em maior número. Vamos conseguir sair dessa briga tranquilamente… – 

Dizendo isso, sentiu falta da sua equipe, de quem até então não tinha notado a ausência. Ela olhou para trás e viu que sua tropa estava longe, andando lentamente e caindo de sono. 

-Parece que elas foram curtir o Carnaval Carmesim… – Carlin disse – Ao invés de dormir durante a noite. – 

-Estes turnos são sempre complicados… – Joan disse, em uma tentativa de defender as parceiras, mesmo estando claramente com raiva da situação. De longe, fez um sinal para que recuassem. Teriam uma séria conversa sobre isso depois, mas agora ela queria evitar o estresse (e mortes desnecessárias), deixando elas longe.  

-Bem, então será só a gente. Três para três- Observou Carlin. 

Os três continuavam escondidos no arbusto. Os monstros estavam depois dos parreirais, há muitos metros de distância. Se aproveitaram disso para planejar os primeiros passos. Joan, que já tinha prática com batalhas, começou a passar as ordens. 

-Carlin, você consegue fazer alguma magia para distraí-los enquanto a gente se aproxima sorrateiramente? Se conseguirmos pegar eles de surpresa será muito melhor. 

Carlin fez que sim com a cabeça. 

-Ótimo. Quando eles estiverem distraídos, vamos nos aproximar. Nicolas, você vai escalar aquelas pedras enquanto eu e a Carlin vamos nos esgueirando pelas parreiras. Assim, lá de cima, você vai ficar mais protegido e conseguirá ter uma boa visão para atirar suas flechas. Nós devemos tomar muito cuidado para não chamar a atenção deles logo de primeira. Depois de nos posicionarmos, partimos para o ataque. 

Nicolas olhou para as rochas a sua esquerda planejando como escalaria. Não parecia tão complicado, mas ele teria que colocar os pés nos lugares certos para evitar qualquer barulho que pudesse revelar a presença deles ali. 

Carlin, obedientemente, foi a primeira a agir. Fez com que os galhos das parreiras ao longe se movessem, como se houvesse alguém passando por ali. Os monstros se viraram para olhar, e ficaram um tempo examinando a situação. 

Sem perder nem um segundo, Joan e Carlin caminharam furtivamente até as parreiras mais próximas dos monstros, e se esconderam ali. Nico também conseguiu escalar a rocha, se escondeu entre as pedras e agora estava se preparando para atirar suas flechas nos monstros. 

Assim que viu que suas companheiras haviam avançado, Nicolas mirou a flecha com seu arco encantado e envenenado e, com as mãos tremendo, atirou sua primeira flecha. Fosse sorte ou magia, ele atingiu bem no olho de um dos monstros, que precisou puxar a flecha para tirá-la, arrancando o próprio olho. As micotoxinas se espalharam pelo rosto da criatura e ele começou a se sentir zonzo. O poderoso veneno criado por Carlin logo chegaria ao sistema nervoso da criatura, deixando-a fraca, alucinada e com os membros paralisados. Ao mesmo tempo, Carlin faz com que as raízes das parreiras emaranham-se no monstro, mas espantada pelo horror da situação, acaba falhando e ele rompe as raízes com suas garras.

Enquanto isso, Joan lança sua língua para derrubar outra criatura, mas ele foi mais esperto: agarrou a língua da perereca e rasgou ela no meio, com um movimento certeiro e sangrento. Raivoso, salta para frente de Joan, e a agarra com suas mãos de formiga. Nicolas tenta avisar o anfíbio do perigo, mas ela está longe demais. E com o seu corpo úmido ardendo pelo ácido das garras monstruosas, ela nem tem tempo de gritar antes que o terceiro monstro se aproxime e atravesse suas garras no peito da guerreira. Seu corpo estremece antes de cair no chão com seu último suspiro. 

Por segundos que pareceram horas, Carlin e Nicolas encaram a cena em negação. Como, em poucos segundos de batalha, a mais experiente entre eles pode desfalecer dessa maneira? Uma lágrima silenciosa desce pelo rosto de Nicolas. Joan não voltaria para casa e nunca mais beijaria seu amor. Não conseguiria crescer no exército e nunca ouviria o coaxar do concerto que contratou para o casório. Na noite anterior, Joan havia dançado no carnaval com seu amor, mas hoje, em uma batalha tão rápida, perdia a vida. Seu corpo verde jazia no chão, e Carlin ainda olhou com uma esperança de que a guerreira pudesse levantar a qualquer momento. 

Carlin grita a morte de Joan, e invoca o espírito da natureza, equipando-se com arma e armadura divina. Seus olhos vibram com sede de vingança pela vida da colega. Nico, chorando pela situação e também repleto de  medo e raiva, atira a segunda flecha naquele mesmo monstro, e vê o veneno espalhar ainda mais pelos ombros dele. Como as monstruosidades não conseguem ver Nico, eles se concentram em Carlin, que consegue desviar das garras com o seu voo. 

Nico atira sua terceira flecha, e dessa vez, falha na pontaria acertando a bolha de tormenta atrás dos monstros. Isso causa arrepios em todos, e faz soar trovões assustadores vindos da bolha, e as criaturas se viram para encarar. Carlin aproveita do momento de distração dos monstros e acerta um deles com o seu bordão, atingindo-o bem no peito. Em resposta, o mesmo ataca a fada, jogando sua arma para longe deixando ela desarmada.  

Nessa confusão, os outros dois monstros (que já começavam a sentir os efeitos das micotoxinas) tentam acertar Carlin, mas acabam acertando um ao outro. Um deles cai no chão, já sem vida. Aproveitando da desordem das criaturas, Nico atira mais uma de suas flechas envenenadas, acertando o peito de um dos monstros, que também desfalece no chão. Carlin recua um pouco, se escondendo atrás da parreira para se concentrar nas magias e atacar a última criatura que ainda vivia. 

Nicolas, motivado pela sua vitória anterior, atira uma flecha na garra do monstro, que se desequilibra urrando de dor. Carlin aproveita a oportunidade para fazer com que as raízes por perto se arrastassem pelo corpo do monstro, chegando ao pescoço e sufocando a criatura. Com a sua última flecha, Nico acerta o peito do monstro, e o veneno se espalha pelo pescoço dele. Em agonia, o monstro que havia tirado a vida de Joan finalmente morre.  

-Conseguimos. – Suspirou Carlin, aliviada. 

Nicolas desceu das pedras ainda chorando e assustado. Caminhou até o corpo sem vida de Joan e se ajoelhou diante dela. Nunca havia presenciado uma morte tão de perto. 

-Ela morreu. Ela estava com a gente… e agora não está mais. Nunca mais. –  Murmurou. 

Carlin se aproximou do garoto com os olhos cheios de lágrimas e o abraçou. Os dois choraram juntos. 

Carlin silenciosamente fez crescer flores ao redor de Joan, para seu corpo repousar ali de maneira graciosa enquanto eles continuavam a jornada. Apesar da tristeza, não havia como parar agora. Era preciso que o menino conseguisse fazer contato com o seu pai, ainda que ele estivesse desacordado. Só assim, salvando o pai de seus próprios pesadelos, eles poderiam ficar juntos. 

Como Nicolas salvou a si mesmo. Parte 3: Chocolate quente é um ótimo café da manhã para quem acha que pode ser seu último.

Oi oi! Antes de começar a ler, tenha certeza de ter lido a parte 1 e parte 2 do conto! Você também pode encontrar todos os contos aqui! Agora vamos ao conto!


Ao fim da história, a inusitada carruagem do Rei Sapo já estava se aproximando da cidade. De longe, Nicolas não conseguia reparar nada de diferente: parecia uma típica cidade do interior do país, com muita vegetação, poucas construções altas e sem iluminação elétrica. A vitória-régia começou a abaixar voo e cruzou a parede que protegia a cidade. Nicolas não sabia disso, mas foi a magia da Deusa que o permitiu fazer a travessia, como permitia também os aventureiros. Ela podia sentir a presença dele ali mesmo sem vê-lo, e saber que não faria mal algum ainda que nunca tivesse falado com ele. 

Agora, perto o bastante para distinguir movimentos entre as copas das árvores, ele se deslumbrava com o que via. Fadas voavam aqui e ali, ajudando os animais noturnos e guiando flores que nasciam à noite. Observou uma das fadas que parecia ensinar filhotes rouxinóis órfãos voarem de seus ninhos. 

A pouca iluminação que tinha, vinha das estrelas e da lua, além de pequenas chamas flutuantes mágicas que iluminavam os caminhos principais. Ainda assim, era possível ver os ladrilhos coloridos e lindos jardins crescendo de maneira bagunçada e esplêndida. Cogumelos enormes saltavam aqui e ali, e alguns sapos coaxavam e brincavam em cima deles. Apesar das circunstâncias, Nicolas não conseguia esconder o sorriso: tudo ao seu redor tinha cheiro de magia, sonho e aventura. 

-Lá está. Lar doce lar. – Disse a Majestade, apontando para o palácio. 

Nico olhou para onde seu dedo apontava. Era um grande palácio que parecia ser feito de rochas e plantas. Se estivessem em qualquer outro lugar, talvez aquela construção fosse chamada de “abandonada”, mas em Estranha, era magnífica. Parecia mesmo uma estrutura viva. Vagalumes rodeavam as paredes do castelo, embora se escondessem sempre que os sapos passavam por eles. 

Ah, sim! Os sapos! Estavam por toda parte, obviamente. Madames e cavaleiros anfíbios, pulando no lago ou descansando nos troncos, e até dançando canções carnavalescas! Como são noturnos, estavam em plena atividade durante a madrugada. Nicolas se animou pensando no que seu padrasto (que compartilha com ele seu amor por animais) falaria se estivesse ali com ele. Ao passar pelos sapos, claro, os mesmos reverenciavam o Rei, que acenou para eles. 

A vitória-régia deixou o Rei e o garoto na porta do palácio, onde duas seguranças estavam prontas para escoltá-los para dentro. Assim fizeram.

O interior do palácio era tão estupendo quanto o lado de fora. Nicolas não podia deixar de pensar o quão lindo aquele espaço seria durante o dia. Com paredes altas, janelas grandes e plantas invadindo, cada centímetro do lugar parecia respirar.

No salão de entrada, um grande lustre com chamas amarelas proviam uma baixa iluminação no local. Como o ambiente era habitado por criaturas com visão noturna, eles não se preocupavam tanto com as luzes. No chão, quadrados vermelhos (de flores)  e verdes (de musgos) formavam um gigante tabuleiro de xadrez. No final da sala, ao centro, um grande trono para o Rei. Nas laterais, escadas de pedra levariam para o segundo piso. Cavaleiros anfíbios apareceram através das portas laterais e se colocaram à disposição da Majestade.  

-Este é o garoto que resolverá nosso problema. – Disse o Rei para os guardas. – Levem-no para o quarto de hóspedes. – 

“ ‘Nosso’ problema?” refletiu Nico. O rei, virando-se para ele, disse: 

-Durma, garoto. Amanhã de manhã as soldadas mais astutas do meu exército te guiarão na sua jornada. Tenha uma boa sorte. – 

Nicolas nem teve tempo para respondê-lo. Os guardas o levaram até o quarto, e ele soube que não veria o Rei novamente. 

*** 

O quarto de hóspede seguia a estética do restante do palácio, exceto por um detalhe: no teto, algum tipo de magia fazia com que o céu fosse reproduzido ali. Nicolas se deitou e observou as estrelas enquanto refletia sobre suas descobertas recentes. Uma cidade escondida, sapos humanóides, um pai aventureiro em perigo, fadas, magia… era tudo muito empolgante. Mesmo com tamanha excitação, sabia que precisava dormir caso quisesse ajudar o seu pai na manhã seguinte. Por isso, abraçou sua pelúcia e colocou-se para contar as estrelas. Pegou no sono na vigésima sexta. 

***

O sol invadia o quarto de hóspede fazendo Nicolas levantar-se antes mesmo que as soldadas viessem acordá-lo. Com a luz, ele podia agora ver melhor o seu quarto. Nas paredes de madeira cresciam heras e cogumelos, e joaninhas se escondiam entre as folhas. A janela aberta era convidativa para os pássaros que entravam e saiam de lá cantando. Grandes árvores podiam ser vistas, e nelas escondiam-se todo tipo de animais silvestres que a mata atlântica pode abrigar. Nessa cidade, os seres mágicos viviam em tão intensa harmonia com a natureza, que ela mesma parecia mais encantadora do que nunca, como se nela estivesse a real magia.

Nicolas sentiu cheiro de pão fresco e chocolate quente. Olhou em direção a porta e percebeu ali uma bandeja flutuante que acabava de surgir naquele lugar. Ele andou até ela, pegou, e voltou para cama para tomar seu café-da-manhã. 

O garoto sentia-se ao mesmo tempo como um membro da realeza e um grande aventureiro. Mal podia acreditar que aquilo estava acontecendo com ele! O que diriam quando ele contasse sobre isso? Bem, eles não iam conseguir acreditar… “De alguma forma,” pensou Nico “nem sei se eu mesmo acredito no fim das contas.”  Temia que fosse apenas um sonho em que ele acordaria a qualquer momento e estaria novamente em sua casa. E seu pai, nunca viria…  não porque ficou preso em uma bolha de pesadelos, mas sim porque ele não quis. 

Espantou da mente esse pensamento triste. É claro que era tudo real. Se não fosse, como esse chocolate quente poderia ser tão delicioso? Não podemos sentir gosto em sonhos, ou podemos? “Mas se é verdade…” pensou Nicolas, com uma pontada de medo “mamãe deve estar furiosa!”. 

Tomou o chocolate-quente cujo sabor era divino. Mais uma das coisas que Nicolas não sabe e é privilégio do leitor saber: o chocolate quente com notas de cogumelo e pétalas de orquídeas preparado pelas fadas é a bebida favorita dos seres mágicos exploradores – principalmente quando acreditam que trata-se de sua última refeição. Nessa manhã, na cozinha do palácio, alguma fada julgou que Nicolas talvez não voltasse de sua jornada… mas é melhor nosso mini-herói não saber disso. 

O garoto ouviu batidas em sua porta. 

-Pode entrar! – 

Seis soldadas-pererecas entraram no quarto. 

-Bom dia, senhor Nico. Eu sou a soldada Joan Beauchamp. Sob ordens da Majestade, vamos lhe acompanhar até a área da bolha de tormenta. 

Nicolas concordou com a cabeça. 

-Mas primeiro, precisamos te equipar. – Disse uma segunda soldada. 

Se dirigiram então para a parte externa do palácio, onde algumas fadas trabalhavam durante o dia. 

-Ei, Carlin. – Joan chamou. – Venha cá. Nosso amigo aqui precisa ser equipado. – 

Carlin, uma jovem fada ruiva, com vestes em marrom e um arco de folhas secas, se aproximou voando. 

-Oi! – exclamou alegremente – Quem é esse? – 

-Esse aí é o Nicolas. O Rei foi pessoalmente buscá-lo ontem. Ele vai nos ajudar a resolver o problema da bolha de tormenta. Ele é filho do cara.- Explicou Joan. 

-Ah… – Carlin ofereceu a Nico um olhar de compaixão. – Ouvi dizer que ele está péssimo. Sinto muito… – 

Nicolas sentiu seu coração pesar. Não sabia que a situação era tão grave. O que estava acontecendo, afinal? 

-Kiara sabe que ele está aqui? – Perguntou Carlin. 

-Bem, saber ela sabe, né? Mas pelo que dizem, o Rei não procurou ela antes. Joan respondeu em tom conspiratório. – Bem, vamos ao ponto: Faça uma armadura para ele, por favor. E um arco leve. Ele vai precisar. – 

Carlin fechou os seus olhos e se concentrou por uns segundos. Nicolas não entendia o que estava acontecendo. Porque ela não podia só buscar essas coisas para ele? 

Em menos de um segundo, as raízes das árvores próximas brotaram do chão e subiram pelas pernas do menino, formando uma armadura de madeira encantada e envolvendo-o.  Em suas mãos, surgiu um arco com madeira e cipó, com flechas envenenadas por micotoxinas.  

-Já atirou flechas alguma vez? – Perguntou Joan. 

-Só com Nerf, tia. – 

-Não sei o que é isso, mas espero que sirva. – Voltando-se para as outras soldadas e Carlin: – Bem, sem mais perder tempo. Vamos logo. – 

Elas se colocaram em posição, com Nicolas no meio delas, sendo protegido. Haviam andado alguns passos quando Carlin grita: 

-Esperem! – 

Pousando bem a frente deles, com seus pés descalços na terra úmida, encarou Joan com um olhar suplicante: 

-Posso ir também? 

-Não. – Ela disse, seca. 

-Mas eu posso ser útil! 

-Já disse que não. 

-Por favor! 

-Não! – gritou Juan. 

-Bem, eu vou de qualquer jeito. Se você me aceitar com o grupo, ficarei mais protegida, se for escondida, então não terão como me proteger. 

Juan deu-se por vencida. Carlin tinha essa fama de ser insolente o bastante para conseguir tudo o que queria, e além disso não pegaria bem uma fada machucada por culpa dela. 

E então, seguiram pelo caminho seis pererecas, uma fada e um menino. 

Nicolas se perguntava por que raios toda essa preparação. Pelo que havia entendido do Rei, o garoto ia chegar perto da bolha onde seu pai estava preso e começar a conversar com ele, na tentativa de que isso pudesse o acalmar e interromper a retroalimentação da tormenta com os pesadelos dele. Mas pela forma receosa como iam, algo perigoso estava por vir.

Como Nicolas salvou a si mesmo. Parte dois: se um rei sapo falar com você, lembre-se de dizer “Vossa Majestade”.


oi oi! antes de começar a sua leitura, esteja certo de ter lido a parte 1, já publicada aqui no blog.

Além disso, quero deixar claro que me inspirei para as próximas partes na aventura Carnaval Carmesim do FlameReaper e no sistema de RPG Tormenta 20.

Agora, sem demoras… vamos a aventura!


Agora Nicolas estava do lado de fora com o Rei Sapo. Ouviu a porta de sua casa bater atrás de si. Nesse momento, o menino sentiu um arrepio na espinha… não havia mais escapatória. Estava saindo de casa de madrugada com um estranho. Sua mãe ficaria furiosa! A noite estava fria e escura, e uma névoa densa tornava o ar da serra pesado. Ele olhou para o Rei. 

-E então… o que posso fazer? 

-Primeiramente, você deve terminar suas frases com “Vossa Majestade”, criança. Respeite o Rei dos Sapos! 

-Perdão, Vossa Majestade… mas pode me dizer… o que… está acontecendo, Vossa Majestade…? 

Sem perceber, o garoto estava seguindo a majestade anfíbia em direção a uma grande carruagem flutuante em forma de vitória régia. Quando viu, assustou-se. Na carruagem mágica havia mais um sapo humanoide, bem menor e menos elegante. Parecia uma espécie de “capacho” do rei. Curvou-se quando chegaram até ele. O Rei pareceu ignorar sua presença. Sentou-se na vitória-régia e chamou Nico para se sentar também. O menino obedeceu. 

-Nicolas. Você sabe qual é o trabalho do seu pai? 

-Sei. Ele é, hm… Algo a ver com “gente”. O que era mesmo? – Ele pensou. Sua mãe já havia lhe dito… trabalhava em uma loja e era… “dente”? “crente?” Gerente! – Ele é gerente de loja. Isso, gerente.- E, quase se esquecendo: –  Vossa Majestade- acrescentou rapidamente. 

-Criança burra! – o rei disse, grosseiro. – Eu quis dizer o trabalho de verdade. Você acha que um trabalho comum como esse atrapalha tanto a rotina de um adulto, a ponto de não poder ver o próprio filho nem no feriado? Tolo. 

Os olhos de Nicolas brilharam de animação com aquela revelação, sem ao menos se perguntar como o rei sabia tanto a respeito do seu Pai. 

-Então, Majestade, qual é o trabalho de verdade dele?! 

-Ele é um grande aventureiro, rapaz… 

Nicolas franziu as sobrancelhas. “Então aventureiros existem?” Pensou. 

-Há uma cidade escondida, criança… Escondida atrás de todas essas montanhas da serra. Nessa cidade, tudo é muito diferente do que você imagina. 

A carruagem levantou voo. Agora flutuava por cima das árvores, onde o frio era ainda mais cortante. Nico se encolheu abraçando as pernas na tentativa de se esquentar. Não tirava os olhos do Rei, que começava a contar uma longa história, repleta de magia. E como toda boa história de magia, esta também começa com “era uma vez”. 

  Era uma vez, uma belíssima cidade escondida entre as montanhas. Com ruas de azulejo colorido, florestas fartas e rios puros, o nome do lugar diz muito sobre seus habitantes: Estranha. A cidade era grande o suficiente para comportar todo o tipo de criatura que você consegue imaginar, se sua imaginação for das boas (hoje em dia raramente é). Animais falantes, gnomos, fadas, elfos, minotauros, árvores encantadas humanóides e muito, muito mais. Quase nenhum humano conhecia aquela cidade, e aqueles que tinham o azar de passar por lá eram mortos pela grande redoma que protege o lugar e mantém a magia acesa. Porém, alguns humanos eram escolhidos pela Deusa para adentrar a cidade, mantendo-a abastecida não só de informações, mas também de suplementos que eles próprios não conseguiam produzir. Estes eram chamados de “aventureiros”, palavra que outrora possuía outro significado, mas essa, é outra história. O avô de Nicolas foi um dos mais leais aventureiros da Deusa. E, por carregar o sangue do preferido da divindade, o pai de Nicolas tornou-se também aventureiro. 

Durante o mês de fevereiro, a cidade comemora o Carnaval Carmesim, festival bastante semelhante ao realizado pelos humanos: brincadeiras, danças e muita cantoria. Mas infelizmente, naquela tarde, algo terrível aconteceu. 

Em uma plantação não muito longe da cidade, surgiu uma Tormenta. “Tormenta” é a maldição que flagela a cidade Estranha e outros lugares mágicos (sim, existem outros). Há quem diga que a maldição foi posta pelos últimos humanos que ainda se lembravam de como fazer magia, antes da Deusa tirar-lhes a memória. Essa parte, entretanto, o Rei Sapo ocultou do garoto. A Tormenta é uma tempestade de sangue ácido, que corrói corpos das criaturas, destrói plantações e deixa os sobreviventes (se houverem)insanos. Para que os habitantes de Estranha não sofram tanto com as tormentas, a Deusa segura em suas próprias mãos as nuvens vermelhas que aparecem nos céus. Mas nem sempre ela consegue extinguir todo mal da chuva sangrenta. E dessa vez, não havia conseguido. 

A  Tormenta se conteve sim, e quase sumiu. Porém, apesar da força da Deusa, criou-se uma bolha oriunda da tempestade. Nessa bolha, que ainda não se dissipara, o pai de Nicolas havia ficado preso. Por benção da Deusa, seu corpo não estava se dissolvendo ainda… Mas estava desacordado e não conseguia sair. 

-Os pesadelos, medos e angústias dele… é isso que o mantém lá. É o que alimenta a Tormenta. Foi por isso que a bolha o pegou: por que seu pai é cheio de suas próprias angústias. – Terminou o Rei Sapo. 

Durante todo esse tempo, Nicolas se mantivera quieto e concentrado na história. Estava maravilhado com a existência de um lugar tão mágico, mas também assombrado com o destino do pai. 

-Mas não entendo, Majestade… como eu posso ser útil em uma situação como essa? – 

-Você, pequeno Nico – começou o grande sapo, com um carinho que não havia antes. – Você é o único capaz de tirá-lo de seus próprios pesadelos. – 

O leitor deve estar se perguntando o que fez um Rei sair de suas terras e subir até o inseguro território humano apenas para buscar uma criança que poderia salvar um dos aventureiros. É claro que havia outros interesses por parte do Rei. Nicolas, ao contrário, não pensou nisso. Apenas aguardou ansioso a chegada até seu destino: A mágica e encantadora cidade Estranha. E orou em silêncio para a tal Deusa, pedindo que o pai ficasse bem.

Como Nicolas salvou a si mesmo. (Parte 1: é mais provável que um rei sapo apareça na sua casa do que seu pai biológico).

Estou muito empolgada em apresentar para vocês a primeira ficção do blog. Também é a primeira vez que eu mostro pro mundo uma fantasia escrita por mim e eu to muuuuito empolgada! Ele se passa na época de carnaval, mas esse não é o tema da história. Por isso, se você está lendo no futuro, onde já sou uma escritora famosa e traduzida pra várias linguas, pode continuar lendo tranquilo.

Aviso importante: esse conto será publicado em partes, então acompanhe para a parte dois, que sairá amanhã. Se você está no futuro, pode encontrar os seguintes na aba “contos”.

Então, vamos para o conto.


 Nicolas arrumou suas coisas e se sentou no sofá, ao lado do sr. Sapo, seu fiel bichinho de pelúcia. Levava na bolsa seus deveres de casa e aquele livro obrigatório que a professora havia passado para o feriado: “A árvore generosa”. Nico se lembrava de ter pedido para o pai ler com ele na ligação. 

-E aí eu te levo no parque! –  o pai disse, explicando ao filho os planos feitos para o feriado de carnaval. 

-E à noite, podemos ler o livro que a professora passou? – perguntou o menino, animado. 

-Claro! – respondeu, com falso entusiasmo –  Eu te busco aí na sexta. Vou combinar tudo com a sua mãe. Ah, ela te falou quanto dinheiro papai te deu esse mês? 

O menino não entendia o porquê do seu pai falar tanto do dinheiro que dava à sua mãe. “Pensão” é o nome que ela dá a esse dinheiro, mas não fala muito disso com o Nicolas… ela não acha que uma criança de 8 anos precisa entender tanto sobre dinheiro. Já o pai pensa diferente e comenta sobre isso em todas as poucas ligações que faz. Talvez, Nicolas pensaria quando fosse mais velho, seu pai visse a responsabilidade financeira como a única conexão entre os dois. 

Mas agora, tudo estava indo bem. Suas roupas estavam separadas e ele estava empolgado para passar a semana de carnaval com o pai. Secretamente, pensava que essa era uma ótima oportunidade para se mostrar mais próximo dele… esse lance de pai e filho, sabe? Nicolas mostraria que é um garoto legal e comportado, e talvez seu pai quisesse vê-lo mais vezes. 

  Seus pais haviam se divorciado quando ele era bem pequeno, e não tinha memórias dos dois juntos. Isso significa que não sentia falta deles como casal, mas ainda tinha a expectativa de criar um relacionamento com ele. Agora aos oito anos, Nico se tornou a criança que os professores descrevem como “excêntrico” e talvez “precoce”. O que na verdade quer dizer, caro leitor, que Nico é uma criança esquisita. E eu não digo só de jeito, apesar do seu fascínio exagerado por sapos e fungos, mas também na sua aparência. É mais miúdo que seus colegas, tem cabelos encaracolados lindos que vão até seus ombros, mas que geralmente está cheio de farelo de biscoito, chiclete e lego. Usa um óculos amarelo que, devido ao seu alto grau de miopia, deixava-o com olhos enormes. Talvez por esses motivos ele era deixado de lado pela maioria dos colegas de turma, sobrando-lhe apenas a mesa dos professores na hora do recreio. Tímido ao extremo, era sim um ótimo menino, mas terrível com habilidades sociais. 

Esperava ansioso enquanto a mãe e o padrasto ajeitavam coisas pela casa. Nicolas e o padrasto, que chamava de “tio” Tomás (crianças nessa idade parecem chamar qualquer adulto de “tio”), eram grandes amigos. O adulto o via com grande amor e responsabilidade, um afeto fraternal. O menino também o respeitava e o amava como um filho. Tinham doces memórias juntos, como aquela vez em que o padrasto presenteou o garoto com o sapo de pelúcia a dois natais atrás. Desde então, o menino não desgrudou do presente. Tomás é biólogo, e os dois têm longas conversas sobre anfíbios. 

Nico ligou a TV e colocou seu desenho favorito. Era sobre um garoto, seu irmão caçula, e seu sapo de estimação desbravando os segredos de uma floresta sinistra. “Desenho de criança grande”, sua mãe disse uma vez. Nicolas ficou orgulhoso por gostar tanto de desenhos de crianças grandes. 

O garoto reparou em sua mãe, que falava estressada no telefone. Não conseguia ouvir o que ela dizia, mas pelas suas expressões, ele podia imaginar do que se tratava… depois de alguns minutos, sua mãe se sentou ao seu lado. Ela parecia apreensiva. 

-Meu filho… 

Nicolas já conseguia ver em seus olhos a notícia responsável por trazer tanta frustração. 

-Ele não vem, né? – perguntou, incapaz de encará-la.

A mãe apenas apertou os lábios e fez que não com a cabeça. Se aproximou mais e abraçou o filho. 

Nicolas já conhecia aquele sentimento. A angústia da expectativa frustrada… ele não sabia dar nome para isso ainda, mas não esqueceria do sentimento nem quando fosse grande de verdade. Nicolas não chorava mais com essa sensação, mas isso não significa que não o machucasse: ainda ardia em seu peito, como se seu próprio coração tivesse ralado o joelho enquanto brincava feliz de pega-pega. Mas ralar o joelho do coração dói muito mais que o joelho normal, e nem beijinho de mãe consegue curar. 

O garoto aprendeu a não chorar, pela sua mãe. Ela não dizia, mas ele conseguia perceber que essas ocasiões também doíam nela. Ele se lembrou de uma vez que flagrou a mãe chorando enquanto desfazia a mala do filho. Naquele dia, ele iria passar o fim de semana no Rio de Janeiro com o pai. Mas ele disse que não ia conseguir subir a serra para buscá-lo. Sua mãe sempre se escondia para chorar, e por algum motivo, Nicolas se sentia culpado pela tristeza dela. 

Nico respondeu ao abraço da mãe e tentou sorrir: 

-Tudo bem, vamos ter outras oportunidades. – Ele disse, escondendo a tristeza e imitando uma frase que ouvia de adultos. 

A mãe continuou no abraço por alguns minutos, fazendo cafuné no seu filho. Depois, se separou dele com um beijo na testa para se dirigir a cozinha e preparar algo bem gostoso. Tudo que sua mãe fazia era bem gostoso, pensou Nico. 

O garoto se ajeitou no sofá confortavelmente. Abraçou o seu sapo e tentou voltar a atenção para o desenho. 

Falhou. Não conseguia afastar os pensamentos… 

Talvez seu pai ainda viesse. Talvez não viesse hoje, mas amanhã ou depois. Afinal, o feriado de carnaval duraria a semana inteira! Ou quem sabe ele viria para ficar com o garoto um dia só… ainda poderiam ler o livro juntos. Ele se fantasiaria de sapo. Não, melhor ainda, ele se fantasiaria de árvore para combinar com o livro. Seu pai se vestiria de sapo, isso sim. Ele riu da ideia. Seu pai vestido de sapo… seria um sapo enorme! Achou divertido pensar nisso. 

Ele estava caindo no sono enquanto imaginava a cena: Seu pai fantasiado de sapo, ele fantasiado de árvore e o Sr Sapo em seus braços. Todos olhariam para os dois. Poderia funcionar… 

O sono foi chegando lentamente… Nico pensava em como seria sua fantasia de árvore, e como seria a do seu pai, de sapo. Sapos escalam árvores? Árvores gostam dos sapos? Será que os sapos têm medo de altura? Conseguiriam pular dos galhos altos das árvores? Em meio a esses devaneios, Nicolas caiu no sono.    

***

Já era tarde quando Nico ouviu alguém bater na porta. Levantou-se de súbito. Seu pai! Só podia ser ele. Nicolas sabia que ele não iria abandoná-lo dessa vez! Olhou ao seu redor e percebeu que a casa estava silenciosa demais. Sua mãe e seu padrasto já deviam estar dormindo. As batidas continuavam na porta. Sem pensar duas vezes, Nicolas abriu. 

Ao ver o que estava do outro lado, se espantou. Com o coração disparado de medo, segurou o sr Sapo apertado contra o peito, e ajeitou os óculos em uma tentativa de ter certeza que o que estava vendo era real: do outro lado da porta, não havia o seu pai ou qualquer outra pessoa… era uma criatura gosmenta que cheirava a musgo. Tinha pele verde e dedos compridos. Uma bochecha larga, boca gigante e olhos enormes com fundo dourado e pupila preta horizontal ovalada. Tinha vestimentas vermelhas feitas de tecidos elegante, uma roupa que parecia da realeza. Ele poderia ter dúvidas a respeito do seu status real se a criatura não levasse na cabeça uma grande peça de ouro com pedras de esmeralda. Era uma grande coroa cintilante… 

Um rei. Um rei… sapo? Um rei sapo gigante na porta de sua casa. Nicolas estava ofegante. 

-Quando se está diante de um rei… – Sua voz era grave, bem como se esperaria de um sapo gigante humanóide caso visse um.  – Espera-se que se curve para sua majestade. – 

O garoto deu um passo para trás. Um rei-sapo-gigante- falante-humanóide. Ele hesitou, mas se curvou diante do rei. 

-Muito bem, pequena coisa mal-educada. Venha comigo. Você é o Nicolas, não é? 

-S-sim.. 

-Bom. Vista o casaco, calce o seu sapato e venha. 

-Eu tenho que avisar a minha mãe… 

Nicolas sabia que não podia falar com estranhos, muito menos ir embora com eles durante a noite. Mas também parecia muito difícil dizer “não” para um rei-sapo-gigante- falante-humanóide. E além disso, o rei parecia não dar muita opção. 

-Não há tempo para isso. Seu pai precisa de ajuda. 

-Meu… pai? 

-Sim, coisa. Venha logo. E não me faça repetir. 

Nicolas obedeceu. Colocou seu tênis especial que pisca, seu casaco de dragão e deixou na sua mochila apenas o necessário: um toddynho, uma ruffles, uma lanterna do bat sinal (se existe alguma situação em que essa lanterna pode ser útil, essa situação é agora) e seu livro. Talvez pudesse ler com seu pai quando o encontrasse. E claro, o Sr. Sapo foi em seus braços.  


Continua…

Ana Beatriz Rocha, 2024.