Livros para ler no Halloween

Já viu por aí as lojas e marcas se preparando para se despedir de 2025? O Natal e a virada de ano já se tornaram produtos na minha timeline, mas espera aí! Ainda estamos em outubro e dá pra curtir as coisas com um pouco de calma (pelo menos tentar). Hoje em dia, olhar para nossas vidas nos dando um espaço para desfrutar dos rituais que marcam as passagens de tempo (início de estações, datas comemorativas, feriados e nesse caso, o dia das bruxas) acaba sendo um ato de protesto: tomamos dessa forma o tempo para nós mesmas e “sabotamos” a lógica econômica que capitaliza nossos minutos de atenção.

Dito isso, decidi me esforçar para aproveitar as festividades de fim de ano da forma que mais amo: fazendo leituras temáticas!* Eu já tento fazer leituras temáticas de halloween (e natal também) há anos. Justamente por isso, tenho repertório para fazer ótimas indicações para você que quer trazer mais do dia das bruxas para seu mês.

Ah, não esquece de usar meu link da amazon se tiver interesse em comprar algum dos títulos. Assim você me ajuda sem mudar o preço pra você.

*não apenas leituras…

…como também ouvir músicas e assistir filmes no climinha de halloween, além de tentar decorar meu espaço de trabalho e bullet journal para sair um pouco do óbvio do dia a dia. Ah, e tô registrando isso no canal no Instagram!

3 Livros para ler no halloween

O filme de Guillermo del Toro é costurado em palavras por Cornelia Funke nesse livro. Um conto de fadas assustador, poético e reflexivo, perfeito para essa temporada spooky. Eu nunca assisti ao filme, mas amei a leitura. Na época em que li, escrevi 5 motivos para você ler também 🙂 Confesso que faz um tempo desde a minha primeira leitura e gostaria de reler.

Caso você queira comprar, aqui está meu link.

“Os portões do inferno estão prestes a se abrir… cuidado com o vão!”. Essa é a frase na capa do livro de John Connolly. Sou meio suspeita para falar desse autor, amo o estilo de sua escrita. Misturando fantasia com o mundo real e tendo como protagonistas crianças inteligentes, o livro possui um narrador cheio de personalidade. Se você procura uma história divertida, sarcástica, e com um diabinho inusitado, essa aventura fantasiosa é uma boa opção para você. Um dos meus queridinhos!

E se você se interessou, pode encontrar o livro aqui.

Gosta de Scooby-Doo? Se sim, você encontrou o seu livro. Aqui você acompanha uma dupla de criadores de conteúdo de terror que decidem passar um tempo em uma casa supostamente assombrada para aumentar a audiência e conseguir manter os investidores. Uma história frenética e intrigante que desemboca num quebra-cabeça envolvendo campanhas eleitorais, igrejas evangélicas e homofobia mostrando que existem coisas bem mais assustadoras do que fantasmas.

Se você se interessou, pode adquirir seu exemplar aqui.

O que eu pretendo ler

Bem, minha vida anda um pouco tumultuada e sem tempo de leitura ultimamente. Mas estou disposta a tentar!

Para começar, defini um audiobook: A noite das bruxas, de Ágatha Christie na voz do Sherek! Estou amando, dou play durante minhas caminhadas matinais hehe.

Mais para o fim do mês, pretendo ler Mooncakes, uma hq bem lindinha. Não sei nada sobre, mas estou bem ansiosa para ler.

Além disso, claro, quero terminar minhas leituras atuais: “Tudo que eu sei sobre amor“, uma autobiografia que estou gostando bastante e a HQ belíssima da Supergirl, que sigo AMANDO!

Se por acaso o tempo congelar e forem acrescentados 100 dias ao meu mês de outubro que eu pudesse usar exclusivamente para leitura, tenho algumas opções em mente para ocupar esse tempo (além dos já citados):

  1. Noturnos – John Connolly. -> repetindo meu autor queridinho, mas dessa vez em formato de contos! Talvez leia alguns, quem sabe. 🙂
  2. Os demônios de Loudon – Aldous Huxley. -> vindo do autor de Admirável Mundo Novo e com esse título… me parece bem promissor.
  3. Incidente em Antares – Erico Verissimo. -> esse promete ser divertidíssimo! Minha professora do ensino médio me indicou (anos atrás) e comprei recentemente e quero muuuito ler.

Bem, caso os 100 dias de leitura venham, teremos muitas resenhas por aqui. Enquanto isso, espero que tenham gostado do post. Vão fazer alguma leitura temática em outubro? Fique à vontade para contar nos comentários deste post.

Obrigada pela leitura!

Dungeons and Drama – Resenha

Para escapar do ex-namorado inconveniente, Riley acaba entrando em um relacionamento de mentira com Natan, seu atual colega de trabalho (que ela odeia). Ela vai precisar equilibrar essa encenação com seu trabalho na luderia do pai e ainda desenvolver seu projeto secreto para restaurar o musical de primavera da sua escola. Mas claro, esse relacionamento de mentira vai acabar tomando um espaço em seu coração… será que Riley vai resistir aos encantamentos de um nerd?

sinopse:

Riley Morris é capaz de fazer qualquer coisa para alcançar seus objetivos ― até mesmo roubar o carro de sua mãe e dirigir para outra cidade sem carteira de motorista só para assistir a uma peça. Ela é apaixonada por teatro musical e seu maior sonho é se tornar uma grande diretora da Broadway, mas, para chegar lá, antes terá que salvar o musical da escola do limbo.

Só que isso se torna uma tarefa praticamente impossível quando o castigo por dirigir ilegalmente consiste em passar todo o seu tempo livre trabalhando na chata loja de jogos do pai.

Como se já não tivesse coisas demais com o que se preocupar, Riley ainda toma a impulsiva decisão de cantar vantagem para o ex fingindo que está saindo com Nathan, seu rabugento mas igualmente adorável colega de trabalho.

Para convencer a todos de que estão realmente juntos e fazer ciúmes no crush de Nathan, Riley terá que entrar para o grupo de Dungeons & Dragons dele. Surpreendentemente, o jogo é até divertido. E, mais surpreendente ainda, flertar com Nathan não exige tanta atuação quanto ela esperava…

(retirado da amazon)

Expectativas

Conheci o livro através do instagram da editora pitaya. Os anúncios não paravam de aparecer para mim e até minhas amigas me enviaram o livro dizendo que é a minha cara. Elas não podiam estar mais certas: logo me reconheci na capa – meu primeiro encontro com meu namorado foi jogando RPG e desde então estamos sempre jogando juntos. Fiquei encantada com a expectativa de ler algo que combina tanto com a gente… ele sabia muito bem disso, já que me presenteou com o livro há dois meses atrás.

Eu imaginava que seria um livro leve e rapidinho de ler – bem o tipo de leitura para curar ressaca literária, sabe? E esse ano, com TCC e iniciação científica e tantas ansiedades tomando conta de mim, queria passar meu tempo lendo coisas leves, divertidas e rapidinhas – categoria que apelidei carinhosamente de “literatura tiktok”. Queria ficar viciada em um livro, sentir a tentação de ler de madrugada, perder o ponto do onibus só porque estava concentrada lendo.

A História

Riley é uma aluna do ensino médio apaixonada por musicais e teatro. É super criativa e colorida, está sempre vestindo roupas inusitadas (amei o estilo dela, muito diva) e tem uma melhor amiga super fofa. Riley fica de castigo depois de pegar o carro da mãe e dirigir até outra cidade para assistir a um musical junto a sua amiga (ela não tem carteira, e não pediu autorização para usar o carro). Agora, ela terá que passar todo seu tempo livre trabalhando na luderia do pai, com quem ela não tem uma boa relação desde antes do divórcio. Se isso não fosse ruim o bastante, ao voltar para a escola das férias, ela descobre que o musical de primavera havia sido cancelado – bem no ano em que ela pretendia se candidatar a dirigir a peça. E ainda, seu ex-namorado que se acha o pop star, debochou dela insinuando que ela não conseguiu encontrar outra pessoa desde que terminaram (ela realmente ainda estava solteira, mas não por não conseguir superar o ex).

E é por isso que ela acaba dizendo estar namorando o Natan – seu colega no novo trabalho. Eles se odeiam, mas ela acaba convencendo Natan a topar para fazer ciúme na garota que ele gosta, a Sofia. Cada um por seu motivo, os dois começam a “flertar de mentira” um com o outro e passam cada vez mais tempo juntos, incluindo a campanha de Dungeons and Dragons. Assim, eles acabam se aproximando mais e mais…

Em uma mistura de “fake dating” com “enemies to lovers”, esse casal tem muita química. Além de super fofinhos, em várias cenas das interações entre os dois é possível sentir o arrepio de estar se apaixonando e eu amei isso!

Uma subtrama que me chamou muita atenção foi a relação da protagonista com o pai. Eles acabam passando mais tempo juntos e desenvolvem um relacionamento verdadeiro e é muito lindo de se ver. O tema me tocou em especial, e me arrancou algumas lágrimas.

Pontos positivos, pontos negativos

A classificação etária é de 13 anos, o que acho bom. Em vários momentos pensei que teria aproveitado melhor se tivesse lido nessa idade – mas ainda assim gostei muito da leitura. Notei alguns problemas na narrativa, algumas coisas que poderiam ser melhor trabalhadas e algumas pontas soltas. Tentei me convencer que, se eu tivesse 13 anos, não perceberia – mas acredito verdadeiramente que foram sim falhas na qualidade da escrita. Independente do público alvo, esses erros não deveriam acontecer.

Esperava uma presença melhor do RPG de mesa na história. Queria me sentir jogando junto, mas isso não aconteceu. Fiquei pensando que seria muito legal usar a estratégia que muitos desenhos usam quando os personagens estão jogando RPG, que é literalmente entrar em um novo mundo de fantasia. Assim, teriamos duas histórias: uma acontecendo no mundo real e outra totalmente mágica onde Natan é um paladinho meio-elfo e Riley uma humana barda. Mas, de qualquer forma, foi legal imaginar os personagens rolando dados e montando estratégias para lidar com os ogros.

Outra coisa que foi deixada em aberto, é o motivo do divórcio dos pais da Riley. A relação entre pai e filha foi um dos principais temas trabalhados, e no início da história a mãe parece guardar rancor contra o pai – porque? A autora não conta para a gente. Na minha opinião, seria essencial saber o motivo para eu poder decidir se eu gostou ou não dele…

Esses pontos não estragaram minha experiência, mas achei importante trazer para vocês.

Kristy Boyce

Uma coisa que me deixou muito feliz em saber foi que a própria autora e sua melhor amiga conheceram seus respectivos maridos em uma campanha de RPG de mesa. Achei uma graça ela ter se inspirado na própria história para escrever esse livro e fiquei curiosa com outro título dela, o Dating and Dragons – mas esse ainda não veio para o Brasil.

Ah, e essa capa linda? Amei que eles dois estão vestidos como seus personagens do RPG!

Afinal, indico ou não?

Indico Dungeons and Drama para todas as leitoras que simpatizam com nerds e musicais, gostam de histórias de fake dating e buscam uma leitura divertida e rapidinha cheia de química romântica! Se ficou curiosa e quer adquirir o livro, use meu link da amazon, assim você me ajuda e o valor não muda em nada para você.

Agora me conta: você já leu? Pela resenha, acha que esse livro é para você?

O último presente do Noel

“Eu sei que ele não existe!” Disse o irmão mais novo de Clarice naquela manhã, em meados de dezembro.

Seu questionamento sobre o Papai Noel já estava latente desde o início das preparações natalinas, mas naquele dia ele havia acordado com aquela verdade no seu peito. Ele não existe.

O que isso significava para ele? Quais as implicações aquilo teria nesse natal? Seria o primeiro ano em que a família não teria uma criancinha em casa para procurar pelo nariz do Rudolf na escuridão da madrugada do dia 25. Clarice, a irmã mais velha, com seus quase 20 anos, se lembrou de quando parou de acreditar no Papai Noel.

Para a maioria das crianças, esse momento vinha naturalmente, como um dente de leite sendo substituído pelo permanente. Fazia parte do processo doloroso e natural de crescer. Mas para Clarice, foi diferente. Aconteceu no seu primeiro Natal sendo irmã mais velha. Ela tinha 10 anos, a mesma idade que seu irmão tinha atualmente. Mas ao contrário dele, ela acreditava, e queria convencer os amigos incrédulos da existência do bom velhinho.

Argumentava fervorosamente, sentindo-se íntima dos elfos natalinos, renas e do próprio Noel. Eles debochavam dela, como se ela fosse velha demais para aquele sonho. Como uma criança pode ser velha demais? A pequena Clarice fingiu não se abater com aquelas vozes.

Mas fato é que internamente, se abateu. Velha demais. Crescida demais. Isso não saía da sua cabeça, e por mais que quisesse discordar, algo nela dizia que eles estavam certos. E quando se sentou para escrever a cartinha do Papai Noel, sentiu que era uma carta de despedida. O meu último presente do Noel. Essa certeza ecoou dentro do seu frágil coração, tão certo como o nascer do sol. O Papai Noel não deixou de existir naquele Natal, ele era mais vivo do que nunca. Acontece que Papai Noel não presenteava crianças grandes, todos sabiam disso. Você crescia, e parava de ganhar presentes dele… e era impossível frear o seu amadurecimento.

Clarice olhou para si mesma: quase uma adolescente, já menstruava. Ia para escola sozinha, usava bolsas de adolescentes ao invés de mochilas infantis, tinha uma quedinha pelos meninos do Ensino Médio e agora também era irmã mais velha. Já não tocava com tanta frequência nos brinquedos, e escolhia livros sem gravuras na capa para ler. Definitivamente crescera.

Ela ia sentir falta, já sabia. Sentiria falta de subir e descer escadas em um ritual fictício que abria portas para o seu mundo imaginário. Sentiria saudade de ser a rainha das fadas, e governá-las com benevolência. Sentiria falta de namorar o Harry Potter escondido, e conversar com ele sobre suas responsabilidades como rainha. Ela vivia aquilo deixando ser bom, mesmo sabendo que teria um fim.

E a hora havia chegado. Era a sua última carta. Papai Noel teria novas gerações de crianças para cuidar, meninos e meninas que entrariam nas listas de bons e maus. Em casa, ela pegou uma folha de papel ofício, duas canetas coloridas e sentou na escrivaninha de seu quarto para escrever a última carta. Como se despedir daquele que por tanto tempo foi o motor de grande parte da magia natalina? Como dizer adeus para aquele precioso momento anual de se deitar sabendo que na manhã seguinte haveria presentes esperando embaixo da árvore, e o cupcake feito com tanto carinho no dia anterior teria sido devorado por uma senhor de vermelho e suas renas voadoras? Ela engoliu sua angústia e se sentou para escrever, tentando ignorar que era a sua última vez.

Pensou no que pediria. Queria algo que pudesse guardar para sempre, algo que seu eu adulto pudesse mostrar para os filhos e dizer orgulhosamente que foi o seu último presente do Noel. Ah, e tinha que ser fabricado pelo próprio Noel! Algo que ele e seus elfos ajudantes fizesse manualmente, lá na grande fábrica no Papai Noel, onde a magia era viva e os brinquedos eram confeccionados em meio a canções natalinas cantadas a capela. Nada de Barbies ou Hotweells, mas sim algo do Polo Norte. E então, imaginando a própria fábrica mágica do Noel, soube o que pedir. Um Globo de neve

Imaginou como seria: um globo grande, que pudesse decorar sua estante de livros. Dentro dele, teria a representação da própria fábrica. Seria possível ver os presentes sendo embalados cuidadosamente, e os elfos cantando em conjunto. A neve caindo lá fora e a árvore de natal cintilando. Uma imagem linda, nascida de um belo sonho. E o mais importante: ela jamais mudaria. Clarice cresceria, suas roupas parariam de servir, suas amigas se esqueceriam dela e as fadas, suas súditas, escolheriam outra pessoa para governá-las. Mas o globo de neve permaneceria inalterado, mostrando um mundo que será sempre repleto da magia natalina, e imune ao efeito do amadurecimento. Sim, um pedido perfeito para o seu último presente do Noel. Ela separou suas canetas favoritas.

“Querido Papai Noel,” Começou. “Estou crescida esse ano. Sou irmã velha. Não tenho mais tanto tempo para brincadeiras. Além disso, as crianças da minha idade não acreditam mais em você… eu acredito, acredito mesmo! Mas sei que o senhor tem outras crianças para se preocupar agora, crianças que acabaram de nascer, como meu irmão. É por isso que crianças grandes não recebem mais presentes. Tadinho de você e seus elfos, teriam que passar dia e noite produzindo e ainda assim não acabariam o trabalho! Então, eu entendo. Esse vai ser meu último presente, por isso precisa ser algo especial. Se for possível, queria algo feito pela sua fábrica! Algo que possa me mostrar como é o Polo Norte, para que eu possa guardar e jamais me esquecer do senhor, das suas renas e de seus ajudantes. Muito obrigada por todos esses natais juntos. Ps.: Não esqueça o presente do meu irmão. Com muito carinho, Clarice.”

Ela deixou a caneta sobre a mesa e massageou suas mãos, cansada de escrever. Olhou sua carta. Será que ela poderia continuar se correspondendo com o Noel mesmo sem ganhar presentes? Ela suspirou. Colocou a carta no envelope e deixou com seus pais, que colocariam no correio para ser entregue no Polo Norte.

De volta aos seus vinte anos, a criança dentro da mulher se lembrava disso com muita emoção e um novo significado. Clarice já havia ouvido algumas vezes de seus pais, tios e outros adultos, frases que a assustavam quando criança: “Ah, não cresce não! Ser adulto é tão complicado!” “Quando somos criança, tudo que queremos é crescer… quando a gente cresce, a gente se arrepende“. Isso deixava a pequena Clarice agoniada, como uma ovelha indo em direção ao abatedouro. Não havia como parar seu crescimento! Estava fadada ao sofrimento do amadurecer.

Hoje, adulta, Clarice sentia a dor de uma criança sendo cobrada para muito além do que é capaz de oferecer. É, ser adulto é muito complicado. Em muitos momentos, ela queria ser novamente aquela pequena garotinha cujo a única inquietude era decidir quem herdaria seu trono no reino das fadas. Ela queria que sua própria vida pudesse se congelar em um globo de neve, onde seria para sempre natal e para sempre infância. Mas não havia mais nenhum dente de leite, nenhuma roupa de criança, nenhum ritual para se chegar até as fadas… a infância escorreu de seus dedos, foi tomada dela de maneira irreparável. Os anos de sua vida, vistos de longe eram efêmeros, passaram mais rápido do que ela poderia imaginar.

Ela estava vendo aquilo acontecendo com seu irmão agora. Ele estava aos poucos, se despedindo da sua infância, a cada ano mais perto da vida adulta. Clarice encarou seu globo de neve na estante de livros. Não era exatamente o que ela havia pedido, mas foi seu presente favorito do Noel. “É curioso”. Ela pensou. “Quando você para de acreditar, ele deixa de existir”. Seus pais disseram isso a ela quando era criança. “Ele só existe enquanto você acreditar nele”. Isso nunca foi uma mentira: ela acreditava e ele era real. Assim como os sonhos que temos ao dormir: se lembramos deles ao acordar, eles existem. Se não lembrarmos de nada, dizemos que não tivemos sonho. “Estranho, não é? Parece que as coisas mais divertidas da vida“, ela constatou, “só são reais enquanto acreditamos nelas”.

E ao pensar nisso, algo em Clarice se acendeu. Seria a magia do Natal? Magia ou não, Clarice sentiu como se, internamente, ela se transformasse em todas as “clarices” que fora antes, tudo ao mesmo tempo. Não tinha apenas 20 anos, mas também 17, 15, 10 e 6. Adulta e criança. Guiando e sendo guiada. Ensinando e aprendendo. Dentro de Clarice, que estava aprendendo a se ver como mulher, ainda havia a pequena menina que acredita em elfos, fadas e Papai Noel. Nesse instante, todas as clarices deixaram uma lágrima quente deslizar sobre a bochecha. Clarice adulta se sentiu abraçando a Clarice criança, em um momento de consolar e ser consolada. Te prometo nunca abandonar você. Nunca deixar a minha infância para trás, adulta quis dizer. A Clarice criança, dentro do abraço, diria: tenho muito orgulho de para onde você nos trouxe. Ela entendeu, com seu coração, que a Clarice criança ainda era ela. Talvez ela não mais governasse as fadas, mas ainda via suas fadas nas flores. Talvez não brincasse de voar, mas sentia a brisa do vento como se fosse um pássaro. Não era mais do jeito que era antes, mas ainda assim, era Clarice.


Na manhã de Natal, o irmão de Clarice encontrou um presente embaixo da árvore, junto a uma carta. “Eu disse que não acredito mais” revoltou-se. “Não precisavam ter se preocupado com isso.” Clarice pediu para ele abrir.

Ele obedeceu.

Era um globo de neve.