Quem me conhece sabe o quanto a vida acadêmica é importante para mim. (Inclusive, já citei isso em outros textos aqui no blog, e estou falando sobre isso mais uma vez… para vocês verem como isso é sério. Mas enfim…) O devaneio de hoje veio a partir de um desejo que tá na minha cabeça há tempos: pintar o cabelo de rosa.

Aí você me pergunta: “Bia, o que tem a ver pintar o cabelo de rosa com o desempenho acadêmico?” Boa pergunta, caro leitor! Eis a explicação:
Há uma senhorita influencer do mundo acadêmico que sigo nas redes sociais. Eu a via como grande fonte de inspiração (ou seria melhor dizer “comparação”?), já que a garota é mesmo impressionante: até em Harvard ela já estudou. Também é do campo em que eu sonho estar um dia, na pesquisa em saúde. O problema tem origem no momento em que eu decido que, para ter sucesso, não bastaria apenas dar o melhor de mim: eu teria que seguir todas as dicas mágicas dela. Que claro, ela vendia por um valor exorbitante.
Eu estava obcecada, passava 80% do meu tempo falando dela e suas leis para sucesso e os outros 20% torcendo para alguém falar, para que eu falasse um pouco mais.
Calma, eu não cheguei a comprar o curso dela. Mas estava verdadeiramente cogitando. Eu estava obcecada, passava 80% do meu tempo falando dela e suas leis para sucesso e os outros 20% torcendo para alguém falar, para que eu falasse um pouco mais. (curtiu a referência, hein hein?) * rindo de nervoso. * Assistia a todos os stories, lia todos os posts (incluindo as gigantescas legendas de reels que passavam dicas importantíssimas). Estava perto de venerá-la… e secretamente, também a invejava. Mas não é sobre inveja que vamos falar hoje (embora seja um assunto que pode render uma boa crônica mais tarde).
Bem. Certo dia, essa influenciadora começa a falar sobre como devemos nos vestir. Segundo ela, temos que ir para a faculdade como se fossemos ser os apresentadores do Oscar. (ok, não é pra tanto). Mas ela defendia que devíamos nos vestir todos os dias, para todos os lugares, impecavelmente. Roupas no casual chic, sapatos brilhantes. Mas nada muito diferentão: vista-se como os outros… como seus professores. Como os professores de seus professores. Ou ainda melhor: como os professores de alguma universidade europeia elitista e muito muito muuuuito longe da sua realidade atual. Você não quer se vestir como um homem idoso europeu, intelectual e rico? Sinto muito, então você será pra sempre medíocre.

É mais ou menos essa a teoria dela, e eu até concordo em parte. CALMA, DEIXA EU ME EXPLICAR! Não é novidade que a aparência é algo muitíssimo importante, e comunica algo. Não pega bem ir para a faculdade de pijama, por exemplo. Ou apresentar um seminário como quem acabou de sair da academia. Mas falar pra mim que eu tenho que me vestir todo dia com a seriedade de um professor phd da suécia? MONA, EU NEM TENHO 20 AINDA. TE MANCA!
uu, ok. Deixa eu acalmar os ânimos.
Na época que vi essa teoria, acreditei. Faz sentido, e infelizmente, pode até ter muita verdade nesse pensamento. Me cobrei para obedecer esses mandamentos, e passei a me preocupar não só com a roupa que ia na faculdade, mas a seriedade no estilo devia me acompanhar em todo lugar. Afinal, eu poderia encontrar algum professor no supermercado e acabar com as chances de conseguir uma bolsa de iniciação científica por estar usando chinelo. Né?
A vida adulta (eu estou começando a descobri-la) não é fácil… Por que a gente coloca tanto peso em si para deixá-la ainda mais insustentável?
Graças ao bom Deus, não sustentei essa loucura por muito tempo. Contei para minha psicóloga sobre essa influenciadora, expliquei a ela todo o status que a estudante mostrava ter e falei de suas teorias sobre sapatos brilhantes=futuro brilhante. Terminei de explicar o caso e acrescentei: “eu queria tanto ser ela!”. Minha psicóloga respondeu: “Não, você não quer ser ela. Você pode querer chegar onde ela está, mas ela não tem nada a ver com você.”
Cara… ela não tem nada a ver comigo. * explosão mental *
Nos dias que se sucederam, comecei a pensar no que teria a ver comigo afinal. (Parece que todos os textos têm tido esse ar de “quem és tu”. Crise dos 20 é sintomática, amigas.) Mais especificamente, comecei a pensar como EU gosto de me vestir, e o que EU gosto de comunicar com minhas roupas. Pensei também em como as pessoas ao meu redor se vestiam, com quais roupas meus professores davam aula e etc. Observei algumas coisas, que posso descrevê-las aqui para vocês:
- Gosto de me divertir montando looks. Essa percepção veio quando eu adquiri um par de brincos do Efalante (personagem de Ursinho Pooh), no dia seguinte da conversa com a psicóloga. Spoiler: usei eles na faculdade.
- Para mim, conforto é importante. Conseguir usar roupas que me permitem ficar sem sutiã, sentada confortavelmente, e com pés descansados… isso é ELITE.
- Gosto de me sentir como uma protagonista de um filme alto astral. Gosto de colocar elementos coloridos nas roupas, ou então me aventurar em uma estética mais senhor-inglês-fofinho.
- Vejo a roupa como uma forma de me expressar em cada dia. Nem sempre estou igual, mudo a estética como mudo o humor. Estou me descobrindo.

Bem, em suma, era isso que eu tinha para compartilhar a respeito do meu estilo. Agora, voltemos para a problemática principal.
Tenho vencido essa mentalidade da influenciadora. Não só na área de vestimenta, mas também na área que envolve diretamente os meus estudos: isso não ocupará a parte central da minha vida. E é nessa tentativa constante de driblar as limitações que eu me coloco, que surgiu toda a dificuldade em pintar o cabelo de rosa.
O que meus professores vão pensar de mim? Será que eu posso perder oportunidades por conta da cor do cabelo? Será que as pessoas não vão mais me levar a sério? Tudo isso rondava os meus pensamentos (e em certa medida ainda ronda).

Mas hoje, fui tomada por um pensamento que me fez finalmente comprar a tinta rosa para o meu cabelo: Cara, nem eu me levo tão a sério. E nem quero, pra falar a verdade. Deixa a vida ser desse jeito, com essa leveza. Eu vou fazer 20 esse ano, como vocês sabem. Se eu começar a me limitar dessa forma nessa idade, imagina a infelicidade que vou ter nos próximos anos?
Eu fico orgulhosa de não caber em um lugar que me colocaria em uma caixinha tão pequena.
A vida adulta (eu estou começando a descobri-la) não é fácil… Por que a gente coloca tanto peso em si para deixá-la ainda mais insustentável? Tá, talvez a forma que eu me vista possa impedir meu caminho até Harvard… Mas meu bem, por que eu ia querer estar em um lugar onde não se pode ser feliz? E eu não tô falando em ser sem noção não… tô falando de felicidade mesmo… criatividade… liberdade… Eu fico orgulhosa de não caber em um lugar que me colocaria em uma caixinha tão pequena.
Isso me lembra do filme de Alice no País das Maravilhas de Tim Burton, quando o Chapeleiro Maluco se vira para a Alice e diz: “Nunca perca a sua muíteza”.
Bem, é essa a mensagem final que eu quero deixar para vocês.
Nunca perca a sua muíteza.
Aqui é a bia do futuro passando para avisar que meu cabelo nem ficou tão rosa assim. Triste.
