Estou muito empolgada em apresentar para vocês a primeira ficção do blog. Também é a primeira vez que eu mostro pro mundo uma fantasia escrita por mim e eu to muuuuito empolgada! Ele se passa na época de carnaval, mas esse não é o tema da história. Por isso, se você está lendo no futuro, onde já sou uma escritora famosa e traduzida pra várias linguas, pode continuar lendo tranquilo.
Aviso importante: esse conto será publicado em partes, então acompanhe para a parte dois, que sairá amanhã. Se você está no futuro, pode encontrar os seguintes na aba “contos”.
Então, vamos para o conto.
Nicolas arrumou suas coisas e se sentou no sofá, ao lado do sr. Sapo, seu fiel bichinho de pelúcia. Levava na bolsa seus deveres de casa e aquele livro obrigatório que a professora havia passado para o feriado: “A árvore generosa”. Nico se lembrava de ter pedido para o pai ler com ele na ligação.
-E aí eu te levo no parque! – o pai disse, explicando ao filho os planos feitos para o feriado de carnaval.
-E à noite, podemos ler o livro que a professora passou? – perguntou o menino, animado.
-Claro! – respondeu, com falso entusiasmo – Eu te busco aí na sexta. Vou combinar tudo com a sua mãe. Ah, ela te falou quanto dinheiro papai te deu esse mês?
O menino não entendia o porquê do seu pai falar tanto do dinheiro que dava à sua mãe. “Pensão” é o nome que ela dá a esse dinheiro, mas não fala muito disso com o Nicolas… ela não acha que uma criança de 8 anos precisa entender tanto sobre dinheiro. Já o pai pensa diferente e comenta sobre isso em todas as poucas ligações que faz. Talvez, Nicolas pensaria quando fosse mais velho, seu pai visse a responsabilidade financeira como a única conexão entre os dois.
Mas agora, tudo estava indo bem. Suas roupas estavam separadas e ele estava empolgado para passar a semana de carnaval com o pai. Secretamente, pensava que essa era uma ótima oportunidade para se mostrar mais próximo dele… esse lance de pai e filho, sabe? Nicolas mostraria que é um garoto legal e comportado, e talvez seu pai quisesse vê-lo mais vezes.
Seus pais haviam se divorciado quando ele era bem pequeno, e não tinha memórias dos dois juntos. Isso significa que não sentia falta deles como casal, mas ainda tinha a expectativa de criar um relacionamento com ele. Agora aos oito anos, Nico se tornou a criança que os professores descrevem como “excêntrico” e talvez “precoce”. O que na verdade quer dizer, caro leitor, que Nico é uma criança esquisita. E eu não digo só de jeito, apesar do seu fascínio exagerado por sapos e fungos, mas também na sua aparência. É mais miúdo que seus colegas, tem cabelos encaracolados lindos que vão até seus ombros, mas que geralmente está cheio de farelo de biscoito, chiclete e lego. Usa um óculos amarelo que, devido ao seu alto grau de miopia, deixava-o com olhos enormes. Talvez por esses motivos ele era deixado de lado pela maioria dos colegas de turma, sobrando-lhe apenas a mesa dos professores na hora do recreio. Tímido ao extremo, era sim um ótimo menino, mas terrível com habilidades sociais.
Esperava ansioso enquanto a mãe e o padrasto ajeitavam coisas pela casa. Nicolas e o padrasto, que chamava de “tio” Tomás (crianças nessa idade parecem chamar qualquer adulto de “tio”), eram grandes amigos. O adulto o via com grande amor e responsabilidade, um afeto fraternal. O menino também o respeitava e o amava como um filho. Tinham doces memórias juntos, como aquela vez em que o padrasto presenteou o garoto com o sapo de pelúcia a dois natais atrás. Desde então, o menino não desgrudou do presente. Tomás é biólogo, e os dois têm longas conversas sobre anfíbios.
Nico ligou a TV e colocou seu desenho favorito. Era sobre um garoto, seu irmão caçula, e seu sapo de estimação desbravando os segredos de uma floresta sinistra. “Desenho de criança grande”, sua mãe disse uma vez. Nicolas ficou orgulhoso por gostar tanto de desenhos de crianças grandes.
O garoto reparou em sua mãe, que falava estressada no telefone. Não conseguia ouvir o que ela dizia, mas pelas suas expressões, ele podia imaginar do que se tratava… depois de alguns minutos, sua mãe se sentou ao seu lado. Ela parecia apreensiva.
-Meu filho…
Nicolas já conseguia ver em seus olhos a notícia responsável por trazer tanta frustração.
-Ele não vem, né? – perguntou, incapaz de encará-la.
A mãe apenas apertou os lábios e fez que não com a cabeça. Se aproximou mais e abraçou o filho.
Nicolas já conhecia aquele sentimento. A angústia da expectativa frustrada… ele não sabia dar nome para isso ainda, mas não esqueceria do sentimento nem quando fosse grande de verdade. Nicolas não chorava mais com essa sensação, mas isso não significa que não o machucasse: ainda ardia em seu peito, como se seu próprio coração tivesse ralado o joelho enquanto brincava feliz de pega-pega. Mas ralar o joelho do coração dói muito mais que o joelho normal, e nem beijinho de mãe consegue curar.
O garoto aprendeu a não chorar, pela sua mãe. Ela não dizia, mas ele conseguia perceber que essas ocasiões também doíam nela. Ele se lembrou de uma vez que flagrou a mãe chorando enquanto desfazia a mala do filho. Naquele dia, ele iria passar o fim de semana no Rio de Janeiro com o pai. Mas ele disse que não ia conseguir subir a serra para buscá-lo. Sua mãe sempre se escondia para chorar, e por algum motivo, Nicolas se sentia culpado pela tristeza dela.
Nico respondeu ao abraço da mãe e tentou sorrir:
-Tudo bem, vamos ter outras oportunidades. – Ele disse, escondendo a tristeza e imitando uma frase que ouvia de adultos.
A mãe continuou no abraço por alguns minutos, fazendo cafuné no seu filho. Depois, se separou dele com um beijo na testa para se dirigir a cozinha e preparar algo bem gostoso. Tudo que sua mãe fazia era bem gostoso, pensou Nico.
O garoto se ajeitou no sofá confortavelmente. Abraçou o seu sapo e tentou voltar a atenção para o desenho.
Falhou. Não conseguia afastar os pensamentos…
Talvez seu pai ainda viesse. Talvez não viesse hoje, mas amanhã ou depois. Afinal, o feriado de carnaval duraria a semana inteira! Ou quem sabe ele viria para ficar com o garoto um dia só… ainda poderiam ler o livro juntos. Ele se fantasiaria de sapo. Não, melhor ainda, ele se fantasiaria de árvore para combinar com o livro. Seu pai se vestiria de sapo, isso sim. Ele riu da ideia. Seu pai vestido de sapo… seria um sapo enorme! Achou divertido pensar nisso.
Ele estava caindo no sono enquanto imaginava a cena: Seu pai fantasiado de sapo, ele fantasiado de árvore e o Sr Sapo em seus braços. Todos olhariam para os dois. Poderia funcionar…
O sono foi chegando lentamente… Nico pensava em como seria sua fantasia de árvore, e como seria a do seu pai, de sapo. Sapos escalam árvores? Árvores gostam dos sapos? Será que os sapos têm medo de altura? Conseguiriam pular dos galhos altos das árvores? Em meio a esses devaneios, Nicolas caiu no sono.
***
Já era tarde quando Nico ouviu alguém bater na porta. Levantou-se de súbito. Seu pai! Só podia ser ele. Nicolas sabia que ele não iria abandoná-lo dessa vez! Olhou ao seu redor e percebeu que a casa estava silenciosa demais. Sua mãe e seu padrasto já deviam estar dormindo. As batidas continuavam na porta. Sem pensar duas vezes, Nicolas abriu.
Ao ver o que estava do outro lado, se espantou. Com o coração disparado de medo, segurou o sr Sapo apertado contra o peito, e ajeitou os óculos em uma tentativa de ter certeza que o que estava vendo era real: do outro lado da porta, não havia o seu pai ou qualquer outra pessoa… era uma criatura gosmenta que cheirava a musgo. Tinha pele verde e dedos compridos. Uma bochecha larga, boca gigante e olhos enormes com fundo dourado e pupila preta horizontal ovalada. Tinha vestimentas vermelhas feitas de tecidos elegante, uma roupa que parecia da realeza. Ele poderia ter dúvidas a respeito do seu status real se a criatura não levasse na cabeça uma grande peça de ouro com pedras de esmeralda. Era uma grande coroa cintilante…
Um rei. Um rei… sapo? Um rei sapo gigante na porta de sua casa. Nicolas estava ofegante.
-Quando se está diante de um rei… – Sua voz era grave, bem como se esperaria de um sapo gigante humanóide caso visse um. – Espera-se que se curve para sua majestade. –
O garoto deu um passo para trás. Um rei-sapo-gigante- falante-humanóide. Ele hesitou, mas se curvou diante do rei.
-Muito bem, pequena coisa mal-educada. Venha comigo. Você é o Nicolas, não é?
-S-sim..
-Bom. Vista o casaco, calce o seu sapato e venha.
-Eu tenho que avisar a minha mãe…
Nicolas sabia que não podia falar com estranhos, muito menos ir embora com eles durante a noite. Mas também parecia muito difícil dizer “não” para um rei-sapo-gigante- falante-humanóide. E além disso, o rei parecia não dar muita opção.
-Não há tempo para isso. Seu pai precisa de ajuda.
-Meu… pai?
-Sim, coisa. Venha logo. E não me faça repetir.
Nicolas obedeceu. Colocou seu tênis especial que pisca, seu casaco de dragão e deixou na sua mochila apenas o necessário: um toddynho, uma ruffles, uma lanterna do bat sinal (se existe alguma situação em que essa lanterna pode ser útil, essa situação é agora) e seu livro. Talvez pudesse ler com seu pai quando o encontrasse. E claro, o Sr. Sapo foi em seus braços.
Continua…
Ana Beatriz Rocha, 2024.

Muito bom!
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Que bom que gostou! Fico muuuuito feliz mesmo! ❤
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