Como Nicolas salvou a si mesmo. Parte final: O Abraço de uma Deusa é o melhor lugar para chorar.

Oi, oi! Chegamos ao fim da jornada do pequeno Nico. Espero que vocês tenham gostado tanto quanto eu… Fiquei muito feliz de compartilhar tudo isso com vocês, e fico ainda mais contente em afirmar que a publicação desse texto me fez enxergar o quanto ele ainda pode melhorar. Obrigada a todos vocês que acompanharam! E se você ainda não leu as partes anteriores, pode encontrar o restante aqui.


Nicolas encarou a bolha diante deles. Era tempestuosa, brilhante e vermelha. Parecia feita de sangue fresco. As parreiras ao redor estavam secas, pareciam mortas. Quanto mais tempo a bolha ficasse ali, maior seria a área de destruição sobre elas. E o pai de Nicolas estava ali dormindo, flutuando no seu interior, desacordado. 

Lá dentro, o pai revivia seus piores pesadelos em looping. Coisas que nenhuma criança da idade de Nico pode imaginar, coisas que o moldaram como ele é. Ele não conseguia sair desse estado, e foi para isso que Nicolas foi chamado, para que, de alguma forma, se conectar com o pai lá dentro. 

-Como vou fazer isso? 

-Não sei… acho que talvez você possa falar com ele. – Sugeriu Carlin, com simplicidade. 

-Falar sobre o que? – 

-Ah… – ela parecia confusa com as perguntas. Pensava que o menino, de alguma forma, fosse saber exatamente o que fazer. – Sobre o que vocês costumam conversar?

-A gente não costuma conversar. – Nicolas respondeu, cabisbaixo. 

-Ué! Mas ele não é o seu pai? – Carlin estranhou a resposta. 

-Sim, mas… a gente não conversa muito. 

Houve um silêncio constrangedor enquanto Nicolas fechou os olhos para afastar a lágrima. 

-Veja… que tal só falar sobre você então? – Sugeriu a fada, hesitante. 

-Tudo bem. Acho que isso vai ser mais fácil. 

Nicolas se aproximou da bolha o tanto que conseguiu. Não tocou nela, teve medo de se ferir com a tempestade. 

-Oi, pai! – Nicolas começou, meio gritando. – Não sei se você pode me ouvir, mas… – Olhou para Carlin alguns metros atrás dele em busca de aprovação. Ela fez um sinal para ele continuar. – Sou eu, o Nicolas. Seu filho. A gente tinha combinado de passar o carnaval juntos… fiquei triste quando você não veio. Claro, isso foi antes de saber que você era um grande aventureiro. 

Nicolas encarou a bolha e nada havia mudado. Parecia que conversar não estava adiantando muito… mas ele continuou tentando. 

-Sabe, me disseram que você está tendo pesadelos aí dentro. Deve ser muito ruim, eu odeio pesadelos. Geralmente, quando tenho pesadelos, mamãe ou tio Tomás ficam comigo até eu pegar no sono de novo, e isso me ajuda. Eu posso ficar com você se você quiser. Assim você não tem mais pesadelos. – Dizendo isso, se sentou no chão e continuou falando. – Eu trouxe um livro para lermos juntos! Podemos ler quando você sair daí. – 

Quanto mais Nicolas falava, mais a percepção de que nada mudava o assolava. Foi se sentindo impotente, sozinho e com medo. Parecia que as coisas sempre caminhavam dessa forma: o garoto tinha a expectativa de melhorar tudo com o pai, deixar florescer um relacionamento juntos, fazer com que a distância entre os dois fosse reduzida. Mas sempre acabava frustrado: O pai nunca o ouvia e parecia sempre dentro de si, como estava agora. Nicolas sente o coração apertar. 

-Pai, por que você não veio me ver? Nada disso teria acontecido se você tivesse chegado na hora marcada! Sei que você é um aventureiro e aqui eles tem essa festa do Carnaval Carmesim, então é normal que você quisesse ir… mas e eu? Você não veio. – A voz do pequeno garotinho começou a falhar. – Você não vem. Você não liga… E quando liga, a gente nem tem sobre o que conversar! Eu sempre te espero… – As lágrimas brotam dos olhos de Nicolas, e ele esconde o rosto com as mãos. – Eu sempre espero tanto! Planejo, me arrumo todo, conto para todos os meus amigos que você vem… e aí, você não aparece. Mamãe chora. Eu me esforço para não chorar.. Você nunca vem. Nem mesmo me liga. E eu me sinto culpado. Parece que o problema está em mim. E eu não sei… não sei o que fazer. Não sei como te tirar daí de dentro. Não sei como me aproximar de você… é como se.. é como se a gente não se conhecesse… 

E entre seus choros e soluços, Nicolas ouviu atrás dele uma voz poderosa: 

-O que está acontecendo aqui? – 

Limpou suas lágrimas e virou para ver quem era a dona da voz. Uma mulher baixinha e rechonchuda, mas com uma presença forte olhava espantada para cena. Usava um grande vestido que parecia ser encantado. O vestido flutuava nela, e ela flutuava no vestido. O tecido era leve, marfim e repleto de flores. Parecia brilhar como as estrelas. Seus cabelos longos também estavam flutuando, como se tudo nela estivesse em um dinamismo perfeito e contínuo. Seus olhos verdes e a boca vermelha tinham agora uma expressão que unia raiva, espanto e sobretudo, preocupação. Seu olhar de águia analisava tudo: Carlin ajoelhada diante do corpo morto de Joan, os monstros em poças de sangue, Nicolas caindo em lágrimas do lado da bolha de tormenta. 

Carlin levantou-se rapidamente e reverenciou a mulher. 

-Kiara!

-Carlin, minha amada. Que cena de horrível destruição é essa? Eu não havia dito para todos ficarem longe disso?-  Ela falava amavelmente, como uma mãe. Mas sua voz era muito mais poderosa do que a de qualquer mortal. 

-Vossa Majestade Sapal ordenou… Ele foi buscar esse garoto ontem a noite… é filho do aventureiro. Está tentando acordá-lo. 

O olhar de Kiara encontrou o de Nicolas, e ele sentiu um arrepio subir pela espinha. Se ajeitou rapidamente e limpou as lágrimas, temeroso. Nunca havia se sentido tão envolvido na vida: aquele olhar parecia um abraço na alma, mas também inspirava nele muitíssimo respeito. 

-Pobre criança! Não acredito que ele envolveu o garoto nisso. E olha que destruição o menino presenciou! E a Joan… 

-Ela não resistiu… Os monstros foram cruéis demais com ela. – 

Kiara se ajoelhou ao lado de Carlin e pegou a mão de Joan. Fechou os seus olhos e respirou fundo, como em uma meditação. Chorou por Joan ao lado de Carlin, que a abraçou. 

Nicolas assistiu a cena, confuso. Kiara parecia um ser muito poderoso: por que simplesmente não podia ressuscitar Joan? Depois de um tempo em silêncio, Kiara se levantou e caminhou até o garoto. 

-Como é o seu nome? – perguntou ela, gentilmente. 

-Nicolas. – Ele respondeu, mesmo sentindo que ela já soubesse: ela parecia saber todas as coisas. Ela se sentou ao seu lado. 

-Esse é o seu pai? 

-Sim. Estou tentando salvá-lo. O Rei me trouxe para isso. – Nicolas deixou que sua agonia e tristeza transparecer em sua fala. – Mas não consigo… nada que eu falo é capaz de tirar ele desse estado… 

-Ah, pobre Nicolas… – Kiara o abraçou, acolhendo ele em seu colo. – Não é o dever dos filhos salvar os pais dos seus próprios pesadelos. Isso é algo que ele deverá enfrentar sozinho, e a culpa não é sua. Nunca foi. 

Ouvindo isso,  Nicolas encontra aconchego nos ombros da mulher, e volta a chorar. Derrama todas as lágrimas que quis esconder da mãe até aquele momento, lágrimas de quem se via como responsável em uma situação que não passava de vítima. Lágrimas de uma criança que tudo o que queria, era ler um livro com o seu pai. 

O abraço de Kiara proporcionava o ambiente mais seguro para chorar. Ali, ele se sentia protegido e entendido por ela. Visto como filho e também como indivíduo. Ela possuía uma espécie de energia contagiante, parecia olhar para o coração de Nicolas e curar o joelho ralado. 

Depois que Nicolas se acalmou, Kiara explicou: 

-Nicolas, o Rei só te trouxe até aqui porque ele esperava que você realmente destruísse a tormenta e libertasse, não o seu pai, mas o vinhedo real. Me envergonho em dizer que ele fez isso por ambição, e não por carinho. Acredito que ele mesmo não sabia que era uma missão tão desafiadora, mas para ele, foi tudo sobre dinheiro. Eu sinto muito mesmo você ter sido vítima de uma estratégia como essa. 

-Mas… o que vai acontecer com meu pai? 

-Eu não vou desistir dele, Nicolas. Prometo a você que continuarei tentando guiá-lo em um caminho onde seus pesadelos já não tenham mais efeito, um caminho onde ele poderá receber e oferecer afeto. Não é sua essa batalha, Nicolas, é dele e de mais ninguém. Nicolas assentiu com a cabeça, as lágrimas ainda escorrendo em seu rosto. 

-Me prometa uma coisa, Nicolas: Não deixe que seus pesadelos te aprisione dessa forma. Deixe espaço para o amor florescer em você e nos relacionamentos que vai construir. Se permita conhecer seus sentimentos e desfrutar dos instantes. O seu pai, há muito tempo se perdeu em si mesmo, em seu próprio egoísmo e mesquinharia. Foi por isso que a tormenta o pegou: porque ele já estava corrompido por dentro. Prometa que não deixará nenhuma tempestade tomar conta de você.

Nicolas levou a promessa a sério e ofereceu seu mindinho para Kiara. Não há nada mais forte do que “jurar de mindinho”. Ele a abraçou mais apertado e ela deu um beijo carinhoso na testa dele. 

-Agora, meu pequeno… – ela disse, segurando suas mãos e o olhando bem nos olhos. – Está na hora de voltar para casa.- 

***

Nicolas acordou quando mais um episódio do seu desenho começava na tv. Um cheiro delicioso de molho de tomate tomava conta da casa: sua mãe estava fazendo espaguete com almôndegas, seu prato favorito. Ao seu lado, a mala que levaria para a casa do pai continuava ali, intocada. O menino ajeitou os óculos e olhou ao redor: estava tudo exatamente como antes. 

-Ah, você acordou! – disse o tio Tomás – Vem jantar… fizemos sua comida favorita!- 

 Nicolas foi sentar-se à mesa com a família, e tudo estava de volta à normalidade. Na mente do garoto, as coisas mantinham-se vivas do início ao fim. Mas tudo não passava de um sonho bem vivido, não é?

Depois da refeição, Nicolas foi mandado para cama. Mas, antes de ir, olhou para sua mãe e Tomás:

-A gente pode ler um livro antes de dormir?- pediu. 

E foi assim que a noite terminou: com Nicolas, sua mãe e Tomás lendo seu livro. E naquele momento, ele não sentia mais a culpa, frustração ou a agonia. Sentia apenas o conforto, amor e ternura de estar em família. 

Uma família que, Nicolas tinha certeza, nunca deixaria que seu coração entrasse em tormenta. 

2 comentários

  1. Avatar de Nicolly Nascimento Nicolly Nascimento disse:

    Gostei muito da escrita e da história, não é previsível e foi bem divertido e interessante a leitura, misturando o lúdico com o emocional (sou suspeita a falar pq amo isso), fique bem Nicolas!

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    1. Avatar de biarouxinol biarouxinol disse:

      Ahh, obrigada Nicolly! Você deixou meu dia mais feliz com esse comentário ❤

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