Este artigo trata-se de um material de estudo que decidi compartilhar com vocês na esperança de me obrigar a articular as ideias e, no mais otimista dos casos, ajudar alguém no processo. Convido-o a usar o espaço dos comentários para discussão 🙂
Você já reparou o quanto nossas vidas estão ligadas aos diferentes meios de comunicação? Já estávamos muito próximos da TV desde a década de 70, com a programação da Rede Globo intimamente ligada às nossas rotinas. E, antes disso, o rádio falava em nossos ouvidos durante a Era Vargas, marcando gerações apaixonadas por radionovelas. Inclusive, você sabia que a primeira emissora de rádio oficial do Brasil foi criada para fins de educação e divulgação científica? Legal, né? A questão é que os meios de comunicação em massa tiveram impacto significante na humanidade desde a imprensa de Gutenberg passando pela do criação do orkut e atravessando os memes que você faz para enviar como figurinha do whatsapp no seu grupo de amigos.
Recentemente, tenho estudado o conceito de midiatização: uma ideia que para mim ainda é abstrata, e pelo que venho visto, muitos autores trazem definições com nuances significativas entre si para a mesma palavra. Neste texto, pretendo explicar para vocês leitores (e consequentemente para mim mesma) a importância desse palavrão e, se tivermos sorte, ao fim desse exercício serei capaz de escolher minha abordagem favorita em meio a tantas teorias.
Bom, vamos voltar ao começo. Se você está lendo isto é porque tem algum tipo de acesso à internet. Muito provavelmente também tem perfis nas redes sociais digitais (whatsapp? certamente. instagram? provavelmente. tiktok? eu diria que sim). Se é assim, sabe o quanto de coisa a gente faz através delas: interagimos com nossos amigos e influenciadores favoritos, conhecemos livros e filmes em alta, ouvimos 15 segundos de uma música chiclete através de uma nova trend, vemos um ou outro produto que nós PRECISAMOS PARA ONTEM (assim, com a urgência de um capslock desnecessário), e vez ou outra descobrimos raras coisas realmente interessantes. Se você tem um pequeno negócio, pode ser que use as redes para promovê-lo em busca de novos consumidores. Se você está procurando emprego, pode ser que use como portfólio ou até uma espécie de currículo. Ou, você pode usá-las só para se entreter e se conectar com pessoas e assuntos que você gosta.
A real é que as redes sociais digitais são tão presentes que hoje não dá nem pra flertar (atividade até mais antiga quanto o guten-sei-lá-o-que do começo do texto) sem usar pelo menos o instagram. Não é bizarro pensar que estamos vendo notícias importantes, assistindo a copa, estudando, postando nossos photodump e flertando TUDO PELO MESMO LUGAR? Esse foi um grande salto da internet: transformar uma comunicação antes vertical em algo horizontal. Se antes, só o willian bonner e o silvio santos podiam hablar na mídia, hoje eu e você podemos pegar nossos smartphones a qualquer momento e MILITAR MUITO NO TUITER!!! Quase como eu tô fazendo aqui com esse textão.
Claro, a internet não deu espaço para todo mundo de forma igualitária, e é bom lembrar que a desigualdade de acesso à internet é muito real. Mas é claramente um cenário diferente do que antes. Se, com a tv e o cinema, tínhamos celebridades distantes que vez ou outra davam entrevistas reveladoras à capricho, hoje sabemos mais sobre a vida dos influenciadores digitais do que sobre nossos próprios parentes. Essa nova profissão só encontrou terreno para existir depois da web 3.0, onde a horizontalidade se une com a interação em tempo real, ajudando a conferir intimidade e legitimidade ao influenciador.
Tá, paramos de divagar agora. O que tudo isso tem a ver com midiatização? Oh, dear, TUDOH!
Se tem uma coisa que todo mundo que já meteu a colher no tema “midiatização” concorda é que as mídias estão tão intimamente ligadas à sociedade contemporânea que é impossível estudar a sociedade sem falar em mídia. Se o boobie goodies foi o livro mais vendido de 2025, o labubu passou a ser item de desejo do brasileiro, e o morango do amor chegou tão longe como foi, devemos tudo isso aos stories da gênia midiatica Vírginia Fonseca. Um simples story da maior influenciadora do Brasil teve impacto profundo (ainda que efêmero, como tudo é hoje), nas livrarias, confeitarias e lojinhas da 25 de março.
Acho que tem ficado cada vez mais claro para a gente a penetração do meio digital em diferentes esferas da nossa vida: relações interpessoais e profissionais, política, saúde, hábitos de consumo… Santella nos aponta como a homogeinização dos meios de comunicação em massa (tipo a tv ou o rádio), passa a ser um espaço muito segmentado, com circulação de um grande volume de informações ao mesmo tempo. Se antes todo mundo assistia a mesma novela, hoje em dia temos algo bem mais fragmentado: uns assistem dorama, outros só veem filmes estadunidentes, outros veem curtas cult e assim vai, em uma microsegementação infinita…
Essa segmentação, que alguns autores chamam de bolhas virtuais, se intensifica com o que Shoshana Zuboff chamou de capitalismo dadocêntrico, onde nossas informações são capturadas sem que necessariamente estejamos conscientes, e esses dados são usados para conduzir nossos comportamentos. Os primeiros autores da teoria da comunicação já queriam descobrir como manipular a audiência. Se na teoria da agulha hipodermica achava-se que era só dizer “compre batom” e o ouvinte faria isso, hoje já sabemos o bastante para entender que não é bem assim… Mas, se você tiver dados o bastante sobre sua audiência para fazer uma publicidade mais direcionada, você vai ser bem mais persuasivo.
Quem trouxe o termo midiatização para o Brasil foi Muniz Sodré. Ele vai ainda além do que Sandella e descreve midiatização como uma nova forma de ser e estar no mundo caracterizada por:
- “estetização da vida” (tudo tem que ser instagramável);
- “ethos do desejo individual” que eu chamei de individualismo personalizado (seu feed é feito especialmente para você);
- “submissão ao capital” (aceitamos que nossa atenção aos vídeos de tiktok dá lucro pra quem já era rico);
- “mídia como estruturadora da percepção” (consumimos e experienciamos o mundo através do celular, o que fica ainda mais perigoso em tempos onde a inteligência artificial se mostra tão avançada);
- “novas formas de sociabilização” (isso fica muito claro quando vemos os tais webnamoros);
- “nova condição antropológica” onde o celular (mas não só ele) passa a fazer parte do nosso corpo… quando foi a última vez que você deixou de levar seu smartphone ao banheiro? eca.
Gosto dessa definição de Muniz Sodré, ainda mais com a contribuição feita por Braga e Neto que me lembram muito da ideia dos memes (teoria pela qual sou apaixonada). Os autores destacam o conceito de circulação para pensar a midiatização, lembrando-nos que os processos de comunicação estão em constante dinâmica, um fluxo que cria e recria significados e conceitos.
Acredito que, na prática, seja perceptível o quanto as novas tecnologias de comunicação (a internet e tudo que veio depois) impactam nossa vida e extrapolam o online. Perceber isso muitas vezes me traz inquietações, mas conhecer autores como estes (e outros) é para mim um afago, pois trazem palavras às minhas dores e me fazem sentir menos só. Espero que esse texto te ajude também.
Como referência principal usei o texto de Vera V França, intitulado: Alcance e variações do conceito de midiatização. Disponível em: https://www.midiaticom.org/archives/redessociedadeepolis/30/. Acesso em 03/07.
Agradeço a Alice Gatto por compartilhar comigo este artigo que está sendo essencial para compreender o conceito.
