Divulgar Ciência

Texto original escrito para o curso de Biomedicina do Unifeso. Em agosto de 2025.

Imagine só: você está em um país completamente diferente, em que você não domina a língua, não sabe as leis ou a cultura e se sente completamente perdido. De repente você deseja que tivesse alguém ali, uma espécie de tradutor que não apenas traduz, mas conversa com você e entende suas necessidades frente àquele mundo misterioso que deseja desbravar. 

Bem, essa é a missão (ou apenas uma das missões) do divulgador da ciência com para a população. Não se trata de um salvador que vem em tom de superioridade, mas sim uma pessoa que se propõe a dialogar com o público de maneira participativa, fazendo o meio campo entre ciência e sociedade. Mas divulgar ciência não é uma atividade exclusiva para influenciadores digitais do meio científico, ou jornalistas da ciência e saúde. Engana-se quem pensa que para seguir uma carreira na área da saúde seria desnecessário desenvolver a expertise de falar com o público, uma vez que fazemos isso a todo momento. 

Seja para explicar o procedimento estético a um paciente, discutir os resultados dos exames com colegas, pacientes e parentes, ou simplesmente para convencer um familiar querido que a vacina é segura, a habilidade de comunicação é necessária em quase todas as atividades no âmbito profissional e pessoal. Quando falamos a respeito da formação do profissional biomédico, a importância da comunicação é ressaltada pelo próprio Código de Ética. No artigo 13, que discursa a respeito das relações do profissional biomédico com a coletividade, o inciso de número I busca impedir práticas que, por ação ou omissão, prejudiquem o ser humano ou a saúde pública. Sabemos que a omissão de fatos científicos pode muitas vezes colocar em risco a saúde individual e pública – o que reforça a urgência do conhecimento de comunicação pelas futuras biomédicas e biomédicos. 

No final de julho de 2025, estive no “Seminário Educação, Informação, Comunicação e Saúde: Proteção contra a desinformação”, realizado pela Fiocruz Bahia. O evento me levou a refletir ainda mais sobre a urgência de inserir comunicação/divulgação científica na lista de prioridades durante a formação. Como cidadãos e futuros profissionais da saúde, é preciso atuar no nosso ciclo (família, comunidade local, futuros pacientes, amizades e etc.) como pequenos agentes contra a desinformação que assolam as redes sociais e a internet. De maneira acessível, ética e (principalmente) afetiva, nossas vozes podem mudar vidas em nossa volta – e não é necessário que você crie uma conta no Instagram ou TikTok para postar vídeos profissionais sobre células eucariontes ou qualquer coisa do tipo (embora, se quiser fazer, tem todo meu apoio!). Você pode simplesmente se tornar mais disposto a conversar sobre ciência e saúde de maneira informal com quem você ama – e isso já seria transformador. 

Nesse mesmo seminário que citei, nosso grupo de pesquisa ofereceu uma oficina de memes para adolescentes do ensino médio, e tivemos a oportunidade de conversar com eles de maneira divertida a respeito do Sistema Único de Saúde. E como retorno, também aprendemos muito com eles. Mas o momento mais lindo que vivenciei neste dia foi quando o professor dos adolescentes agradeceu ao nosso grupo, com olhos marejados de lágrima: “eles estão tendo uma oportunidade que eu nunca tive”, disse. E nós também lhe agradecemos com lágrimas presas nos olhos. E aí está mais uma razão para divulgar ciência e saúde: simplesmente porque isso é bonito demais. E eu acredito de todo meu coração que a comunicação (ou educomunicação), muda a história de pessoas e comunidades. 

Te convido a participar dessa mudança junto a um grupo de estudantes que se interessam por esse tema. A Liga Acadêmica de Divulgação Científica está sempre aberta para novos integrantes: é só enviar uma mensagem no nosso Instagram @ladc.unifeso que lhe damos mais informações. 

Divulgar ciência é muito mais do que apenas traduzir conhecimento: é diálogo, é compreensão, é afeto. E, além de tudo isso, é transformador.