Por que escrevo? Muitos autores já se dedicaram a responder essa pergunta, e existem diversas obras escritas que se dedicam a explicar a complexidade desse ofício. Mas eu, mal escritora que sou, nunca havia parado para pensar sobre isso. O desenrolar mais óbvio da minha resposta seria: “escrevo porque sinto que sem a escrita, morreria”. Porém, isso já se provou incorreto. Passo meses sem visitar minha escrivaninha para escrever com minha alma, e nem por isso morro. Mas também não seria justo definir o processo de escrita como algo que se reduz ao instante literal de transformar o coração em palavras. Minha escrita começa quando estou olhando o brilho do sol por entre as folhas. Quando sinto saudade de quem amo. Quando sinto a textura dos lábios-amados encostando em meus lábios-amantes. Quando faço as coisas simples da vida com paz e contentamento. Mas, ainda assim é preciso me sentar com um papel e caneta, ou mesmo com meu notebook, e consumar o ato, um orgasmo de palavras que partem de algum lugar bem profundo em mim e fluem até a ponta de meus dedos.
Me sinto tão intima com as palavras, apesar dos desencontros com elas. Quando era mais nova, sentia ainda mais forte o ardor que me levava até o caderno para rascunhar histórias. Sonhava com meus livros… a vida acontece e nós esquecemos de nossos personagens. E quando a gente abandona eles, é como se abandonássemos um pouco de nós mesmos, sabe? Meu coração fica apertado quando penso que não há tempo o bastante para fazer tudo que queria fazer na minha existência, e a escrita é algo que não posso deixar para trás.
Sinto como se um dia eu fosse chegar ao médico, me queixando de alguma doença misteriosa e a recomendação para me curar seriam duas horas de escrita todos os dias, com uma dose de café coado para acompanhar. Seria delicioso seguir as recomendações médicas!
Bem, na verdade, escrever nem sempre é delicioso. Às vezes, escrever dói. Os ditos e não ditos sufocam algo na gente, e de repente as palavras entopem o fluxo da alma até as pontas dos dedos e simplesmente não chegam no papel. A dor de escrever, é o não escrever. Acho que às vezes, a gente procrastina para encarar nossa escrita porque sabemos que há uma enorme chance das palavras não virem. Ninguém entende a agonia de quando as palavras não vêm… aí a gente se engana e começa a achar que é melhor nem tentar. Não tentando, podemos dizer “ah, sabe como são as coisas, né? O tempo passa muito rápido…”. E passa. E as palavras se vão. As histórias que vieram até nós para escrevermos, procuram outras mentes para atormentar (e tomara que essas as escrevam!).
Gloria Anzaldúa diz que: “escrevo porque tenho medo de escrever, mas tenho um medo maior de não escrever”. Acho que sinto um pouco isso. A ideia de morrer e levar meus textos não escritos comigo me atormenta. Claro que o simples fato de escrever sem que ninguém venha a me conhecer como autora, não garante que meus textos não se percam no infinito informacional. Mas ainda assim, os textos estariam lá, a prova da minha passagem pelo mundo em um caderno fechado num quarto que ninguém habita.
Não me importo muito com o que acontecerá aos meus escritos no futuro, ou mesmo se alguém lerá um dia. O que me importa é o que a escrita faz a mim aqui e agora. E o que ela faz a mim? Acho que talvez eu nunca saiba explicar.
De todo modo, a escrita é necessária para me fazer quem sou. Acho que nunca sou tão eu mesma como no instante em que estou escrevendo. É como se meu espírito se conectasse a algo maior. É meio estranho dizer isso, eu sei, mas essa é a forma mais próxima para explicar meu sentimento. Nada na vida me faz mais inteira do que escrever. Não sei se todo mundo se sente dessa forma e realmente gostaria de saber como a escrita funciona para as outras pessoas… mas para mim, escrever é a única forma de ser eu.
Posso estar viva sem a escrita, mas jamais serei eu mesma. É íntimo e intenso, eu nem sei mais se faço isso bem… mas ainda assim preciso continuar.
