Como Nicolas salvou a si mesmo. Parte 3: Chocolate quente é um ótimo café da manhã para quem acha que pode ser seu último.

Oi oi! Antes de começar a ler, tenha certeza de ter lido a parte 1 e parte 2 do conto! Você também pode encontrar todos os contos aqui! Agora vamos ao conto!


Ao fim da história, a inusitada carruagem do Rei Sapo já estava se aproximando da cidade. De longe, Nicolas não conseguia reparar nada de diferente: parecia uma típica cidade do interior do país, com muita vegetação, poucas construções altas e sem iluminação elétrica. A vitória-régia começou a abaixar voo e cruzou a parede que protegia a cidade. Nicolas não sabia disso, mas foi a magia da Deusa que o permitiu fazer a travessia, como permitia também os aventureiros. Ela podia sentir a presença dele ali mesmo sem vê-lo, e saber que não faria mal algum ainda que nunca tivesse falado com ele. 

Agora, perto o bastante para distinguir movimentos entre as copas das árvores, ele se deslumbrava com o que via. Fadas voavam aqui e ali, ajudando os animais noturnos e guiando flores que nasciam à noite. Observou uma das fadas que parecia ensinar filhotes rouxinóis órfãos voarem de seus ninhos. 

A pouca iluminação que tinha, vinha das estrelas e da lua, além de pequenas chamas flutuantes mágicas que iluminavam os caminhos principais. Ainda assim, era possível ver os ladrilhos coloridos e lindos jardins crescendo de maneira bagunçada e esplêndida. Cogumelos enormes saltavam aqui e ali, e alguns sapos coaxavam e brincavam em cima deles. Apesar das circunstâncias, Nicolas não conseguia esconder o sorriso: tudo ao seu redor tinha cheiro de magia, sonho e aventura. 

-Lá está. Lar doce lar. – Disse a Majestade, apontando para o palácio. 

Nico olhou para onde seu dedo apontava. Era um grande palácio que parecia ser feito de rochas e plantas. Se estivessem em qualquer outro lugar, talvez aquela construção fosse chamada de “abandonada”, mas em Estranha, era magnífica. Parecia mesmo uma estrutura viva. Vagalumes rodeavam as paredes do castelo, embora se escondessem sempre que os sapos passavam por eles. 

Ah, sim! Os sapos! Estavam por toda parte, obviamente. Madames e cavaleiros anfíbios, pulando no lago ou descansando nos troncos, e até dançando canções carnavalescas! Como são noturnos, estavam em plena atividade durante a madrugada. Nicolas se animou pensando no que seu padrasto (que compartilha com ele seu amor por animais) falaria se estivesse ali com ele. Ao passar pelos sapos, claro, os mesmos reverenciavam o Rei, que acenou para eles. 

A vitória-régia deixou o Rei e o garoto na porta do palácio, onde duas seguranças estavam prontas para escoltá-los para dentro. Assim fizeram.

O interior do palácio era tão estupendo quanto o lado de fora. Nicolas não podia deixar de pensar o quão lindo aquele espaço seria durante o dia. Com paredes altas, janelas grandes e plantas invadindo, cada centímetro do lugar parecia respirar.

No salão de entrada, um grande lustre com chamas amarelas proviam uma baixa iluminação no local. Como o ambiente era habitado por criaturas com visão noturna, eles não se preocupavam tanto com as luzes. No chão, quadrados vermelhos (de flores)  e verdes (de musgos) formavam um gigante tabuleiro de xadrez. No final da sala, ao centro, um grande trono para o Rei. Nas laterais, escadas de pedra levariam para o segundo piso. Cavaleiros anfíbios apareceram através das portas laterais e se colocaram à disposição da Majestade.  

-Este é o garoto que resolverá nosso problema. – Disse o Rei para os guardas. – Levem-no para o quarto de hóspedes. – 

“ ‘Nosso’ problema?” refletiu Nico. O rei, virando-se para ele, disse: 

-Durma, garoto. Amanhã de manhã as soldadas mais astutas do meu exército te guiarão na sua jornada. Tenha uma boa sorte. – 

Nicolas nem teve tempo para respondê-lo. Os guardas o levaram até o quarto, e ele soube que não veria o Rei novamente. 

*** 

O quarto de hóspede seguia a estética do restante do palácio, exceto por um detalhe: no teto, algum tipo de magia fazia com que o céu fosse reproduzido ali. Nicolas se deitou e observou as estrelas enquanto refletia sobre suas descobertas recentes. Uma cidade escondida, sapos humanóides, um pai aventureiro em perigo, fadas, magia… era tudo muito empolgante. Mesmo com tamanha excitação, sabia que precisava dormir caso quisesse ajudar o seu pai na manhã seguinte. Por isso, abraçou sua pelúcia e colocou-se para contar as estrelas. Pegou no sono na vigésima sexta. 

***

O sol invadia o quarto de hóspede fazendo Nicolas levantar-se antes mesmo que as soldadas viessem acordá-lo. Com a luz, ele podia agora ver melhor o seu quarto. Nas paredes de madeira cresciam heras e cogumelos, e joaninhas se escondiam entre as folhas. A janela aberta era convidativa para os pássaros que entravam e saiam de lá cantando. Grandes árvores podiam ser vistas, e nelas escondiam-se todo tipo de animais silvestres que a mata atlântica pode abrigar. Nessa cidade, os seres mágicos viviam em tão intensa harmonia com a natureza, que ela mesma parecia mais encantadora do que nunca, como se nela estivesse a real magia.

Nicolas sentiu cheiro de pão fresco e chocolate quente. Olhou em direção a porta e percebeu ali uma bandeja flutuante que acabava de surgir naquele lugar. Ele andou até ela, pegou, e voltou para cama para tomar seu café-da-manhã. 

O garoto sentia-se ao mesmo tempo como um membro da realeza e um grande aventureiro. Mal podia acreditar que aquilo estava acontecendo com ele! O que diriam quando ele contasse sobre isso? Bem, eles não iam conseguir acreditar… “De alguma forma,” pensou Nico “nem sei se eu mesmo acredito no fim das contas.”  Temia que fosse apenas um sonho em que ele acordaria a qualquer momento e estaria novamente em sua casa. E seu pai, nunca viria…  não porque ficou preso em uma bolha de pesadelos, mas sim porque ele não quis. 

Espantou da mente esse pensamento triste. É claro que era tudo real. Se não fosse, como esse chocolate quente poderia ser tão delicioso? Não podemos sentir gosto em sonhos, ou podemos? “Mas se é verdade…” pensou Nicolas, com uma pontada de medo “mamãe deve estar furiosa!”. 

Tomou o chocolate-quente cujo sabor era divino. Mais uma das coisas que Nicolas não sabe e é privilégio do leitor saber: o chocolate quente com notas de cogumelo e pétalas de orquídeas preparado pelas fadas é a bebida favorita dos seres mágicos exploradores – principalmente quando acreditam que trata-se de sua última refeição. Nessa manhã, na cozinha do palácio, alguma fada julgou que Nicolas talvez não voltasse de sua jornada… mas é melhor nosso mini-herói não saber disso. 

O garoto ouviu batidas em sua porta. 

-Pode entrar! – 

Seis soldadas-pererecas entraram no quarto. 

-Bom dia, senhor Nico. Eu sou a soldada Joan Beauchamp. Sob ordens da Majestade, vamos lhe acompanhar até a área da bolha de tormenta. 

Nicolas concordou com a cabeça. 

-Mas primeiro, precisamos te equipar. – Disse uma segunda soldada. 

Se dirigiram então para a parte externa do palácio, onde algumas fadas trabalhavam durante o dia. 

-Ei, Carlin. – Joan chamou. – Venha cá. Nosso amigo aqui precisa ser equipado. – 

Carlin, uma jovem fada ruiva, com vestes em marrom e um arco de folhas secas, se aproximou voando. 

-Oi! – exclamou alegremente – Quem é esse? – 

-Esse aí é o Nicolas. O Rei foi pessoalmente buscá-lo ontem. Ele vai nos ajudar a resolver o problema da bolha de tormenta. Ele é filho do cara.- Explicou Joan. 

-Ah… – Carlin ofereceu a Nico um olhar de compaixão. – Ouvi dizer que ele está péssimo. Sinto muito… – 

Nicolas sentiu seu coração pesar. Não sabia que a situação era tão grave. O que estava acontecendo, afinal? 

-Kiara sabe que ele está aqui? – Perguntou Carlin. 

-Bem, saber ela sabe, né? Mas pelo que dizem, o Rei não procurou ela antes. Joan respondeu em tom conspiratório. – Bem, vamos ao ponto: Faça uma armadura para ele, por favor. E um arco leve. Ele vai precisar. – 

Carlin fechou os seus olhos e se concentrou por uns segundos. Nicolas não entendia o que estava acontecendo. Porque ela não podia só buscar essas coisas para ele? 

Em menos de um segundo, as raízes das árvores próximas brotaram do chão e subiram pelas pernas do menino, formando uma armadura de madeira encantada e envolvendo-o.  Em suas mãos, surgiu um arco com madeira e cipó, com flechas envenenadas por micotoxinas.  

-Já atirou flechas alguma vez? – Perguntou Joan. 

-Só com Nerf, tia. – 

-Não sei o que é isso, mas espero que sirva. – Voltando-se para as outras soldadas e Carlin: – Bem, sem mais perder tempo. Vamos logo. – 

Elas se colocaram em posição, com Nicolas no meio delas, sendo protegido. Haviam andado alguns passos quando Carlin grita: 

-Esperem! – 

Pousando bem a frente deles, com seus pés descalços na terra úmida, encarou Joan com um olhar suplicante: 

-Posso ir também? 

-Não. – Ela disse, seca. 

-Mas eu posso ser útil! 

-Já disse que não. 

-Por favor! 

-Não! – gritou Juan. 

-Bem, eu vou de qualquer jeito. Se você me aceitar com o grupo, ficarei mais protegida, se for escondida, então não terão como me proteger. 

Juan deu-se por vencida. Carlin tinha essa fama de ser insolente o bastante para conseguir tudo o que queria, e além disso não pegaria bem uma fada machucada por culpa dela. 

E então, seguiram pelo caminho seis pererecas, uma fada e um menino. 

Nicolas se perguntava por que raios toda essa preparação. Pelo que havia entendido do Rei, o garoto ia chegar perto da bolha onde seu pai estava preso e começar a conversar com ele, na tentativa de que isso pudesse o acalmar e interromper a retroalimentação da tormenta com os pesadelos dele. Mas pela forma receosa como iam, algo perigoso estava por vir.

Como Nicolas salvou a si mesmo. Parte dois: se um rei sapo falar com você, lembre-se de dizer “Vossa Majestade”.


oi oi! antes de começar a sua leitura, esteja certo de ter lido a parte 1, já publicada aqui no blog.

Além disso, quero deixar claro que me inspirei para as próximas partes na aventura Carnaval Carmesim do FlameReaper e no sistema de RPG Tormenta 20.

Agora, sem demoras… vamos a aventura!


Agora Nicolas estava do lado de fora com o Rei Sapo. Ouviu a porta de sua casa bater atrás de si. Nesse momento, o menino sentiu um arrepio na espinha… não havia mais escapatória. Estava saindo de casa de madrugada com um estranho. Sua mãe ficaria furiosa! A noite estava fria e escura, e uma névoa densa tornava o ar da serra pesado. Ele olhou para o Rei. 

-E então… o que posso fazer? 

-Primeiramente, você deve terminar suas frases com “Vossa Majestade”, criança. Respeite o Rei dos Sapos! 

-Perdão, Vossa Majestade… mas pode me dizer… o que… está acontecendo, Vossa Majestade…? 

Sem perceber, o garoto estava seguindo a majestade anfíbia em direção a uma grande carruagem flutuante em forma de vitória régia. Quando viu, assustou-se. Na carruagem mágica havia mais um sapo humanoide, bem menor e menos elegante. Parecia uma espécie de “capacho” do rei. Curvou-se quando chegaram até ele. O Rei pareceu ignorar sua presença. Sentou-se na vitória-régia e chamou Nico para se sentar também. O menino obedeceu. 

-Nicolas. Você sabe qual é o trabalho do seu pai? 

-Sei. Ele é, hm… Algo a ver com “gente”. O que era mesmo? – Ele pensou. Sua mãe já havia lhe dito… trabalhava em uma loja e era… “dente”? “crente?” Gerente! – Ele é gerente de loja. Isso, gerente.- E, quase se esquecendo: –  Vossa Majestade- acrescentou rapidamente. 

-Criança burra! – o rei disse, grosseiro. – Eu quis dizer o trabalho de verdade. Você acha que um trabalho comum como esse atrapalha tanto a rotina de um adulto, a ponto de não poder ver o próprio filho nem no feriado? Tolo. 

Os olhos de Nicolas brilharam de animação com aquela revelação, sem ao menos se perguntar como o rei sabia tanto a respeito do seu Pai. 

-Então, Majestade, qual é o trabalho de verdade dele?! 

-Ele é um grande aventureiro, rapaz… 

Nicolas franziu as sobrancelhas. “Então aventureiros existem?” Pensou. 

-Há uma cidade escondida, criança… Escondida atrás de todas essas montanhas da serra. Nessa cidade, tudo é muito diferente do que você imagina. 

A carruagem levantou voo. Agora flutuava por cima das árvores, onde o frio era ainda mais cortante. Nico se encolheu abraçando as pernas na tentativa de se esquentar. Não tirava os olhos do Rei, que começava a contar uma longa história, repleta de magia. E como toda boa história de magia, esta também começa com “era uma vez”. 

  Era uma vez, uma belíssima cidade escondida entre as montanhas. Com ruas de azulejo colorido, florestas fartas e rios puros, o nome do lugar diz muito sobre seus habitantes: Estranha. A cidade era grande o suficiente para comportar todo o tipo de criatura que você consegue imaginar, se sua imaginação for das boas (hoje em dia raramente é). Animais falantes, gnomos, fadas, elfos, minotauros, árvores encantadas humanóides e muito, muito mais. Quase nenhum humano conhecia aquela cidade, e aqueles que tinham o azar de passar por lá eram mortos pela grande redoma que protege o lugar e mantém a magia acesa. Porém, alguns humanos eram escolhidos pela Deusa para adentrar a cidade, mantendo-a abastecida não só de informações, mas também de suplementos que eles próprios não conseguiam produzir. Estes eram chamados de “aventureiros”, palavra que outrora possuía outro significado, mas essa, é outra história. O avô de Nicolas foi um dos mais leais aventureiros da Deusa. E, por carregar o sangue do preferido da divindade, o pai de Nicolas tornou-se também aventureiro. 

Durante o mês de fevereiro, a cidade comemora o Carnaval Carmesim, festival bastante semelhante ao realizado pelos humanos: brincadeiras, danças e muita cantoria. Mas infelizmente, naquela tarde, algo terrível aconteceu. 

Em uma plantação não muito longe da cidade, surgiu uma Tormenta. “Tormenta” é a maldição que flagela a cidade Estranha e outros lugares mágicos (sim, existem outros). Há quem diga que a maldição foi posta pelos últimos humanos que ainda se lembravam de como fazer magia, antes da Deusa tirar-lhes a memória. Essa parte, entretanto, o Rei Sapo ocultou do garoto. A Tormenta é uma tempestade de sangue ácido, que corrói corpos das criaturas, destrói plantações e deixa os sobreviventes (se houverem)insanos. Para que os habitantes de Estranha não sofram tanto com as tormentas, a Deusa segura em suas próprias mãos as nuvens vermelhas que aparecem nos céus. Mas nem sempre ela consegue extinguir todo mal da chuva sangrenta. E dessa vez, não havia conseguido. 

A  Tormenta se conteve sim, e quase sumiu. Porém, apesar da força da Deusa, criou-se uma bolha oriunda da tempestade. Nessa bolha, que ainda não se dissipara, o pai de Nicolas havia ficado preso. Por benção da Deusa, seu corpo não estava se dissolvendo ainda… Mas estava desacordado e não conseguia sair. 

-Os pesadelos, medos e angústias dele… é isso que o mantém lá. É o que alimenta a Tormenta. Foi por isso que a bolha o pegou: por que seu pai é cheio de suas próprias angústias. – Terminou o Rei Sapo. 

Durante todo esse tempo, Nicolas se mantivera quieto e concentrado na história. Estava maravilhado com a existência de um lugar tão mágico, mas também assombrado com o destino do pai. 

-Mas não entendo, Majestade… como eu posso ser útil em uma situação como essa? – 

-Você, pequeno Nico – começou o grande sapo, com um carinho que não havia antes. – Você é o único capaz de tirá-lo de seus próprios pesadelos. – 

O leitor deve estar se perguntando o que fez um Rei sair de suas terras e subir até o inseguro território humano apenas para buscar uma criança que poderia salvar um dos aventureiros. É claro que havia outros interesses por parte do Rei. Nicolas, ao contrário, não pensou nisso. Apenas aguardou ansioso a chegada até seu destino: A mágica e encantadora cidade Estranha. E orou em silêncio para a tal Deusa, pedindo que o pai ficasse bem.

Como Nicolas salvou a si mesmo. (Parte 1: é mais provável que um rei sapo apareça na sua casa do que seu pai biológico).

Estou muito empolgada em apresentar para vocês a primeira ficção do blog. Também é a primeira vez que eu mostro pro mundo uma fantasia escrita por mim e eu to muuuuito empolgada! Ele se passa na época de carnaval, mas esse não é o tema da história. Por isso, se você está lendo no futuro, onde já sou uma escritora famosa e traduzida pra várias linguas, pode continuar lendo tranquilo.

Aviso importante: esse conto será publicado em partes, então acompanhe para a parte dois, que sairá amanhã. Se você está no futuro, pode encontrar os seguintes na aba “contos”.

Então, vamos para o conto.


 Nicolas arrumou suas coisas e se sentou no sofá, ao lado do sr. Sapo, seu fiel bichinho de pelúcia. Levava na bolsa seus deveres de casa e aquele livro obrigatório que a professora havia passado para o feriado: “A árvore generosa”. Nico se lembrava de ter pedido para o pai ler com ele na ligação. 

-E aí eu te levo no parque! –  o pai disse, explicando ao filho os planos feitos para o feriado de carnaval. 

-E à noite, podemos ler o livro que a professora passou? – perguntou o menino, animado. 

-Claro! – respondeu, com falso entusiasmo –  Eu te busco aí na sexta. Vou combinar tudo com a sua mãe. Ah, ela te falou quanto dinheiro papai te deu esse mês? 

O menino não entendia o porquê do seu pai falar tanto do dinheiro que dava à sua mãe. “Pensão” é o nome que ela dá a esse dinheiro, mas não fala muito disso com o Nicolas… ela não acha que uma criança de 8 anos precisa entender tanto sobre dinheiro. Já o pai pensa diferente e comenta sobre isso em todas as poucas ligações que faz. Talvez, Nicolas pensaria quando fosse mais velho, seu pai visse a responsabilidade financeira como a única conexão entre os dois. 

Mas agora, tudo estava indo bem. Suas roupas estavam separadas e ele estava empolgado para passar a semana de carnaval com o pai. Secretamente, pensava que essa era uma ótima oportunidade para se mostrar mais próximo dele… esse lance de pai e filho, sabe? Nicolas mostraria que é um garoto legal e comportado, e talvez seu pai quisesse vê-lo mais vezes. 

  Seus pais haviam se divorciado quando ele era bem pequeno, e não tinha memórias dos dois juntos. Isso significa que não sentia falta deles como casal, mas ainda tinha a expectativa de criar um relacionamento com ele. Agora aos oito anos, Nico se tornou a criança que os professores descrevem como “excêntrico” e talvez “precoce”. O que na verdade quer dizer, caro leitor, que Nico é uma criança esquisita. E eu não digo só de jeito, apesar do seu fascínio exagerado por sapos e fungos, mas também na sua aparência. É mais miúdo que seus colegas, tem cabelos encaracolados lindos que vão até seus ombros, mas que geralmente está cheio de farelo de biscoito, chiclete e lego. Usa um óculos amarelo que, devido ao seu alto grau de miopia, deixava-o com olhos enormes. Talvez por esses motivos ele era deixado de lado pela maioria dos colegas de turma, sobrando-lhe apenas a mesa dos professores na hora do recreio. Tímido ao extremo, era sim um ótimo menino, mas terrível com habilidades sociais. 

Esperava ansioso enquanto a mãe e o padrasto ajeitavam coisas pela casa. Nicolas e o padrasto, que chamava de “tio” Tomás (crianças nessa idade parecem chamar qualquer adulto de “tio”), eram grandes amigos. O adulto o via com grande amor e responsabilidade, um afeto fraternal. O menino também o respeitava e o amava como um filho. Tinham doces memórias juntos, como aquela vez em que o padrasto presenteou o garoto com o sapo de pelúcia a dois natais atrás. Desde então, o menino não desgrudou do presente. Tomás é biólogo, e os dois têm longas conversas sobre anfíbios. 

Nico ligou a TV e colocou seu desenho favorito. Era sobre um garoto, seu irmão caçula, e seu sapo de estimação desbravando os segredos de uma floresta sinistra. “Desenho de criança grande”, sua mãe disse uma vez. Nicolas ficou orgulhoso por gostar tanto de desenhos de crianças grandes. 

O garoto reparou em sua mãe, que falava estressada no telefone. Não conseguia ouvir o que ela dizia, mas pelas suas expressões, ele podia imaginar do que se tratava… depois de alguns minutos, sua mãe se sentou ao seu lado. Ela parecia apreensiva. 

-Meu filho… 

Nicolas já conseguia ver em seus olhos a notícia responsável por trazer tanta frustração. 

-Ele não vem, né? – perguntou, incapaz de encará-la.

A mãe apenas apertou os lábios e fez que não com a cabeça. Se aproximou mais e abraçou o filho. 

Nicolas já conhecia aquele sentimento. A angústia da expectativa frustrada… ele não sabia dar nome para isso ainda, mas não esqueceria do sentimento nem quando fosse grande de verdade. Nicolas não chorava mais com essa sensação, mas isso não significa que não o machucasse: ainda ardia em seu peito, como se seu próprio coração tivesse ralado o joelho enquanto brincava feliz de pega-pega. Mas ralar o joelho do coração dói muito mais que o joelho normal, e nem beijinho de mãe consegue curar. 

O garoto aprendeu a não chorar, pela sua mãe. Ela não dizia, mas ele conseguia perceber que essas ocasiões também doíam nela. Ele se lembrou de uma vez que flagrou a mãe chorando enquanto desfazia a mala do filho. Naquele dia, ele iria passar o fim de semana no Rio de Janeiro com o pai. Mas ele disse que não ia conseguir subir a serra para buscá-lo. Sua mãe sempre se escondia para chorar, e por algum motivo, Nicolas se sentia culpado pela tristeza dela. 

Nico respondeu ao abraço da mãe e tentou sorrir: 

-Tudo bem, vamos ter outras oportunidades. – Ele disse, escondendo a tristeza e imitando uma frase que ouvia de adultos. 

A mãe continuou no abraço por alguns minutos, fazendo cafuné no seu filho. Depois, se separou dele com um beijo na testa para se dirigir a cozinha e preparar algo bem gostoso. Tudo que sua mãe fazia era bem gostoso, pensou Nico. 

O garoto se ajeitou no sofá confortavelmente. Abraçou o seu sapo e tentou voltar a atenção para o desenho. 

Falhou. Não conseguia afastar os pensamentos… 

Talvez seu pai ainda viesse. Talvez não viesse hoje, mas amanhã ou depois. Afinal, o feriado de carnaval duraria a semana inteira! Ou quem sabe ele viria para ficar com o garoto um dia só… ainda poderiam ler o livro juntos. Ele se fantasiaria de sapo. Não, melhor ainda, ele se fantasiaria de árvore para combinar com o livro. Seu pai se vestiria de sapo, isso sim. Ele riu da ideia. Seu pai vestido de sapo… seria um sapo enorme! Achou divertido pensar nisso. 

Ele estava caindo no sono enquanto imaginava a cena: Seu pai fantasiado de sapo, ele fantasiado de árvore e o Sr Sapo em seus braços. Todos olhariam para os dois. Poderia funcionar… 

O sono foi chegando lentamente… Nico pensava em como seria sua fantasia de árvore, e como seria a do seu pai, de sapo. Sapos escalam árvores? Árvores gostam dos sapos? Será que os sapos têm medo de altura? Conseguiriam pular dos galhos altos das árvores? Em meio a esses devaneios, Nicolas caiu no sono.    

***

Já era tarde quando Nico ouviu alguém bater na porta. Levantou-se de súbito. Seu pai! Só podia ser ele. Nicolas sabia que ele não iria abandoná-lo dessa vez! Olhou ao seu redor e percebeu que a casa estava silenciosa demais. Sua mãe e seu padrasto já deviam estar dormindo. As batidas continuavam na porta. Sem pensar duas vezes, Nicolas abriu. 

Ao ver o que estava do outro lado, se espantou. Com o coração disparado de medo, segurou o sr Sapo apertado contra o peito, e ajeitou os óculos em uma tentativa de ter certeza que o que estava vendo era real: do outro lado da porta, não havia o seu pai ou qualquer outra pessoa… era uma criatura gosmenta que cheirava a musgo. Tinha pele verde e dedos compridos. Uma bochecha larga, boca gigante e olhos enormes com fundo dourado e pupila preta horizontal ovalada. Tinha vestimentas vermelhas feitas de tecidos elegante, uma roupa que parecia da realeza. Ele poderia ter dúvidas a respeito do seu status real se a criatura não levasse na cabeça uma grande peça de ouro com pedras de esmeralda. Era uma grande coroa cintilante… 

Um rei. Um rei… sapo? Um rei sapo gigante na porta de sua casa. Nicolas estava ofegante. 

-Quando se está diante de um rei… – Sua voz era grave, bem como se esperaria de um sapo gigante humanóide caso visse um.  – Espera-se que se curve para sua majestade. – 

O garoto deu um passo para trás. Um rei-sapo-gigante- falante-humanóide. Ele hesitou, mas se curvou diante do rei. 

-Muito bem, pequena coisa mal-educada. Venha comigo. Você é o Nicolas, não é? 

-S-sim.. 

-Bom. Vista o casaco, calce o seu sapato e venha. 

-Eu tenho que avisar a minha mãe… 

Nicolas sabia que não podia falar com estranhos, muito menos ir embora com eles durante a noite. Mas também parecia muito difícil dizer “não” para um rei-sapo-gigante- falante-humanóide. E além disso, o rei parecia não dar muita opção. 

-Não há tempo para isso. Seu pai precisa de ajuda. 

-Meu… pai? 

-Sim, coisa. Venha logo. E não me faça repetir. 

Nicolas obedeceu. Colocou seu tênis especial que pisca, seu casaco de dragão e deixou na sua mochila apenas o necessário: um toddynho, uma ruffles, uma lanterna do bat sinal (se existe alguma situação em que essa lanterna pode ser útil, essa situação é agora) e seu livro. Talvez pudesse ler com seu pai quando o encontrasse. E claro, o Sr. Sapo foi em seus braços.  


Continua…

Ana Beatriz Rocha, 2024.

Nunca perca sua muíteza.

Quem me conhece sabe o quanto a vida acadêmica é importante para mim. (Inclusive, já citei isso em outros textos aqui no blog, e estou falando sobre isso mais uma vez… para vocês verem como isso é sério. Mas enfim…) O devaneio de hoje veio a partir de um desejo que tá na minha cabeça há tempos: pintar o cabelo de rosa. 

Aí você me pergunta: “Bia, o que tem a ver pintar o cabelo de rosa com o desempenho acadêmico?” Boa pergunta, caro leitor! Eis a explicação: 

Há uma senhorita influencer do mundo acadêmico que sigo nas redes sociais. Eu a via como grande fonte de inspiração (ou seria melhor dizer “comparação”?), já que a garota é mesmo impressionante: até em Harvard ela já estudou. Também é do campo em que eu sonho estar um dia, na pesquisa em saúde. O problema tem origem no momento em que eu decido que, para ter sucesso, não bastaria apenas dar o melhor de mim: eu teria que seguir todas as dicas mágicas dela. Que claro, ela vendia por um valor exorbitante. 

Eu estava obcecada, passava 80% do meu tempo falando dela e suas leis para sucesso e os outros 20% torcendo para alguém falar, para que eu falasse um pouco mais.

Calma, eu não cheguei a comprar o curso dela. Mas estava verdadeiramente cogitando. Eu estava obcecada, passava 80% do meu tempo falando dela e suas leis para sucesso e os outros 20% torcendo para alguém falar, para que eu falasse um pouco mais. (curtiu a referência, hein hein?) * rindo de nervoso. *   Assistia a todos os stories, lia todos os posts (incluindo as gigantescas legendas de reels que passavam dicas importantíssimas). Estava perto de venerá-la… e secretamente, também a invejava. Mas não é sobre inveja que vamos falar hoje (embora seja um assunto que pode render uma boa crônica mais tarde). 

Bem. Certo dia, essa influenciadora começa a falar sobre como devemos nos vestir. Segundo ela, temos que ir para a faculdade como se fossemos ser os apresentadores do Oscar. (ok, não é pra tanto). Mas ela defendia que devíamos nos vestir todos os dias, para todos os lugares, impecavelmente. Roupas no casual chic, sapatos brilhantes. Mas nada muito diferentão: vista-se como os outros… como seus professores. Como os professores de seus professores. Ou ainda melhor: como os professores de alguma universidade europeia elitista e muito muito muuuuito longe da sua realidade atual. Você não quer se vestir como um homem idoso europeu, intelectual e rico? Sinto muito, então você será pra sempre medíocre. 

É mais ou menos essa a teoria dela, e eu até concordo em parte. CALMA, DEIXA EU ME EXPLICAR! Não é novidade que a aparência é algo muitíssimo importante, e comunica algo. Não pega bem ir para a faculdade de pijama, por exemplo. Ou apresentar um seminário como quem acabou de sair da academia. Mas falar pra mim que eu tenho que me vestir todo dia com a seriedade de um professor phd da suécia? MONA, EU NEM TENHO 20 AINDA. TE MANCA!

uu, ok.  Deixa eu acalmar os ânimos. 

Na época que vi essa teoria, acreditei. Faz sentido, e infelizmente, pode até ter muita verdade nesse pensamento. Me cobrei para obedecer esses mandamentos, e passei a me preocupar não só com a roupa que ia na faculdade, mas a seriedade no estilo devia me acompanhar em todo lugar. Afinal, eu poderia encontrar algum professor no supermercado e acabar com as chances de conseguir uma bolsa de iniciação científica por estar usando chinelo. Né? 

A vida adulta (eu estou começando a descobri-la) não é fácil… Por que a gente coloca tanto peso em si para deixá-la ainda mais insustentável?

Graças ao bom Deus, não sustentei essa loucura por muito tempo. Contei para minha psicóloga sobre essa influenciadora, expliquei a ela todo o status que a estudante mostrava ter e falei de suas teorias sobre sapatos brilhantes=futuro brilhante. Terminei de explicar o caso e acrescentei: “eu queria tanto ser ela!”. Minha psicóloga respondeu: “Não, você não quer ser ela. Você pode querer chegar onde ela está, mas ela não tem nada a ver com você.” 

Cara… ela não tem nada a ver comigo. * explosão mental * 

  Nos dias que se sucederam, comecei a pensar no que teria a ver comigo afinal. (Parece que todos os textos têm tido esse ar de “quem és tu”. Crise dos 20 é sintomática, amigas.) Mais especificamente, comecei a pensar como EU gosto de me vestir, e o que EU gosto de comunicar com minhas roupas. Pensei também em como as pessoas ao meu redor se vestiam, com quais roupas meus professores davam aula e etc. Observei algumas coisas, que posso descrevê-las aqui para vocês: 

  • Gosto de me divertir montando looks. Essa percepção veio quando eu adquiri um par de brincos do Efalante (personagem de Ursinho Pooh), no dia seguinte da conversa com a psicóloga. Spoiler: usei eles na faculdade. 
  •  Para mim, conforto é importante. Conseguir usar roupas que me permitem ficar sem sutiã, sentada confortavelmente, e com pés descansados… isso é ELITE. 
  • Gosto de me sentir como uma protagonista de um filme alto astral. Gosto de colocar elementos coloridos nas roupas, ou então me aventurar em uma estética mais senhor-inglês-fofinho. 
  • Vejo a roupa como uma forma de me expressar em cada dia. Nem sempre estou igual, mudo a estética como mudo o humor. Estou me descobrindo.

Bem, em suma, era isso que eu tinha para compartilhar a respeito do meu estilo. Agora, voltemos para a problemática principal.

Tenho vencido essa mentalidade da influenciadora. Não só na área de vestimenta, mas também na área que envolve diretamente os meus estudos: isso não ocupará a parte central da minha vida. E é nessa tentativa constante de driblar as limitações que eu me coloco, que surgiu toda a dificuldade em pintar o cabelo de rosa. 

O que meus professores vão pensar de mim? Será que eu posso perder oportunidades por conta da cor do cabelo? Será que as pessoas não vão mais me levar a sério? Tudo isso rondava os meus pensamentos (e em certa medida ainda ronda). 

Mas hoje, fui tomada por um pensamento que me fez finalmente comprar a tinta rosa para o meu cabelo: Cara, nem eu me levo tão a sério. E nem quero, pra falar a verdade. Deixa a vida ser desse jeito, com essa leveza. Eu vou fazer 20 esse ano, como vocês sabem. Se eu começar a me limitar dessa forma nessa idade, imagina a infelicidade que vou ter nos próximos anos? 

Eu fico orgulhosa de não caber em um lugar que me colocaria em uma caixinha tão pequena.

A vida adulta (eu estou começando a descobri-la) não é fácil… Por que a gente coloca tanto peso em si para deixá-la ainda mais insustentável? Tá, talvez a forma que eu me vista possa impedir meu caminho até Harvard… Mas meu bem, por que eu ia querer estar em um lugar onde não se pode ser feliz? E eu não tô falando em ser sem noção não… tô falando de felicidade mesmo… criatividade… liberdade… Eu fico orgulhosa de não caber em um lugar que me colocaria em uma caixinha tão pequena. 

Isso me lembra do filme de Alice no País das Maravilhas de Tim Burton, quando o Chapeleiro Maluco se vira para a Alice e diz: “Nunca perca a sua muíteza”. 

Bem, é essa a mensagem final que eu quero deixar para vocês. 

Nunca perca a sua muíteza. 

Aqui é a bia do futuro passando para avisar que meu cabelo nem ficou tão rosa assim. Triste.

Metas para 2024

Na metade do ano de 2023, senti que eu não era o suficiente. Foi um ano de muitos fracassos, e por um tempo não conseguia ver meus sucessos. Isso me definiu por um tempo, e passei alguns meses de angústias. Não conseguia acompanhar as aulas da faculdade, não tirava notas tão boas, não me destacava (apesar das tentativas) e sentia que meu esforço não era reconhecido. Estive me puxando para um vale de pessimismo e demorei a entender o que estava acontecendo.

Quando, com a ajuda do meu namorado, percebi que não estava bem, finalmente fui capaz de levar o assunto até a terapia. Contei à minha psicóloga o que estava na minha mente: o sentimento de que nunca ia alcançar meus sonhos acadêmicos, que estava fadada a mediocridade, e que, apesar dos meus esforços, nunca seria reconhecida. Minha psicóloga me disse algo que jamais vou esquecer.

Sabendo de tudo que eu já havia conquistado, ela me disse: “Bia, você precisa começar a se apropriar do que é seu.” E ela não quis dizer me apropriar frente aos outros, mas para mim mesma, o outro dos outros.

Essa frase ficou na minha cabeça ainda que eu não estivesse entendendo o que ela quis dizer com aquilo na prática. Depois de alguns meses processando aquele conselho, comecei a compreender.

Foi como se uma luz acendesse em mim, trazendo o sentimento de encontrar o caminho quando se está perdido e exausto.

Me apropriar do que é meu agora, e não o que pode ser no futuro. Parece tão óbvio, tão fácil… como nunca tinha pensado nisso antes?

2024 foi chegando e desenhou-se no meu interior a expectativa de me apoiar ainda mais nessa apropriação. De forma natural e subconsciente, tracei metas simples que têm como ambição me aproximar da minha felicidade, como “cozinhar mais”, “escrever frequentemente” ou até “fazer piqueniques”.

Para os que pensaram que estou abrindo mão da faculdade e de todo sucesso que poderia ter, ou que me tornei simplesmente preguiçosa e hedonista, acalmem-se. Coloquei metas para a vida acadêmica também… mas dessa vez estão onde deveriam estar: em um espaço secundário, abaixo de metas que dizem a respeito de meu bem-estar e felicidade, visando favorecer minha conexão comigo mesma e com as pessoas que eu amo.

Talvez colocar a vida acadêmica nesse espaço me faça chegar ainda mais longe do que chegaria… ou talvez, durante essa caminhada, “longe” ganhe outro significado. E quem sabe onde estarei daqui uns anos… ?

Metas para 2024

  1. Cozinhar mais para mim mesma e para amigos e família.
  2. Escrever mais: retornar meu coração para a escrita e literatura.
  3. Organizar minhas finanças
  4. *(Meta acadêmica que não quero compartilha hahahah)
  5. Andar de bicicleta e dançar. Ser mais ativa fisicamente.
  6. Fazer mais piqueniques.
  7. Ganhar dinheiros 💸
  8. Criar o hábito de escrever no diário
  9. Manter contato frequente com a língua inglesa.
  10. Aprender python.

Obs.: Essa lista NÃO está em ordem de prioridade (nem sei se há uma ordem de prioridade).

Clarice na Cabeceira – Resenha

“Clarice na Cabeceira: jornalismo” é um livro perfeito para quem admira a autora e deseja sentar com ela em um café da tarde. Nas suas crônicas, de início aparece por trás de nomes de outras pessoas… mas quando foi contratada como cronista no jornal, mostrou a verdadeira face de Clarice. Algumas vezes, até dava um gostinho de sua ficção aos leitores de sua colona, e compartilhava aspectos rotineiro da sua vida. Na terceira parte do livro, vemos a Clarice como entrevistadora, onde não deixava silenciar sua forte personalidade mesmo diante dos entrevistados – sempre fazendo colocações com elegância.

“Eu não posso dar lição sobre escrever pois em mim o processo e a elaboração se fazem inconscientemente até que tudo amadureça e venha à tona.”

Clarice Lispector

A organização do livro é muito bem feita pela Aparecida Maria Nunes, que faz notas a respeito da imprensa da época e da própria Clarice. Através das falas da organizadora, conseguimos aprender um pouco mais a respeito do cenário jornalístico do Rio de Janeiro quando Clarice Lispector deixava por lá seus textos.

Nem sei bem como se escreve. Escrever é saber respirar dentro da frase. É por algum silêncio tanto nas linhas como nas entrelinhas para que o leitor possa respirar comigo, sem pressa, adaptando-se não só ao seu ritmo como ao meu, numa espécie de contraponto indispensável.

Clarice Lispector

O outro dos outros

Clarice Lispector já era adulta, mãe, escritora (conhecida dentro e fora do Brasil), e a admirada por todos á sua volta, quando confessou não saber quem era ela mesma. Isso transparece em muitos dos seus escritos, como uma agonia sem resposta.

“… eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos outros era eu…”

Clarice Lispector, De um caderno de notas.

Penso então que não devo me culpar se hoje, beirando os vinte, não sei responder à velha pergunta da intrigante lagarta azul “Quem és tu?”.

Muitas vezes durante a vida, me senti como uma estranha em mim mesma. Sonhava em me encaixar oficialmente em algum estereótipo. Quando adolescente, quis ser nerd. Fiz de tudo para conseguir usar aparelhos e óculos quadrados, e tentei mergulhar fundo na cultura pop. Falhei, não passei de uma nerd medíocre: nunca assisti aos filmes de Star Wars e nem consegui acompanhar qualquer HQ de super heróis. Quis então ser uma rainha da moda, com um blog onde ensinava a fazer looks estilosos… não durou nem dois meses: não tinha saco para montar looks.

A questão que me agoniava na época era ter alguns pontos semelhantes àqueles grupos aqui e ali, mas ainda assim não me encaixar verdadeiramente em nenhum. Apesar dos meus esforços, não me passava de alguém medíocre.

Em contra partida, enxergava padrões em meus colegas. Encaixava-os mentalmente em rótulos tão naturalmente… hoje, me pergunto se eles mesmos concordariam com os rótulos que eu os colocava em segredo. Acho que no fim das contas, é mais fácil encontrar padrões com o que se vê nos outros, do que com o que há dentro de si, nesse mar complexo e assustador que é a própria alma. Vai ver é por isso que eu nunca consegui encaixar a mim mesma em algo, porque via de camarote minhas próprias contradições e mudanças.

Sempre cobrei de mim mesma a perfeição, como se isso pudesse garantir meu espaço em algum grupo.

autora

Fato é, que sentindo-me medíocre, trabalhei para me tornar 100%. Se vou ser leitora, vou gabaritar todas as manias estereotipadas de um amante de livros. Se vou ser inteligente, não vou aceitar nada menos do que ser a melhor da turma. Sempre cobrei de mim mesma a perfeição, como se isso pudesse garantir meu espaço em algum grupo.

Desde muito nova, por exemplo, fazia redações modelo ENEM sem que meus professores tivessem me ensinado… coloquei como meta conseguir a nota máxima na redação logo na primeira tentativa no vestibular, e por um tempo, fiz de tudo para conseguir – para quem quer um spoiler: falhei.

Depois de alguns anos de terapia, pouco a pouco, consegui chegar mais perto de quem eu era, sempre traçando um “antes e depois” a cada passo dado em direção à minha própria descoberta de mim.

Acredito que seja aí que começa a minha história com esse blog.

Ao me conhecer, queria me apresentar novamente para vocês. Através das conversas por aqui, quero compartilhar um pouco dos meus sentimentos, reflexões, contos e até futilidades.

Então…

Senta, fica à vontade. Pegue uma xícara de café, vista suas meias favoritas e venha ler os devaneios, e qualquer coisa não produtiva que me faça feliz.

Bem-vindo, e muito prazer.

Bia Rocha.