Bora deixar de ser otário?

Ok, eu não faço ideia de como vai ser esse texto. Gosto de pensar nesse espaço como sendo um lugar livre de julgamentos… então se você pretende me julgar, guarde para você.

Vamos falar de assuntos sérios, seríssimos. Vou tocar em assuntos sem quase nenhum conhecimento sobre eles, então por favor, não confie nas minhas palavras.


Boa parte da minha pré adolescência e adolescência eu fui uma otária. Eu nem gosto de falar sobre isso – se pudesse taparia essa época como se fosse um lixo radioativo. Mas, é claro, não temos como mudar o passado… por isso, preciso encarar minhas fotos vestindo a camisa do Brasil e fazendo arminha (SIM GENTE, SIM!) e seguir a minha vida.

Pelo bem da minha saúde mental, eu costumo me defender para mim mesma argumentando: ora, eu nem tinha o cérebro totalmente desenvolvido naquela época! E adolescentes são influenciados pela família, pelas redes socias… pipipi popopo… eu sou a coitada da situação!!! Tenham pena de mim e do meu passado!!!

Sempre me pego refletindo a respeito do fato de que tudo bem tirar foto com a arminha no passado, MAS MEU DEUS DO CÉU POR QUE QUE AS PESSOAS AINDA ESTÃO NESSA VIBE??????? Sério, eu acho tão tão tão tão vergonhoso. E me recuso a pensar que essas pessoas, SABENDO DE TUDO QUE ACONTECEU ATÉ AQUI, são tão coitadinhos quanto a Bia adolescente foi. NÃO, ELES NÃO SÃO OS COITADINHOS!!!

Por coincidência, enquanto eu escrevia esse texto, presenciei uma horrorosa conversa de duas crianças que citavam frases de posicionamentos políticos completamente duvidoso. Eles também são vitimas da situação. Pobres crianças!

Outro dia estava jogando conversa fora com uma colega. Ela me disse que foi parada por uma pessoa em condição de rua que pediu que ela comprasse uma caixa de bala para ele vender no sinal. Ela disse que não compraria e mandou ele ir trabalhar. MONA, ELE TAVA LITERALMENTE TE PEDINDO PRA AJUDAR ELE A TRABALHAR!!!!! Sério, bora parar de ser otário? Isso me lembrou de uma notícia de tempos atrás em que o governo de sp colocou pedras sob viadutos e outros lugares onde ficavam pessoas em situação de rua para que eles não tivessem lugar onde ficar. O problema não é a desigualdade e pobreza extrema, o problema é essa pobreza ficar diante dos seus olhos. E assim, escondendo a pobreza da classe média (que se acha rica), ninguém fica incomodado e nada muda.

Outro papo de otário (e esse eu me orgulho de nunca ter caído): “não acredito no aquecimento global!”. Sério, quando as pessoas vão entender que a ebulição global não é algo tipo o papai noel em que você pode ou não acreditar. Para um pouco para pensar na temperatura extrema que tem feito! Ou nas doenças estranhas se espalhando! Ou nos insetos sumindo!

Quando eu era criança, eu vivia rodeada por joaninhas. Capturava elas em um pote de maionese e colocava plantinhas para elas comerem. Consegui juntar tantas que um dia decidi fazer uma competição com elas para ver qual seria a mais rápida. Montei uma pista com obstáculos e abri o pote. Aconteceu o óbvio: todas elas saíram voando e eu nunca mais as vi. Até hoje não sei qual delas era a mais rápida. E qual foi a última vez que você viu uma joaninha? Bem, talvez elas estejam apenas se escondendo de mim, já que prendi elas no passado…

De qualquer forma, se você “não acredita no aquecimento global”, pode ser que você seja meio burro. Sinto muito por estar te contando isso.


Comecei esse texto por que queria entender melhor meu posicionamento sobre as coisas. Acho que tô meio no estilo Manu Gavassi: meu posicionamento político é um laço no cabelo e bom senso crítico. No fim das contas, eu só quero ser uma pessoa boa – acho que essa é minha máxima política.

Acho que todo mundo seria mais feliz com uma pequena fazenda, uma vaquinha mimosa, vegetais sem agrotóxicos e sol na cara bem cedo. E é por isso que jogo Stardew Valley.

O mês do Glow Up

Meu Deus, quanto tempo eu não escrevo para vocês! Estou morrendo de saudades de publicar aqui – e é uma saudade boa, não uma cobrança… e isso é extremamente positivo.

Nesse meio tempo em que não estávamos nos vendo, completei vinte anos. É amigos, sou definitivamente uma jovem adulta. Palmas para mim! Queria escrever um texto bonito e reflexivo sobre isso, mas na verdade eu tô com preguiça… hoje quero escrever algo divertido e para meninas (minha própria coluna da Capricho! hihihi).

Como o título sugere, vou compartilhar com vocês, amigas, o meu glow up (imagine estrelas rosas nessa expressão toda vez que ela aparecer).

O mês de abril foi uma loucura: tive provas, aniversário e um profundo desanimo/revolta com meu curso. Como trancar a faculdade não pode ser a solução, eu vou focar em outras coisas. Me senti “apagando” e me perdendo por conta do curso, por isso decidi que em maio me esforçaria para mudar as coisas. Aqui estão algumas mudanças para o meu glow up (mãos de jazz e estrelinhas).

Lista do glow up

  1. Criar um cronograma capilar – Isso eu já comecei a fazer e já estou vendo resultados! Meus cachos estão lindinhos. Alegria!!!
  2. Cuidar da minha pele – Quem me vê pessoalmente (e até pelo instagram) sabe que ultimamente meu rosto está cheio de espinhas e manchas vermelhas. Eu não uso maquiagem para o dia a dia, então me incomoda muito ver meu rosto desse jeito. Já marquei o tratamento hihi. Também me incomoda algumas manchas escuras pelo corpo… Meta: marcar uma dermato!
  3. Fazer 10 minutos de exercício físico todos os dias – o mês de maio promete ser caótico, mas ainda assim quero tentar me tornar ativa. Não sei se vai funcionar, mas vou tentar.
  4. Fazer minha própria unha – fazer a unha é algo que eu odeio. Nunca fica bom e eu sempre me estresso no processo e acabo tirando todo o esmalte e preferindo desistir. Mas, em uma conversa com uma amiga, ela me contou o quanto esse momento de fazer a unha é relaxante para ela… assistindo um filme e testando coisas diferentes. Esse relato me lembrou que eu também odiava cozinhar – e o processo de aprender e gostar foi muito prazeroso! Por isso coloquei essa meta. E sempre gostei muito de art nails… será mais um desafio para o mês.
  5. Não menosprezar minha beleza – ui ui ui, que tópico empoderado! Pois é, cansei de deixar minha beleza em último plano. A partir de agora está permitido: gastar dinheiro sem culpa com a minha própria beleza, fazendo sobrancelha, depilação a laser e o que mais for necessário para me fazer mais feliz no meu corpo; fazer maquiagem para o dia a dia, atenuando imperfeições e ressaltando meus traços. Também tá permitidíssimo comprar acessórios, makes, esmaltes e todas essas coisas do mundo de meninas mulheres que por muito tempo achei fútil.

Acho que já chega da lista de coisas estéticas. Bora para a segunda (mas não menos importante) parte do glow up.

Glow Up na rotina

Para brilhar de verdade, eu preciso começar a entender o que tem de errado na minha vida hoje que me faz ficar tão desanimada e frustrada. A resposta não pode ser simplesmente “faculdade” porque já entendemos que isso é algo que não posso mudar. Então vamos pensar em como tornar essa fase da vida menos chata, afinal a faculdade não ocupa mais a parte central da minha rotina.

  1. Ter mais tempo de qualidade sozinha. Eu AMO ficar sozinha e PRECISO desses momentos pra ficar bem. Ler um livro, andar de bicicleta, assistir um filme, cozinhar… meu Deus, eu amo ficar sozinha! Tenho tido pouco tempo para isso, mas tá na hora de encontrar esse tempo.
  2. Voltar a ir para a igreja. Que saudade sinto dos momentos de louvor, dos meus amigos, das reflexões e da espiritualidade! Acredito muito que somos seres espirituais, e esse tópico sempre foi importante na minha vida. Mas desde a metade do ano passado, essa área vem sendo deixada de lado. Quero recuperar isso aos poucos.
  3. Ter uma rotina de escrita. Nesse momento, estou em um café com o notebook, batendo os dedos no teclado. Me esforcei para sair da cama e vir para cá, mas estou grata que fiz isso. Eu quero ser escritora e viver do que escrevo! Para isso, preciso praticar. Toda a semana me obrigarei a sair para escrever, nem que seja apenas um parágrafo. Me recuso a continuar ignorando meus sonhos.
  4. Estudar formalmente comunicação. Eu quero ser uma comunicadora da ciência. Quero estudar e crescer nesse sentido, então porque não começar agora, uma vez que o conteúdo da faculdade está me espantando? Assim eu estudo alguma coisa importante de verdade para mim, e não simplesmente para tirar boas notas. Posso ler livros sobre comunicação, fazer cursos, assistir aulas gravadas… as possibilidades são vastas e me sinto com sede desse conhecimento.
  5. Voltar a me aproximar da divulgação científica. Por conta do desanimo com o curso, me afastei inclusive daquilo que é importante para mim. Claro que isso piorou as coisas… vou me esforçar para ter novamente o carinho com a Liga Acadêmica de Divulgação Científica que presido, e também com minha página Mendel Once Said que ficou completamente abandonada.

Acho que basta de glow up por enquanto. Até porque nem sei como arranjarei tempo para tantas coisas! Acho que nada precisa ser perfeito… mas vou ficar satisfeita se pelo menos começar essas mudanças e mantê-las no básico. O foco vai ser cuidar melhor de mim e parar de chorar com a faculdade (difícil, viu?).

Espero que o mês de maio seja encantador para vocês. E que esse texto tenha te inspirado a cuidar melhor de si nessa fase da vida.

20 coisas que aprendi em 20 anos

Já é conhecimento de todos vocês que meu aniversário se aproxima (falta menos de um mês!) e eu estou super animada para mudar de dezena. Vinte anos! Nem eu achei que viveria até aqui. Sinceramente, achava que o mundo acabaria em 2020 (e que ano, hein!). Felizmente, sobrevivemos. E como estou reflexiva entrando nessa idade que pra mim é muito importante e representativa, decidi listar 20 coisas que aprendi (sobre mim, sobre os outros ou sobre a vida) durante esses 20 anos.

Vamos lá.

1. Existe uma mini bia dentro de mim que me cobra de maneira exaustiva em coisas minúsculas. Geralmente, quando eu estou ansiosa, é ela quem está no comando.

2. Ajudar os outros me faz feliz

3. ⁠Precisamos aceitar que vamos decepcionar nossos pais. Assim como nossos pais já decepcionaram os pais deles. É normal e complexo (quem sabe podemos conversar sobre isso em outro post?)

4. ⁠Me sinto viva quando ando de bicicleta

5. ⁠Sinto saudade das joaninhas e insetos.

6. ⁠Meu maior sonho é ser mãe e construir minha própria família.

7. ⁠Quando estou em dúvida a respeito da minha essência, é em Deus que preciso procurar.

8. ⁠Os adolescentes são muito injustos com os próprios pais.

9. ⁠Tem como ser uma adulta sem ser chata! Oba!

10. ⁠Trabalhar é gratificante.

11. ⁠Adoro fazer as pessoas felizes.

12. ⁠Preciso muito de momentos sozinha.

13. ⁠Gosto do silêncio.

14. ⁠A ciência é o “lugar” onde mais me encontro com o divino.

15. Escrevo porque preciso. É mais difícil _não_ escrever.

16. ⁠Seja a pessoa maluca na rua: você se torna muito mais feliz quando se permite dançar na chuva – e ninguém vai lembrar disso amanhã. Ninguém se importa o bastante.

17. ⁠A gentileza talvez seja a coisa que mais te leva longe na vida. Ainda é cedo demais para concluir algo.

18. ⁠Ninguém precisa gostar de ler. É um saco ficar obrigando as pessoas a gostarem de algo só pq algumas pessoas acham chique ou erudito. Se manca.

19. ⁠Chocolate com café é uma ótima combinação

20. Sinto saudade de ser criança

Dia das mulheres

Hoje é dia das mulheres, e eu não me sinto forte. Queria apenas ir pra casa, chorar, ficar na cama. É dia das mulheres e eu me sinto sozinha mesmo rodeada de pessoas. Não me sinto cheia de beleza, ou inspiradora, ou criativa… tudo isso que aparecem nas mensagens para as mulheres parece não caber a mim. 

Estou aqui no trabalho, frustrada e chorosa mais uma vez. Me sinto confusa, perdida, cansada, feia e desprezada. E eu não posso nem colocar a culpa da tpm! Acho que só precisava parar de ser eu um pouco. 

Feliz dia das mulheres para quem se sente perdida, sobrecarregado de sentimentos, cansada e confusa. 

Tudo foi feito para ser quebrado.

“Quando tudo foi feito para ser quebrado, eu só quero que você saiba quem eu sou.”

Iris, The Goo Goo Dolls

Estou tendo uma semana bem difícil. A volta às aulas da faculdade foi um grande choque de realidade – e também foi a primeira vez em toda a minha vida que voltei das férias sem querer voltar. Pois é. Uma grande mudança…

Tudo que eu queria era continuar no mundinho que estava construindo nas férias. Pode imaginar como foi assustador sair do meu ambiente de escrita criativa com sapos falantes, fadas e magia para um ambiente onde o tópico principal parece ser “câncer”? 

Mas a pior parte é retornar para a faculdade – ambiente que foi, por todo esse tempo, minha principal morada, o lugar para o qual eu guardava toda minha energia e onde eu encontrava os meus objetivos de vida – e perceber que em poucos meses o significado daquilo tudo mudou completamente. 

Acho que é tipo conhecer alguém que você endeusa muito. Quando você olha para aquela pessoa de verdade, sem os filtros que você havia colocado, você pensa: “ah, é isso?”

A faculdade não mudou, foi algo em mim que se alterou. Esse tempo que fiquei fora, bem como o tempo que estive frustrada com os estudos, me permitiram uma conexão com outras coisas que tem valor para mim. Eu não sou mais só alguém que estuda biomedicina, agora eu também me sinto alguém que pode escrever. Criar universos. Me sinto alguém que pode ao mesmo tempo publicar  tanto prosa, quanto artigos. E qual é o problema? É que isso também parece impossível

Estou me sentindo fragmentada. É como se tivesse diante de mim algumas versões minhas, e eu precisasse escolher apenas uma delas. Esse ano, escolheria a escrita. Ano passado, escolhi a ciência. Mas, internamente, eu tento ser forte… e não escolher. 

Quero abraçar os dois caminhos, e me sinto tão quebrada por isso! Eu olho para as outras pessoas ao meu redor. Na faculdade, parece que todos estão 100% dentro da biomedicina, nada passa na mente deles senão tumores e bactérias. No instagram, todos os perfis literários que eu sigo estão lendo sete livros por semana e evoluindo na própria escrita. E eu não tô fazendo nada… escolher os dois também parece não escolher. 

Minha psicóloga disse que eu estou tentando me dar a liberdade para ser mais leve nas minhas escolhas e permitir os interesses coexistirem, e quando eu vejo pessoas que estão ali tão decididas dentro de seus próprios e únicos interesses, essa minha liberdade é posta em prova. Eu acho que faz sentido. Mas essa pressão está me destruindo. 

Ouvi mais cedo aquela música “Iris”. Eu adoro essa música… Hoje esse trecho “Quando tudo foi feito para ser quebrado, eu só quero que você saiba quem eu sou” mexeu comigo. 

No fim das contas, eu não quero ser quebrada. E eu só estaria quebrada de verdade caso negasse a mim algum dos meus lados (seja a criatividade, seja a ciência). Mas tudo isso está me fazendo achar que não conheço mais a mim mesma de verdade. 

Acho que com todas essas liberdades que eu venho me dando, eu acabei permitindo coisas novas surgirem dentro de mim, sabe? E agora eu tô tentando conhecer essas coisas. 

O grande desafio daqui pra frente vai ser conhecer essa nova Bia, que não é fragmentada, é inteira, mas ainda assim é cheia de contrastes. 

Bom, até que tá ficando bonito. 

As férias mais importantes da minha vida (até agora)

Eu tenho uma tradição pessoal de fazer uma lista de desafios para as férias. Faço desde criança e me divirto muito dando os “checks” nos desafios. E essas férias foram com toda certeza a mais importante da minha vida – vocês vão entender o motivo.

Peguei aqui para ler com vocês os planos que havia feito para as férias. No meu caderno, intitulei a sessão de “O plano perfeito para as férias”… esse título não passa de uma grande mentira. Apesar desse tempo ter sido de fato PERFEITO, não foi graças ao meu planejamento.

Bem, meu primeiro erro foi pensar que passar as férias estudando e fazendo meu tcc, seria um bom plano. Listei CINCO cursos que queria me obrigar a concluir e separei um longo drive de artigos acadêmicos. HAHAHA. A Bia do passado estava MALUCA. Na época que escrevi isso, também queria fazer um curso presencial de verão… Mas acabei mudando de ideia e resolvi focar na escrita e leitura durante o período – graças a Deus eu fiz isso. Outros dos meus desafios de férias (esses não tão loucos), foram esses aqui:

  • fazer um date de leitura (feito)
  • cozinhar meus biscoitos de canela (feito)
  • visitar uma biblioteca
  • andar de bicicleta (feito)
  • finalizar pelo menos um bordado (feito)
  • começar organização nos meus armários (feito, mas já baguncei de novo)
  • doar livros (feito) Ah, e indico a todos que conheçam a iniciativa “Palavras com patas“.
  • começar scrapbook com o João
  • montar um quebra cabeça (não consegui terminar!)
  • fazer piquenique (feito)
  • participar da Maratona Literária de Verão (feito)

Como pode ver, esses desafios fizeram muito mais sentido com “férias” do que aqueles cinco cursos diferentes. E foi tão incrível fazer essas coisas! Dei a mim mesma o direito de descansar, e foi bem necessário.

Ah, quando eu digo que a Bia do passado era maluca, digo com propriedade: você acredita que, depois da segunda semana de aula do ano passado, eu simplesmente FIQUEI INTERNADA POR UMA SEMANA, e, eu tenho certeza, A EXAUSTÃO, ESTRESSE E COBRANÇA foram os maiores causadores para me deixar tão doente. Não tem como mentir: eu tenho um histórico de doenças causadas por estresse e ansiedade. Tenho literalmente uma pasta no Google Fotos para registrar minhas doenças caso seja preciso no futuro. Surreal.

Contei isso para ilustrar o quão essencial está sendo essa “virada de chave” na minha vida. Pois bem, agora que você entendeu que eu era MALUCA DAS IDEIA, você pode prosseguir a leitura.

Durante essas férias eu me conectei muito com minha parte criativa de uma maneira que não acontecia há tempos. Não tô dizendo que eu não fazia nada de criativo ano passado. Na verdade, produzir conteúdos de divulgação científica no Mendel Once Said cobrava de mim uma energia criativa imensa! Só que essa energia foi sumindo… não é a toa que eu acabei parando de postar por lá.

Mas a leitura foi algo crucial para eu retornar a mim mesma. Tudo começou com a leitura de “Um estranho sonhador“, que entrou para minha lista de livros favoritos. Esse livro me fez querer novamente escrever e retornar ao meu cenário de fantasia. Não parei por aí: devorei livros durante toda as minhas férias. Isso me salvou. (Claro, mais essencial do que isso foi a TERAPIA.) Porém a leitura me mostrou, na prática, o quanto a LEVEZA fazia falta na minha vida. E então, de maneira natural, fui encarando as coisas de um jeito mais leve.

Foi assim que minhas férias tomaram um caminho muito diferente daquele de “cursos de verão e tcc”. Durante esse tempo, viajei com família e amigos, joguei com meu irmão e namorado, recebi meus amigos em casa, andei de bicicleta, escrevi, comecei um blog cozinhei, fui para eventos, visitei lugares novos, fiz piquenique, pratiquei meu inglês, cuidei das minhas minhocas e das minhas plantas, comecei um caderno de receita e bordei. Sinto que cresci muito mais do que se eu tivesse seguido o primeiro plano.

Eu não tô dizendo que se você passou suas férias estudando você é louco…

Ok, talvez eu esteja dizendo isso, mas não é por mal. É só que eu percebi que viver com a cabeça desse jeito não estava me fazendo bem. E talvez não esteja fazendo bem para você também. Já pensou sobre isso?

A parte ruim disso tudo é que estou voltando para as aulas da faculdade e minha rotina começará a andar normalmente agora… e eu queria TANTO um tempinho a mais para continuar lendo e escrevendo! O desafio da vida real da bia universitária agora será conciliar leitura&escrita com trabalho, faculdade, pesquisa científica, iniciação científica, liga acadêmica e divulgação científica. Se eu não morrer depois da primeira semana, eu volto para contar para vocês como está sendo. Ou não.

Bem, era isso que eu tinha para compartilhar. Continuaria falando por horas sobre como amo ler de novo agora e como estou empolgada para escrever mais e mais. Só que se eu não finalizar esse texto logo, meu pão, que está assando, vai queimar. Então é isso. Beijo.

Ps.: ouça “Vienna” de Billy Joel para terminar esse texto em grande estilo – já que eu mesma fui incapaz de dar um bom final.

Ps2.: se o pão ficar bom, conto pra vocês no próximo post.

Como Nicolas salvou a si mesmo. Parte final: O Abraço de uma Deusa é o melhor lugar para chorar.

Oi, oi! Chegamos ao fim da jornada do pequeno Nico. Espero que vocês tenham gostado tanto quanto eu… Fiquei muito feliz de compartilhar tudo isso com vocês, e fico ainda mais contente em afirmar que a publicação desse texto me fez enxergar o quanto ele ainda pode melhorar. Obrigada a todos vocês que acompanharam! E se você ainda não leu as partes anteriores, pode encontrar o restante aqui.


Nicolas encarou a bolha diante deles. Era tempestuosa, brilhante e vermelha. Parecia feita de sangue fresco. As parreiras ao redor estavam secas, pareciam mortas. Quanto mais tempo a bolha ficasse ali, maior seria a área de destruição sobre elas. E o pai de Nicolas estava ali dormindo, flutuando no seu interior, desacordado. 

Lá dentro, o pai revivia seus piores pesadelos em looping. Coisas que nenhuma criança da idade de Nico pode imaginar, coisas que o moldaram como ele é. Ele não conseguia sair desse estado, e foi para isso que Nicolas foi chamado, para que, de alguma forma, se conectar com o pai lá dentro. 

-Como vou fazer isso? 

-Não sei… acho que talvez você possa falar com ele. – Sugeriu Carlin, com simplicidade. 

-Falar sobre o que? – 

-Ah… – ela parecia confusa com as perguntas. Pensava que o menino, de alguma forma, fosse saber exatamente o que fazer. – Sobre o que vocês costumam conversar?

-A gente não costuma conversar. – Nicolas respondeu, cabisbaixo. 

-Ué! Mas ele não é o seu pai? – Carlin estranhou a resposta. 

-Sim, mas… a gente não conversa muito. 

Houve um silêncio constrangedor enquanto Nicolas fechou os olhos para afastar a lágrima. 

-Veja… que tal só falar sobre você então? – Sugeriu a fada, hesitante. 

-Tudo bem. Acho que isso vai ser mais fácil. 

Nicolas se aproximou da bolha o tanto que conseguiu. Não tocou nela, teve medo de se ferir com a tempestade. 

-Oi, pai! – Nicolas começou, meio gritando. – Não sei se você pode me ouvir, mas… – Olhou para Carlin alguns metros atrás dele em busca de aprovação. Ela fez um sinal para ele continuar. – Sou eu, o Nicolas. Seu filho. A gente tinha combinado de passar o carnaval juntos… fiquei triste quando você não veio. Claro, isso foi antes de saber que você era um grande aventureiro. 

Nicolas encarou a bolha e nada havia mudado. Parecia que conversar não estava adiantando muito… mas ele continuou tentando. 

-Sabe, me disseram que você está tendo pesadelos aí dentro. Deve ser muito ruim, eu odeio pesadelos. Geralmente, quando tenho pesadelos, mamãe ou tio Tomás ficam comigo até eu pegar no sono de novo, e isso me ajuda. Eu posso ficar com você se você quiser. Assim você não tem mais pesadelos. – Dizendo isso, se sentou no chão e continuou falando. – Eu trouxe um livro para lermos juntos! Podemos ler quando você sair daí. – 

Quanto mais Nicolas falava, mais a percepção de que nada mudava o assolava. Foi se sentindo impotente, sozinho e com medo. Parecia que as coisas sempre caminhavam dessa forma: o garoto tinha a expectativa de melhorar tudo com o pai, deixar florescer um relacionamento juntos, fazer com que a distância entre os dois fosse reduzida. Mas sempre acabava frustrado: O pai nunca o ouvia e parecia sempre dentro de si, como estava agora. Nicolas sente o coração apertar. 

-Pai, por que você não veio me ver? Nada disso teria acontecido se você tivesse chegado na hora marcada! Sei que você é um aventureiro e aqui eles tem essa festa do Carnaval Carmesim, então é normal que você quisesse ir… mas e eu? Você não veio. – A voz do pequeno garotinho começou a falhar. – Você não vem. Você não liga… E quando liga, a gente nem tem sobre o que conversar! Eu sempre te espero… – As lágrimas brotam dos olhos de Nicolas, e ele esconde o rosto com as mãos. – Eu sempre espero tanto! Planejo, me arrumo todo, conto para todos os meus amigos que você vem… e aí, você não aparece. Mamãe chora. Eu me esforço para não chorar.. Você nunca vem. Nem mesmo me liga. E eu me sinto culpado. Parece que o problema está em mim. E eu não sei… não sei o que fazer. Não sei como te tirar daí de dentro. Não sei como me aproximar de você… é como se.. é como se a gente não se conhecesse… 

E entre seus choros e soluços, Nicolas ouviu atrás dele uma voz poderosa: 

-O que está acontecendo aqui? – 

Limpou suas lágrimas e virou para ver quem era a dona da voz. Uma mulher baixinha e rechonchuda, mas com uma presença forte olhava espantada para cena. Usava um grande vestido que parecia ser encantado. O vestido flutuava nela, e ela flutuava no vestido. O tecido era leve, marfim e repleto de flores. Parecia brilhar como as estrelas. Seus cabelos longos também estavam flutuando, como se tudo nela estivesse em um dinamismo perfeito e contínuo. Seus olhos verdes e a boca vermelha tinham agora uma expressão que unia raiva, espanto e sobretudo, preocupação. Seu olhar de águia analisava tudo: Carlin ajoelhada diante do corpo morto de Joan, os monstros em poças de sangue, Nicolas caindo em lágrimas do lado da bolha de tormenta. 

Carlin levantou-se rapidamente e reverenciou a mulher. 

-Kiara!

-Carlin, minha amada. Que cena de horrível destruição é essa? Eu não havia dito para todos ficarem longe disso?-  Ela falava amavelmente, como uma mãe. Mas sua voz era muito mais poderosa do que a de qualquer mortal. 

-Vossa Majestade Sapal ordenou… Ele foi buscar esse garoto ontem a noite… é filho do aventureiro. Está tentando acordá-lo. 

O olhar de Kiara encontrou o de Nicolas, e ele sentiu um arrepio subir pela espinha. Se ajeitou rapidamente e limpou as lágrimas, temeroso. Nunca havia se sentido tão envolvido na vida: aquele olhar parecia um abraço na alma, mas também inspirava nele muitíssimo respeito. 

-Pobre criança! Não acredito que ele envolveu o garoto nisso. E olha que destruição o menino presenciou! E a Joan… 

-Ela não resistiu… Os monstros foram cruéis demais com ela. – 

Kiara se ajoelhou ao lado de Carlin e pegou a mão de Joan. Fechou os seus olhos e respirou fundo, como em uma meditação. Chorou por Joan ao lado de Carlin, que a abraçou. 

Nicolas assistiu a cena, confuso. Kiara parecia um ser muito poderoso: por que simplesmente não podia ressuscitar Joan? Depois de um tempo em silêncio, Kiara se levantou e caminhou até o garoto. 

-Como é o seu nome? – perguntou ela, gentilmente. 

-Nicolas. – Ele respondeu, mesmo sentindo que ela já soubesse: ela parecia saber todas as coisas. Ela se sentou ao seu lado. 

-Esse é o seu pai? 

-Sim. Estou tentando salvá-lo. O Rei me trouxe para isso. – Nicolas deixou que sua agonia e tristeza transparecer em sua fala. – Mas não consigo… nada que eu falo é capaz de tirar ele desse estado… 

-Ah, pobre Nicolas… – Kiara o abraçou, acolhendo ele em seu colo. – Não é o dever dos filhos salvar os pais dos seus próprios pesadelos. Isso é algo que ele deverá enfrentar sozinho, e a culpa não é sua. Nunca foi. 

Ouvindo isso,  Nicolas encontra aconchego nos ombros da mulher, e volta a chorar. Derrama todas as lágrimas que quis esconder da mãe até aquele momento, lágrimas de quem se via como responsável em uma situação que não passava de vítima. Lágrimas de uma criança que tudo o que queria, era ler um livro com o seu pai. 

O abraço de Kiara proporcionava o ambiente mais seguro para chorar. Ali, ele se sentia protegido e entendido por ela. Visto como filho e também como indivíduo. Ela possuía uma espécie de energia contagiante, parecia olhar para o coração de Nicolas e curar o joelho ralado. 

Depois que Nicolas se acalmou, Kiara explicou: 

-Nicolas, o Rei só te trouxe até aqui porque ele esperava que você realmente destruísse a tormenta e libertasse, não o seu pai, mas o vinhedo real. Me envergonho em dizer que ele fez isso por ambição, e não por carinho. Acredito que ele mesmo não sabia que era uma missão tão desafiadora, mas para ele, foi tudo sobre dinheiro. Eu sinto muito mesmo você ter sido vítima de uma estratégia como essa. 

-Mas… o que vai acontecer com meu pai? 

-Eu não vou desistir dele, Nicolas. Prometo a você que continuarei tentando guiá-lo em um caminho onde seus pesadelos já não tenham mais efeito, um caminho onde ele poderá receber e oferecer afeto. Não é sua essa batalha, Nicolas, é dele e de mais ninguém. Nicolas assentiu com a cabeça, as lágrimas ainda escorrendo em seu rosto. 

-Me prometa uma coisa, Nicolas: Não deixe que seus pesadelos te aprisione dessa forma. Deixe espaço para o amor florescer em você e nos relacionamentos que vai construir. Se permita conhecer seus sentimentos e desfrutar dos instantes. O seu pai, há muito tempo se perdeu em si mesmo, em seu próprio egoísmo e mesquinharia. Foi por isso que a tormenta o pegou: porque ele já estava corrompido por dentro. Prometa que não deixará nenhuma tempestade tomar conta de você.

Nicolas levou a promessa a sério e ofereceu seu mindinho para Kiara. Não há nada mais forte do que “jurar de mindinho”. Ele a abraçou mais apertado e ela deu um beijo carinhoso na testa dele. 

-Agora, meu pequeno… – ela disse, segurando suas mãos e o olhando bem nos olhos. – Está na hora de voltar para casa.- 

***

Nicolas acordou quando mais um episódio do seu desenho começava na tv. Um cheiro delicioso de molho de tomate tomava conta da casa: sua mãe estava fazendo espaguete com almôndegas, seu prato favorito. Ao seu lado, a mala que levaria para a casa do pai continuava ali, intocada. O menino ajeitou os óculos e olhou ao redor: estava tudo exatamente como antes. 

-Ah, você acordou! – disse o tio Tomás – Vem jantar… fizemos sua comida favorita!- 

 Nicolas foi sentar-se à mesa com a família, e tudo estava de volta à normalidade. Na mente do garoto, as coisas mantinham-se vivas do início ao fim. Mas tudo não passava de um sonho bem vivido, não é?

Depois da refeição, Nicolas foi mandado para cama. Mas, antes de ir, olhou para sua mãe e Tomás:

-A gente pode ler um livro antes de dormir?- pediu. 

E foi assim que a noite terminou: com Nicolas, sua mãe e Tomás lendo seu livro. E naquele momento, ele não sentia mais a culpa, frustração ou a agonia. Sentia apenas o conforto, amor e ternura de estar em família. 

Uma família que, Nicolas tinha certeza, nunca deixaria que seu coração entrasse em tormenta. 

Como Nicolas salvou a si mesmo. Parte 4: Em uma batalha contra formigas gigantes, é melhor guardar sua língua.

Oi oi! Antes de começar a leitura, tenha certeza de ter lido as partes anteriores. Você pode encontrá-las aqui! Agora, vamos para a leitura.


O grupo se distanciava do centro da cidade a passos lentos. Com as pernas cansadas, Nicolas sentia-se cada vez menos motivado, e em nada ajudava o fato de que as pererecas não paravam de bocejar. 

A estrada de terra ia ganhando um contorno onde a mata nativa conversava com pequenas plantações e pastagens. Na copa da árvore havia pequenas casas de fadas, onde as crianças ajudavam bichos-preguiças a encontrar comida. 

Durante a caminhada, Joan, Carlin e Nico conversavam para se conhecer melhor e diminuir o peso da situação que assustava a todos. Nico descobriu que Joan, apesar de ser jovem, estava crescendo cada vez mais em sua patente dentro do exército de sapos. Era o sonho dela, desde criança, proteger a cidade dessa maneira, servindo ao povo e ao rei. Nico havia achado ela muito fria na primeira vista, mas agora que conversavam, percebeu que na realidade era um ser bastante gentil. Ela se casaria em breve. Seu casamento teria os mais deliciosos bolos já vistos, uma vez que sua noiva era a melhor confeiteira da cidade. Todos estavam convidados, e um chique concerto de sapos foi chamado para coaxar as canções favoritas das noivas, incluindo “O sapo que lava o pé” e “Ciranda dos vagalumes”. 

Carlin era ainda mais jovem que Joan. Começou a trabalhar no castelo há alguns meses e ainda não entende direito seu lugar lá. Está confusa. Atualmente é contratada para serviços manuais em madeira viva. Cria artefatos para o exército real… A fada reclama por ficar o dia inteiro enfurnada no castelo fazendo armas. Queria mesmo sair, explorar a cidade, viver coisas diferentes. Por conta disso, nem hesitou em seguir Joan na aventura. Quando envelhecer, Carlin diz que vai construir casas com sua magia. Coisas muito mais bonitas do que armas, na sua opinião. 

Caminharam por cerca de duas horas e meia quando avistaram, acima de um grande vinhedo, a bolha da tormenta. Ela era vermelha e parecia ser envolta por nuvens. Era possível ver raios de vez em quando, e, no seu interior, o pai de Nicolas parecia estar tomado por um sono repleto de pesadelos. Nico gritou. 

-Pai! – 

Joan agarrou o ombro do menino e o puxou para debaixo dos arbustos. 

-O que foi? Nós chegamos! – Exclamou a criança. 

-Fique quieto! Olha ali! – Joan apontou com a cabeça para algo na frente deles.

A poucos metros da bolha de tormenta, três monstruosidades protegiam a zona. Pareciam uma mistura de humano e formiga, com garras vermelhas assustadoras. Eles eram grandes e cascudos, com expressões nada amigáveis no rosto. Seria impossível passar sem serem vistos, então precisariam lutar. Nesse momento, Nicolas compreendeu o motivo daquela armadura e de toda a precaução das soldadas. 

-O que vamos fazer? – Questionou Carlin, assustada e entusiasmada ao mesmo tempo. Seus olhos pareciam ter sede de aventura.  

Joan pensou por um instante. 

-Estamos em maior número. Vamos conseguir sair dessa briga tranquilamente… – 

Dizendo isso, sentiu falta da sua equipe, de quem até então não tinha notado a ausência. Ela olhou para trás e viu que sua tropa estava longe, andando lentamente e caindo de sono. 

-Parece que elas foram curtir o Carnaval Carmesim… – Carlin disse – Ao invés de dormir durante a noite. – 

-Estes turnos são sempre complicados… – Joan disse, em uma tentativa de defender as parceiras, mesmo estando claramente com raiva da situação. De longe, fez um sinal para que recuassem. Teriam uma séria conversa sobre isso depois, mas agora ela queria evitar o estresse (e mortes desnecessárias), deixando elas longe.  

-Bem, então será só a gente. Três para três- Observou Carlin. 

Os três continuavam escondidos no arbusto. Os monstros estavam depois dos parreirais, há muitos metros de distância. Se aproveitaram disso para planejar os primeiros passos. Joan, que já tinha prática com batalhas, começou a passar as ordens. 

-Carlin, você consegue fazer alguma magia para distraí-los enquanto a gente se aproxima sorrateiramente? Se conseguirmos pegar eles de surpresa será muito melhor. 

Carlin fez que sim com a cabeça. 

-Ótimo. Quando eles estiverem distraídos, vamos nos aproximar. Nicolas, você vai escalar aquelas pedras enquanto eu e a Carlin vamos nos esgueirando pelas parreiras. Assim, lá de cima, você vai ficar mais protegido e conseguirá ter uma boa visão para atirar suas flechas. Nós devemos tomar muito cuidado para não chamar a atenção deles logo de primeira. Depois de nos posicionarmos, partimos para o ataque. 

Nicolas olhou para as rochas a sua esquerda planejando como escalaria. Não parecia tão complicado, mas ele teria que colocar os pés nos lugares certos para evitar qualquer barulho que pudesse revelar a presença deles ali. 

Carlin, obedientemente, foi a primeira a agir. Fez com que os galhos das parreiras ao longe se movessem, como se houvesse alguém passando por ali. Os monstros se viraram para olhar, e ficaram um tempo examinando a situação. 

Sem perder nem um segundo, Joan e Carlin caminharam furtivamente até as parreiras mais próximas dos monstros, e se esconderam ali. Nico também conseguiu escalar a rocha, se escondeu entre as pedras e agora estava se preparando para atirar suas flechas nos monstros. 

Assim que viu que suas companheiras haviam avançado, Nicolas mirou a flecha com seu arco encantado e envenenado e, com as mãos tremendo, atirou sua primeira flecha. Fosse sorte ou magia, ele atingiu bem no olho de um dos monstros, que precisou puxar a flecha para tirá-la, arrancando o próprio olho. As micotoxinas se espalharam pelo rosto da criatura e ele começou a se sentir zonzo. O poderoso veneno criado por Carlin logo chegaria ao sistema nervoso da criatura, deixando-a fraca, alucinada e com os membros paralisados. Ao mesmo tempo, Carlin faz com que as raízes das parreiras emaranham-se no monstro, mas espantada pelo horror da situação, acaba falhando e ele rompe as raízes com suas garras.

Enquanto isso, Joan lança sua língua para derrubar outra criatura, mas ele foi mais esperto: agarrou a língua da perereca e rasgou ela no meio, com um movimento certeiro e sangrento. Raivoso, salta para frente de Joan, e a agarra com suas mãos de formiga. Nicolas tenta avisar o anfíbio do perigo, mas ela está longe demais. E com o seu corpo úmido ardendo pelo ácido das garras monstruosas, ela nem tem tempo de gritar antes que o terceiro monstro se aproxime e atravesse suas garras no peito da guerreira. Seu corpo estremece antes de cair no chão com seu último suspiro. 

Por segundos que pareceram horas, Carlin e Nicolas encaram a cena em negação. Como, em poucos segundos de batalha, a mais experiente entre eles pode desfalecer dessa maneira? Uma lágrima silenciosa desce pelo rosto de Nicolas. Joan não voltaria para casa e nunca mais beijaria seu amor. Não conseguiria crescer no exército e nunca ouviria o coaxar do concerto que contratou para o casório. Na noite anterior, Joan havia dançado no carnaval com seu amor, mas hoje, em uma batalha tão rápida, perdia a vida. Seu corpo verde jazia no chão, e Carlin ainda olhou com uma esperança de que a guerreira pudesse levantar a qualquer momento. 

Carlin grita a morte de Joan, e invoca o espírito da natureza, equipando-se com arma e armadura divina. Seus olhos vibram com sede de vingança pela vida da colega. Nico, chorando pela situação e também repleto de  medo e raiva, atira a segunda flecha naquele mesmo monstro, e vê o veneno espalhar ainda mais pelos ombros dele. Como as monstruosidades não conseguem ver Nico, eles se concentram em Carlin, que consegue desviar das garras com o seu voo. 

Nico atira sua terceira flecha, e dessa vez, falha na pontaria acertando a bolha de tormenta atrás dos monstros. Isso causa arrepios em todos, e faz soar trovões assustadores vindos da bolha, e as criaturas se viram para encarar. Carlin aproveita do momento de distração dos monstros e acerta um deles com o seu bordão, atingindo-o bem no peito. Em resposta, o mesmo ataca a fada, jogando sua arma para longe deixando ela desarmada.  

Nessa confusão, os outros dois monstros (que já começavam a sentir os efeitos das micotoxinas) tentam acertar Carlin, mas acabam acertando um ao outro. Um deles cai no chão, já sem vida. Aproveitando da desordem das criaturas, Nico atira mais uma de suas flechas envenenadas, acertando o peito de um dos monstros, que também desfalece no chão. Carlin recua um pouco, se escondendo atrás da parreira para se concentrar nas magias e atacar a última criatura que ainda vivia. 

Nicolas, motivado pela sua vitória anterior, atira uma flecha na garra do monstro, que se desequilibra urrando de dor. Carlin aproveita a oportunidade para fazer com que as raízes por perto se arrastassem pelo corpo do monstro, chegando ao pescoço e sufocando a criatura. Com a sua última flecha, Nico acerta o peito do monstro, e o veneno se espalha pelo pescoço dele. Em agonia, o monstro que havia tirado a vida de Joan finalmente morre.  

-Conseguimos. – Suspirou Carlin, aliviada. 

Nicolas desceu das pedras ainda chorando e assustado. Caminhou até o corpo sem vida de Joan e se ajoelhou diante dela. Nunca havia presenciado uma morte tão de perto. 

-Ela morreu. Ela estava com a gente… e agora não está mais. Nunca mais. –  Murmurou. 

Carlin se aproximou do garoto com os olhos cheios de lágrimas e o abraçou. Os dois choraram juntos. 

Carlin silenciosamente fez crescer flores ao redor de Joan, para seu corpo repousar ali de maneira graciosa enquanto eles continuavam a jornada. Apesar da tristeza, não havia como parar agora. Era preciso que o menino conseguisse fazer contato com o seu pai, ainda que ele estivesse desacordado. Só assim, salvando o pai de seus próprios pesadelos, eles poderiam ficar juntos. 

Como Nicolas salvou a si mesmo. Parte 3: Chocolate quente é um ótimo café da manhã para quem acha que pode ser seu último.

Oi oi! Antes de começar a ler, tenha certeza de ter lido a parte 1 e parte 2 do conto! Você também pode encontrar todos os contos aqui! Agora vamos ao conto!


Ao fim da história, a inusitada carruagem do Rei Sapo já estava se aproximando da cidade. De longe, Nicolas não conseguia reparar nada de diferente: parecia uma típica cidade do interior do país, com muita vegetação, poucas construções altas e sem iluminação elétrica. A vitória-régia começou a abaixar voo e cruzou a parede que protegia a cidade. Nicolas não sabia disso, mas foi a magia da Deusa que o permitiu fazer a travessia, como permitia também os aventureiros. Ela podia sentir a presença dele ali mesmo sem vê-lo, e saber que não faria mal algum ainda que nunca tivesse falado com ele. 

Agora, perto o bastante para distinguir movimentos entre as copas das árvores, ele se deslumbrava com o que via. Fadas voavam aqui e ali, ajudando os animais noturnos e guiando flores que nasciam à noite. Observou uma das fadas que parecia ensinar filhotes rouxinóis órfãos voarem de seus ninhos. 

A pouca iluminação que tinha, vinha das estrelas e da lua, além de pequenas chamas flutuantes mágicas que iluminavam os caminhos principais. Ainda assim, era possível ver os ladrilhos coloridos e lindos jardins crescendo de maneira bagunçada e esplêndida. Cogumelos enormes saltavam aqui e ali, e alguns sapos coaxavam e brincavam em cima deles. Apesar das circunstâncias, Nicolas não conseguia esconder o sorriso: tudo ao seu redor tinha cheiro de magia, sonho e aventura. 

-Lá está. Lar doce lar. – Disse a Majestade, apontando para o palácio. 

Nico olhou para onde seu dedo apontava. Era um grande palácio que parecia ser feito de rochas e plantas. Se estivessem em qualquer outro lugar, talvez aquela construção fosse chamada de “abandonada”, mas em Estranha, era magnífica. Parecia mesmo uma estrutura viva. Vagalumes rodeavam as paredes do castelo, embora se escondessem sempre que os sapos passavam por eles. 

Ah, sim! Os sapos! Estavam por toda parte, obviamente. Madames e cavaleiros anfíbios, pulando no lago ou descansando nos troncos, e até dançando canções carnavalescas! Como são noturnos, estavam em plena atividade durante a madrugada. Nicolas se animou pensando no que seu padrasto (que compartilha com ele seu amor por animais) falaria se estivesse ali com ele. Ao passar pelos sapos, claro, os mesmos reverenciavam o Rei, que acenou para eles. 

A vitória-régia deixou o Rei e o garoto na porta do palácio, onde duas seguranças estavam prontas para escoltá-los para dentro. Assim fizeram.

O interior do palácio era tão estupendo quanto o lado de fora. Nicolas não podia deixar de pensar o quão lindo aquele espaço seria durante o dia. Com paredes altas, janelas grandes e plantas invadindo, cada centímetro do lugar parecia respirar.

No salão de entrada, um grande lustre com chamas amarelas proviam uma baixa iluminação no local. Como o ambiente era habitado por criaturas com visão noturna, eles não se preocupavam tanto com as luzes. No chão, quadrados vermelhos (de flores)  e verdes (de musgos) formavam um gigante tabuleiro de xadrez. No final da sala, ao centro, um grande trono para o Rei. Nas laterais, escadas de pedra levariam para o segundo piso. Cavaleiros anfíbios apareceram através das portas laterais e se colocaram à disposição da Majestade.  

-Este é o garoto que resolverá nosso problema. – Disse o Rei para os guardas. – Levem-no para o quarto de hóspedes. – 

“ ‘Nosso’ problema?” refletiu Nico. O rei, virando-se para ele, disse: 

-Durma, garoto. Amanhã de manhã as soldadas mais astutas do meu exército te guiarão na sua jornada. Tenha uma boa sorte. – 

Nicolas nem teve tempo para respondê-lo. Os guardas o levaram até o quarto, e ele soube que não veria o Rei novamente. 

*** 

O quarto de hóspede seguia a estética do restante do palácio, exceto por um detalhe: no teto, algum tipo de magia fazia com que o céu fosse reproduzido ali. Nicolas se deitou e observou as estrelas enquanto refletia sobre suas descobertas recentes. Uma cidade escondida, sapos humanóides, um pai aventureiro em perigo, fadas, magia… era tudo muito empolgante. Mesmo com tamanha excitação, sabia que precisava dormir caso quisesse ajudar o seu pai na manhã seguinte. Por isso, abraçou sua pelúcia e colocou-se para contar as estrelas. Pegou no sono na vigésima sexta. 

***

O sol invadia o quarto de hóspede fazendo Nicolas levantar-se antes mesmo que as soldadas viessem acordá-lo. Com a luz, ele podia agora ver melhor o seu quarto. Nas paredes de madeira cresciam heras e cogumelos, e joaninhas se escondiam entre as folhas. A janela aberta era convidativa para os pássaros que entravam e saiam de lá cantando. Grandes árvores podiam ser vistas, e nelas escondiam-se todo tipo de animais silvestres que a mata atlântica pode abrigar. Nessa cidade, os seres mágicos viviam em tão intensa harmonia com a natureza, que ela mesma parecia mais encantadora do que nunca, como se nela estivesse a real magia.

Nicolas sentiu cheiro de pão fresco e chocolate quente. Olhou em direção a porta e percebeu ali uma bandeja flutuante que acabava de surgir naquele lugar. Ele andou até ela, pegou, e voltou para cama para tomar seu café-da-manhã. 

O garoto sentia-se ao mesmo tempo como um membro da realeza e um grande aventureiro. Mal podia acreditar que aquilo estava acontecendo com ele! O que diriam quando ele contasse sobre isso? Bem, eles não iam conseguir acreditar… “De alguma forma,” pensou Nico “nem sei se eu mesmo acredito no fim das contas.”  Temia que fosse apenas um sonho em que ele acordaria a qualquer momento e estaria novamente em sua casa. E seu pai, nunca viria…  não porque ficou preso em uma bolha de pesadelos, mas sim porque ele não quis. 

Espantou da mente esse pensamento triste. É claro que era tudo real. Se não fosse, como esse chocolate quente poderia ser tão delicioso? Não podemos sentir gosto em sonhos, ou podemos? “Mas se é verdade…” pensou Nicolas, com uma pontada de medo “mamãe deve estar furiosa!”. 

Tomou o chocolate-quente cujo sabor era divino. Mais uma das coisas que Nicolas não sabe e é privilégio do leitor saber: o chocolate quente com notas de cogumelo e pétalas de orquídeas preparado pelas fadas é a bebida favorita dos seres mágicos exploradores – principalmente quando acreditam que trata-se de sua última refeição. Nessa manhã, na cozinha do palácio, alguma fada julgou que Nicolas talvez não voltasse de sua jornada… mas é melhor nosso mini-herói não saber disso. 

O garoto ouviu batidas em sua porta. 

-Pode entrar! – 

Seis soldadas-pererecas entraram no quarto. 

-Bom dia, senhor Nico. Eu sou a soldada Joan Beauchamp. Sob ordens da Majestade, vamos lhe acompanhar até a área da bolha de tormenta. 

Nicolas concordou com a cabeça. 

-Mas primeiro, precisamos te equipar. – Disse uma segunda soldada. 

Se dirigiram então para a parte externa do palácio, onde algumas fadas trabalhavam durante o dia. 

-Ei, Carlin. – Joan chamou. – Venha cá. Nosso amigo aqui precisa ser equipado. – 

Carlin, uma jovem fada ruiva, com vestes em marrom e um arco de folhas secas, se aproximou voando. 

-Oi! – exclamou alegremente – Quem é esse? – 

-Esse aí é o Nicolas. O Rei foi pessoalmente buscá-lo ontem. Ele vai nos ajudar a resolver o problema da bolha de tormenta. Ele é filho do cara.- Explicou Joan. 

-Ah… – Carlin ofereceu a Nico um olhar de compaixão. – Ouvi dizer que ele está péssimo. Sinto muito… – 

Nicolas sentiu seu coração pesar. Não sabia que a situação era tão grave. O que estava acontecendo, afinal? 

-Kiara sabe que ele está aqui? – Perguntou Carlin. 

-Bem, saber ela sabe, né? Mas pelo que dizem, o Rei não procurou ela antes. Joan respondeu em tom conspiratório. – Bem, vamos ao ponto: Faça uma armadura para ele, por favor. E um arco leve. Ele vai precisar. – 

Carlin fechou os seus olhos e se concentrou por uns segundos. Nicolas não entendia o que estava acontecendo. Porque ela não podia só buscar essas coisas para ele? 

Em menos de um segundo, as raízes das árvores próximas brotaram do chão e subiram pelas pernas do menino, formando uma armadura de madeira encantada e envolvendo-o.  Em suas mãos, surgiu um arco com madeira e cipó, com flechas envenenadas por micotoxinas.  

-Já atirou flechas alguma vez? – Perguntou Joan. 

-Só com Nerf, tia. – 

-Não sei o que é isso, mas espero que sirva. – Voltando-se para as outras soldadas e Carlin: – Bem, sem mais perder tempo. Vamos logo. – 

Elas se colocaram em posição, com Nicolas no meio delas, sendo protegido. Haviam andado alguns passos quando Carlin grita: 

-Esperem! – 

Pousando bem a frente deles, com seus pés descalços na terra úmida, encarou Joan com um olhar suplicante: 

-Posso ir também? 

-Não. – Ela disse, seca. 

-Mas eu posso ser útil! 

-Já disse que não. 

-Por favor! 

-Não! – gritou Juan. 

-Bem, eu vou de qualquer jeito. Se você me aceitar com o grupo, ficarei mais protegida, se for escondida, então não terão como me proteger. 

Juan deu-se por vencida. Carlin tinha essa fama de ser insolente o bastante para conseguir tudo o que queria, e além disso não pegaria bem uma fada machucada por culpa dela. 

E então, seguiram pelo caminho seis pererecas, uma fada e um menino. 

Nicolas se perguntava por que raios toda essa preparação. Pelo que havia entendido do Rei, o garoto ia chegar perto da bolha onde seu pai estava preso e começar a conversar com ele, na tentativa de que isso pudesse o acalmar e interromper a retroalimentação da tormenta com os pesadelos dele. Mas pela forma receosa como iam, algo perigoso estava por vir.

Como Nicolas salvou a si mesmo. Parte dois: se um rei sapo falar com você, lembre-se de dizer “Vossa Majestade”.


oi oi! antes de começar a sua leitura, esteja certo de ter lido a parte 1, já publicada aqui no blog.

Além disso, quero deixar claro que me inspirei para as próximas partes na aventura Carnaval Carmesim do FlameReaper e no sistema de RPG Tormenta 20.

Agora, sem demoras… vamos a aventura!


Agora Nicolas estava do lado de fora com o Rei Sapo. Ouviu a porta de sua casa bater atrás de si. Nesse momento, o menino sentiu um arrepio na espinha… não havia mais escapatória. Estava saindo de casa de madrugada com um estranho. Sua mãe ficaria furiosa! A noite estava fria e escura, e uma névoa densa tornava o ar da serra pesado. Ele olhou para o Rei. 

-E então… o que posso fazer? 

-Primeiramente, você deve terminar suas frases com “Vossa Majestade”, criança. Respeite o Rei dos Sapos! 

-Perdão, Vossa Majestade… mas pode me dizer… o que… está acontecendo, Vossa Majestade…? 

Sem perceber, o garoto estava seguindo a majestade anfíbia em direção a uma grande carruagem flutuante em forma de vitória régia. Quando viu, assustou-se. Na carruagem mágica havia mais um sapo humanoide, bem menor e menos elegante. Parecia uma espécie de “capacho” do rei. Curvou-se quando chegaram até ele. O Rei pareceu ignorar sua presença. Sentou-se na vitória-régia e chamou Nico para se sentar também. O menino obedeceu. 

-Nicolas. Você sabe qual é o trabalho do seu pai? 

-Sei. Ele é, hm… Algo a ver com “gente”. O que era mesmo? – Ele pensou. Sua mãe já havia lhe dito… trabalhava em uma loja e era… “dente”? “crente?” Gerente! – Ele é gerente de loja. Isso, gerente.- E, quase se esquecendo: –  Vossa Majestade- acrescentou rapidamente. 

-Criança burra! – o rei disse, grosseiro. – Eu quis dizer o trabalho de verdade. Você acha que um trabalho comum como esse atrapalha tanto a rotina de um adulto, a ponto de não poder ver o próprio filho nem no feriado? Tolo. 

Os olhos de Nicolas brilharam de animação com aquela revelação, sem ao menos se perguntar como o rei sabia tanto a respeito do seu Pai. 

-Então, Majestade, qual é o trabalho de verdade dele?! 

-Ele é um grande aventureiro, rapaz… 

Nicolas franziu as sobrancelhas. “Então aventureiros existem?” Pensou. 

-Há uma cidade escondida, criança… Escondida atrás de todas essas montanhas da serra. Nessa cidade, tudo é muito diferente do que você imagina. 

A carruagem levantou voo. Agora flutuava por cima das árvores, onde o frio era ainda mais cortante. Nico se encolheu abraçando as pernas na tentativa de se esquentar. Não tirava os olhos do Rei, que começava a contar uma longa história, repleta de magia. E como toda boa história de magia, esta também começa com “era uma vez”. 

  Era uma vez, uma belíssima cidade escondida entre as montanhas. Com ruas de azulejo colorido, florestas fartas e rios puros, o nome do lugar diz muito sobre seus habitantes: Estranha. A cidade era grande o suficiente para comportar todo o tipo de criatura que você consegue imaginar, se sua imaginação for das boas (hoje em dia raramente é). Animais falantes, gnomos, fadas, elfos, minotauros, árvores encantadas humanóides e muito, muito mais. Quase nenhum humano conhecia aquela cidade, e aqueles que tinham o azar de passar por lá eram mortos pela grande redoma que protege o lugar e mantém a magia acesa. Porém, alguns humanos eram escolhidos pela Deusa para adentrar a cidade, mantendo-a abastecida não só de informações, mas também de suplementos que eles próprios não conseguiam produzir. Estes eram chamados de “aventureiros”, palavra que outrora possuía outro significado, mas essa, é outra história. O avô de Nicolas foi um dos mais leais aventureiros da Deusa. E, por carregar o sangue do preferido da divindade, o pai de Nicolas tornou-se também aventureiro. 

Durante o mês de fevereiro, a cidade comemora o Carnaval Carmesim, festival bastante semelhante ao realizado pelos humanos: brincadeiras, danças e muita cantoria. Mas infelizmente, naquela tarde, algo terrível aconteceu. 

Em uma plantação não muito longe da cidade, surgiu uma Tormenta. “Tormenta” é a maldição que flagela a cidade Estranha e outros lugares mágicos (sim, existem outros). Há quem diga que a maldição foi posta pelos últimos humanos que ainda se lembravam de como fazer magia, antes da Deusa tirar-lhes a memória. Essa parte, entretanto, o Rei Sapo ocultou do garoto. A Tormenta é uma tempestade de sangue ácido, que corrói corpos das criaturas, destrói plantações e deixa os sobreviventes (se houverem)insanos. Para que os habitantes de Estranha não sofram tanto com as tormentas, a Deusa segura em suas próprias mãos as nuvens vermelhas que aparecem nos céus. Mas nem sempre ela consegue extinguir todo mal da chuva sangrenta. E dessa vez, não havia conseguido. 

A  Tormenta se conteve sim, e quase sumiu. Porém, apesar da força da Deusa, criou-se uma bolha oriunda da tempestade. Nessa bolha, que ainda não se dissipara, o pai de Nicolas havia ficado preso. Por benção da Deusa, seu corpo não estava se dissolvendo ainda… Mas estava desacordado e não conseguia sair. 

-Os pesadelos, medos e angústias dele… é isso que o mantém lá. É o que alimenta a Tormenta. Foi por isso que a bolha o pegou: por que seu pai é cheio de suas próprias angústias. – Terminou o Rei Sapo. 

Durante todo esse tempo, Nicolas se mantivera quieto e concentrado na história. Estava maravilhado com a existência de um lugar tão mágico, mas também assombrado com o destino do pai. 

-Mas não entendo, Majestade… como eu posso ser útil em uma situação como essa? – 

-Você, pequeno Nico – começou o grande sapo, com um carinho que não havia antes. – Você é o único capaz de tirá-lo de seus próprios pesadelos. – 

O leitor deve estar se perguntando o que fez um Rei sair de suas terras e subir até o inseguro território humano apenas para buscar uma criança que poderia salvar um dos aventureiros. É claro que havia outros interesses por parte do Rei. Nicolas, ao contrário, não pensou nisso. Apenas aguardou ansioso a chegada até seu destino: A mágica e encantadora cidade Estranha. E orou em silêncio para a tal Deusa, pedindo que o pai ficasse bem.